domingo, 22 de fevereiro de 2009
Cidade Biz - Economia, Marketing e Negócios - Coisa esquisita: bancos relutam financiar usina do PAC sem risco algum e com repasse do BNDES
Banca privada assumiu só 28% do financiamento de R$ 7,2 bi para a usina do Jirau, em vez dos 50% previstos
19.02.2009 - 13:58
Antonio Machado
Ou os banqueiros brasileiros decidem logo o que querem da vida ou não demora e a chapa vai esquentar, descobrindo-se sem guarda nem retaguarda até dos que sempre os defenderam no empresariado e no governo.
Eles sabem que o quadro de maior seletividade do crédito e aumento dos juros, seqüelas da grande crise econômica no mundo, criou um ambiente hostil - “um clima contra os bancos”, segundo o presidente da Febraban, a entidade do setor, Fábio Barbosa.
Dias atrás o presidente da FIESP, Federação das Indústrias de São Paulo, Paulo Skaf, pediu cadeia para banqueiros ao denunciar que o spread, que representa a margem entre os juros pagos ao investidor e os cobrados dos empréstimos, passava de 40% até em operações de baixo risco, como capital de giro. Barbosa não negou. Respondeu em entrevista que “o spread no Brasil é o mais elevado do mundo”.
E deu os motivos: impostos, recolhimento compulsório de parte dos depósitos pelo Banco Central, outra parte direcionada para crédito a juros subsidiados, inadimplência, custos operacionais. Ok.
Só que diante de uma galinha morta oferecida sem risco algum, com sólida retaguarda do governo, a maioria dos bancos consultados há semanas para financiar um dos melhores negócios do momento no país preferiu morgar com o dinheiro entesourado, normalmente em títulos públicos, a ter de emprestá-lo. E olhem que os devedores são o que há de mais sólido na praça. E agora? Em nota, a Febraban disse que não se pronuncia sobre “políticas de negócios de seus associados”.
O que a banca refugou foi nada menos que o financiamento para a construção da hidrelétrica de Jirau, uma das duas usinas licitadas pelo governo no rio Madeira - obras do PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, menina dos olhos do presidente Lula e da ministra Dilma Rousseff. O funding de Jirau, como de Santo Antonio, a outra usina licitada, nunca foi problema. Problema é o carão da banca.
O que eles temem?
Por liberalidade do BNDES, maior financiador da infraestrutura no país, o edital de licitação abria à banca privada uma participação de até 50% do financiamento, orçado em R$ 7,2 bilhões. E isso como agente repassador do dinheiro do próprio BNDES.
Isto é: nem teriam os bancos que usar suas próprias reservas. Ao BNDES convém não concentrar os financiamentos em grandes e poucos projetos.
Nada há também a obstar contra os contratantes do financiamento, o consórcio Energia Sustentável. À sua frente está a franco-belga Suez, um mamute controlado pelo governo da França. Os outros são a empreiteira Camargo Corrêa, responsável pela construção da usina, e duas subsidiárias da estatal Eletrobrás, Chesf e Eletrosul.
Omitindo-se do país
Tais empresas representam a elite empresarial do país. Se também elas se sujeitam à “aversão ao risco” dos bancos brasileiros, é o caso de o Banco Central submeter a severo escrutínio os conceitos usados na avaliação de risco de crédito, porque, como está, parece que à banca arriscada é qualquer coisa relacionada a Brasil.
Como desconfiar de uma obra contratada pelo Estado? De uma usina hidrelétrica que, depois de pronta, será operada em concessão por trinta anos? Com a produção futura de energia já comercializada e regra definida de correção da tarifas? Com tomadores avaliados com nota de crédito triplo A, a mais alta. Tudo é muito esquisito.
Enigma a decifrar
Depois de muito esforço, o BNDES conseguiu repassar apenas 28% do valor do financiamento a bancos privados. O grosso, 72%, ficou com o próprio BNDES e mais Banco do Brasil, Banco do Nordeste e CEF, chamados para fechar a operação. Se isso acontece com clientes desse naipe, pequenas e médias empresas são tratadas a pão e água.
O ministro Guido Mantega, por sugestão do BNDES, negocia estender à banca o conforto do seguro de crédito, com o governo assumindo o maior naco do risco de inadimplência. Talvez assim o crédito volte a fluir. Mas nem essa gambiarra nem o comportamento dos bancos são compreensíveis. Nos EUA, enfiados na crise, vá lá. Aqui é enigma.
Dirigismo à vista
Os percalços do crédito poderão voltar-se a médio prazo contra os bancos. Barbosa, da Febraban, diz não aceitar que ele e o sistema financeiro sejam acusados de “sacanas”. Skaf, da FIESP, já disse o que pensa. É forte a pressão para o governo intervir, impondo mais dirigismo sobre o crédito.
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, já os expôs às intempéries da crise ao desviar da Selic para o spread bancário o foco da crítica contra os juros recordes, o que também respingou no BB e na CEF, cujas taxas são só um fiapo menor que as dos bancos privados.
Bem antes da crise Meirelles foi instado a aliviar o compulsório com taxa e prazo direcionados. Não ameaçava a meta de inflação, segundo um estudo. Agora é a hora."
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