sábado, 14 de março de 2009
BC prefere a hostilidade ao risco de inflar a Selic em 2010, e vai desbastando-a devagar
Inflação é tema caro a Lula, dado seu peso à clientela típica do Bolsa Família, sem emprego formal
13.03.2009 - 17:09
Antonio Machado
A análise da decisão da diretoria do Banco Central de cortar 1,5 ponto percentual a taxa de juros interbancária em sua reunião de quarta-feira, trazendo-a de 12,75% ao ano para 11,25%, a menor na trajetória da Selic, não é simples nem linear. Em princípio, só a inflação medida pelo comportamento do IPCA é considerada. Preto no branco, outras questões, alguma sutis, influenciam a decisão.
Se fosse levado pelos dados de conjuntura, com o Produto Interno Bruto em queda no último trimestre e andando de lado neste início de ano, o BC teria tirado de 1,5 a 2 pontos percentuais da Selic. Se seguisse seu padrão de cautela ao cubo, guiada pela trajetória da inflação, cortaria 1 ponto. Se refletisse a sinalização da taxa de juros privada praticada entre os bancos, teria de ter submetido a Selic a uma lipoaspiração, trazendo-a para 10% de um só golpe.
Entre tantos parâmetros, assumiu o mínimo do máximo dentro de seu conservadorismo, mesmo à custa de uma saraivada de críticas, como as do presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, Paulo Skaf, de seu equivalente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira (PDT-SP). Ou do também deputado Armando Monteiro Neto (PTB-PE), o dirigente da Confederação Nacional da Indústria.
Monteiro diz que a Selic “continua atrasada em relação à própria dinâmica da crise”. Não se sabe a opinião do presidente Lula, mas seus assessores sussurram que ele esperava um corte maior. Aliás, sempre espera. Habituais, as críticas tornam-se irritantes até, já que nem levam a outro resultado, nem aprofundam a discussão sobre o que motiva o BC a preferir a hostilidade a passar por bonzinho.
Chova ou faça sol, as críticas aparecem como parte da paisagem de todo pós-Copom. Muito poucos, fora economistas mais conservadores ou a serviço da banca, manifestaram solidariedade - o que, nestes tempos de críticas globais ao tal neoliberalismo, arrolado entre os responsáveis pela crise no mundo, não parece de grande ajuda.
Como diz o ex-ministro Antonio Delfim Netto, que já viu de tudo na economia e continua se surpreendendo, a administração da taxa de juros de política monetária é mais arte que técnica. Não quer dizer que todos os que têm assento na diretoria do BC sabem disso. Mas seu presidente, Henrique Meirelles, sabe o suficiente para não se abalar com as críticas. Importa-lhe apenas uma, a de Lula.
Isso já é parte da explicação para uma Selic que pode influenciar o emprego de hoje, e também o resultado da eleição de 2010, o que tanto implica estudos e projeções técnicas como instinto político.
O incomodo para o BC
A técnica diz que a inflação está mais resistente do que deveria, dado o desaquecimento geral na economia, e brutal para a indústria - ainda acumulando mais estoques indesejados do que se previa para agora, retardando o início da recuperação da produção.
Este quadro incomoda o BC, já que, embora sabido que a variação do IPCA do mês passado (0,55%) acima da de janeiro (0,48%) se deveu a causas bem datadas, o reajuste de mensalidades escolares, a inflação em doze meses continua deslocada da meta anual de 4,5%. Até fevereiro, ela acumulou variação anual de 5,9%, contra 5,84% até janeiro.
A salada de inflação
Espera-se que não volte a constar da ata da reunião do BC a mesma ressalva para não cortar a Selic em dezembro passado: evidências de “atividade robusta”. Este argumento desmoralizará quem o usar.
A inflação, porém, tem de fato resistido à queda, mas isso porque um terço de seus componentes é de preços administrados, que seguem regras próprias de reajuste, normalmente indexado a outro índice, o IGP, calculado pela FGV, não o IPCA, do IBGE, observado pelo BC.
Salada de siglas não deveria coexistir com o regime de metas de inflação. Ela confunde a diretriz da convergência da expectativa empresarial sobre os preços, distorção que a indexação à inflação passada, a definição de preço administrado, só faz ampliar.
Sob a meta eleitoral
Se nada disso foi discutido nos últimos 14 anos, desde a criação deste sistema seguido pelo BC, agora é que não será, e a eleição presidencial está chegando. Inflação é tema caro a Lula, dado seu peso para a população de renda mais baixa típica do Bolsa Família, e normalmente sem emprego formal.
O BC parece visar este público, muito menos sujeito à conjuntura, pois dependente da ajuda fiscal, e também prevenir-se, dando menos Selic agora, para não correr o risco de ter de dá-la a mais num ano sensível. E la nave va.
Debate no rés do chão
Bancos centrais no mundo inteiro são zelosos com sua autonomia, e mais aqui, em que ela é delegada, não formal, e a turma palaciana e o PT não querem ser vistos na companhia do mercado financeiro, o alvo central dos minuetos do BC – uma e outra constatação também distorções de um país em que a política monetária está amasiada à dívida pública.
Affonso Pastore, ex-presidente do BC, diz que, se não fossem as pressões, como a FIESP pedir corte de 2 pontos, por exemplo, a decisão teria sido essa. Mas como? Então, o corte foi menor por pirraça? Isso seria vodu econômico, como quem se alinha ao BC caçoa as idéias dos rivais. O debate está no rés do chão.
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