domingo, 29 de março de 2009

27/03/2009 - 11h03
Educação financeira para uso do crédito

Por Wilson Bispo, da Envolverde

O volume de crédito colocado à disposição da sociedade brasileira cresceu muito nos últimos anos. Esta nova facilidade pode levar a problemas pelo uso exagerado e a alta inadimplência.

Muitas pessoas que, por anos ficaram de fora do sistema financeiro, agora têm dificuldade de gerenciar serviços como financiamentos, cartão de crédito e até mesmo a conta corrente. O resultado desta “falta de consciência financeira” é uma legião de endividados e aumento crescente do número de inadimplentes. Preocupadas, instituições financeiras têm investido em programas de educação para o uso do crédito.

A MasterCard Worldwide lançou o programa Consumidor Consciente de educação financeira. Já presente no México e na Costa Rica, a ação traz informações sobre o uso responsável do dinheiro e orienta como evitar dívidas. O Programa, formatado em um portal eletrônico, planeja alcançar os jovens e um público que ascendeu de classe e que só agora dispõe desses serviços. “Há uma massa começando a usar ferramentas financeiras como cartões de crédito e débito sem saber como. O grande objetivo é levar mais informação sobre como utilizar os meios de pagamento”, destaca Gilberto Caldart, presidente da empresa no Brasil.

Um dos destaques do Consumidor Consciente é a linguagem simples, de fácil entendimento. “É importante alinhar a mensagem, então teremos pessoas normais respondendo para pessoas normais, sem economês”, ressalta Caldart. Para interagir com esse público o portal conta com a dupla Conrado Navarro e Ricardo Pereira do blog Dinheirama (http://dinheirama.com), eleito e premiado dois anos consecutivos como o melhor blog de negócios e finanças pelo voto popular do concurso Best Blogs Brazil (2008-9). “Nós, que trabalhamos com educação financeira, ficamos muito satisfeitos em participar deste projeto”, confessa Navarro. O Consumidor Consciente também contará com podcasts (arquivos de áudio) que serão livres para download e publicação em outros sites da web.

Ao menos neste primeiro momento o portal está focando em saneamento financeiro e informações aparentemente muito simples, como o que é um cartão de débito. Questionado sobre se as classes C e D procurariam e teriam acesso das informações do portal, Conrado afirma que a experiência do Dinheirama aponta que metade dos cerca de 3 mil acessos diários do blog é feito por pessoas da classe C, D e E, que acessam do trabalho ou lan houses. O conteúdo do Programa Consumidor Consciente pode ser acessado no http://www.consumidorconsciente.org.

Já o Itaú realizou ao longo da semana do Dia Mundial do Consumidor, 15 de março, uma série de palestras e chats sobre consumo consciente, planejamento financeiro e direitos do consumidor. A Semana do Consumidor, como foi chamada, fez parte do programa Uso Consciente do Dinheiro, lançado em 2004 pelo banco. “Como instituição financeira, acreditamos que é nosso papel disseminar o debate sobre o melhor uso do dinheiro junto à sociedade. Desde 2004 mantemos uma série de iniciativas dentro desse escopo e a idéia é maximizá-las ao longo desse ano”, afirma Ricardo Terenzi, diretor de Relações Institucionais do Itaú. O Programa conta com sete pequenas cartilhas que tentam de maneira simples abordar o funcionamento e questões relacionadas ao uso do dinheiro: Crédito, Conta Corrente, Cartão de Crédito, Orçamento Familiar, A hora de Investir, Saindo do Vermelho e Falando de dinheiro com seus filhos. As cartilhas podem ser encontradas em qualquer agência ou na página do banco.

Informação para não se dar mal e investir bem


O primeiro do ciclo de debates Diálogos Itaú de Sustentabilidade deste ano também fez parte da Semana do Consumidor promovida pela organização. Com os temas Consumidor Consciente e Planejamento Financeiro, o evento teve dois momentos distintos. O primeiro com o diretor executivo da Fundação Procon de SP, Roberto Pfeiffer, que destacou a informação como a peça central de qualquer operação financeira. “Há uma assimetria, uma vulnerabilidade da relação fornecedor/ consumidor. O fornecedor é munido de todo um aparato técnico. O consumidor não tem isso à disposição. É dever da instituição financeira informar bem”, concluiu. Um grande problema apontado por Pfeiffer são os contratos. Além de “o setor financeiro ser avesso a contratos prévios”, eles são de difícil compreensão. “Já foi pedido à Febraban uma versão de contrato simplificado para total entendimento”, salienta.

Mas mesmo as informações que deveriam ser mais simples são problema. No setor de cartões de crédito, onde acontecem mais conflitos com o consumidor, há falta de informação sobre casos inadimplência e, principalmente, do crédito rotativo. “Tem gente que paga o mínimo do cartão e acha que está tudo bem, não tem idéia de que terão de pagar os juros mais altos do mundo”, se indigna. Pfeiffer ressaltou que é uma evolução em termos de legislação o Supremo Tribunal Federal ter estendido a proteção ao consumidor aos serviços financeiros. “O problema é que a população só vai pedir ajuda depois que o problema acontece, não procuram uma orientação prévia. Os fornecedores de crédito têm de investir em educação, mas às vezes é displicência do consumidor não se informar”, conclui. O Procon-SP oferece cursos e palestras sobre educação financeira - http://www.procon.sp.gov.br/cursos.asp.

O segundo momento do evento contou com a palestra do consultor financeiro Gustavo Cerbasi, autor de livros como Casais inteligentes Enriquecem juntos. Com o foco em planejamento financeiro, o palestrante frisou que seu tema quer dizer pensar no futuro. “As pessoas já pensam em viver 100 anos. Como vai ser minha qualidade de vida lá? E vai que dou o azar de viver 120 anos?”, provoca Cerbasi. Ele afirma que o grande problema no Brasil é que não há planejamento e se gasta mais do que se ganha, o brasileiro vive endividado. “Trinta por cento da renda do brasileiro é pra pagar juros. É cartão de crédito, cheque especial, financiamento da carro, imóvel... Se houvesse planejamento, com o que se paga de juros daria pra gastar mais no presente e poupar pra adquirir o bem no futuro”, diz.

Para Cerbasi, o equilíbrio entre presente e futuro é o segredo. O importante não é cortar, e sim administrar bem. “Não uso mais aquela frase de que se a gente economizasse o cafezinho do almoço, em trinta anos daria pra comprar um carro. Onde fica o prazer? De que adianta ter o carro e ter vivido mal-humorado a vida inteira, estressado, infeliz?”, questiona.


(Agência Envolverde)

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