Cúpula vai ser assim: sob o estigma da recessão e do endividamento brutal do antigo mundo rico
O primeiro-ministro da Inglaterra, Gordon Brown, de passagem pelo país, e o presidente Lula anteciparam a seu modo o que esperar da segunda cúpula do G-20, grupo das vinte maiores economias globais, que reúne dos EUA e Alemanha a Brasil e China, na quinta-feira, em Londres: muita retórica e pompa sem circunstância.
As atenções se voltaram para Lula, na entrevista conjunta depois de receber Brown em Brasília, com razão. Ele roubou a cena com a tirada de que a crise financeira foi “fomentada por comportamentos irracionais de gente branca, de olhos azuis, que antes parecia que sabia de tudo e agora demonstra não saber nada”. Lula alegou não conhecer “nenhum banqueiro negro ou índio”, e, assim, “essa parte da humanidade” não deveria pagar por uma crise que não provocou.
Faltou precisão a Lula. Banqueiros negros nos EUA não faltam, mas não como ele sugere, donos de banco, pois lá o controle é diluido e mandam os executivos. Que seja. Sua fala foi divertida, atributo escasso em Brown. Mas o inglês também teve o seu momento de graça.
À noite, em palestra numa universidade em São Paulo, revelou que os países do G-20 vão anunciar a maior ação coordenada de estímulo fiscal da história. Não deu detalhes, mas mencionou um aporte de US$ 100 bilhões para o Fundo Monetário Internacional (FMI) poder financiar o comércio entre países. Segundo ele, crédito, hoje tão raro quando informação confiável, apóia 90% do comércio global.
Há controvérsias. O economista Simoen Djankov, criador da série “Doing Business” do Banco Mundial, diz ser duvidoso que o crédito seja “fator importante para o colapso do comércio internacional”. A recessão mundial, diz, explica mais que a falta de crédito.
Ele foi atrás da confirmação de que 90% dos US$ 14 trilhões do comércio global seriam movidos a crédito. Procurou na Organização Mundial do Comércio (OMC), FMI, Banco Mundial, e não achou nada.
O que mais se aproxima dessa informação corrente, embora nunca comprovada, está numa pesquisa de 1998 de um economista do FMI, Malcolm Stephens, mas com uma conclusão “um pouco diferente”, diz Djankov: “90% do comércio mundial são conduzidos à vista (cash) ou com crédito de curto-prazo”.
Outra evidência: o grosso do comércio é intraempresas, sendo “improvável”, afirma, que recorram a linhas de crédito de exportação ou importação. Quer dizer: é possível que os líderes do G-20 tomem decisões com base em dados imprecisos.
Álibe contra crítica
Economista-chefe da Vice-Presidência do Banco Mundial, Djankov dá uma dica básica: “Para diagnosticar e melhorar o quadro do crédito ao comércio, se necessário, primeiro é preciso avaliá-lo”. Isso já não teria sido feito? Supõe-se que Brown, ministro de Finanças por dez anos no governo de Tony Blair, não cometeria tamanho deslize.
É do premiado editor de Comércio do Financial Times, Alan Beattie - citado por Djankov –, a melhor explicação. “Seria politicamente mais fácil justificar o apoio dos governos à exportação que para impulsionar a liquidez dos bancos”, escreveu Beattie. O resgaste de grandes bancos desperta repulsa. Mas gastar dinheiro em apoio a pequenos exportadores, diz Djankov, “é motivo para aplausos”.
Libra perde atração
Brown também parece exagerar ao falar em “grande estímulo fiscal coordenado” do G-20 para levantar a economia mundial. Não se vê de onde o Tesouro inglês possa tirar mais dinheiro se já está difícil rolar até a dívida existente. Um leilão do Banco da Inglaterra na última quarta-feira para a venda de US$ 2,5 bilhões em títulos foi um fracasso. Em 23 anos, só houve isso em 1995, 1998 e 2002.
O estímulo que ele começa a ser pressionado a ceder é a alta dos juros, hoje perto de zero, para captar US$ 213 bilhões em 2009 e em 2010 e cobrir o déficit fiscal previsto em 10% do PIB inglês.
Velhos ricos na lona
A rodada do G-20 vai ser feita assim: sob o estigma da recessão e do endividamento brutal dos países ricos de antes. A dificuldade é geral e não poupa nem a Alemanha, maior economia da Europa e maior exportador mundial. Seis leilões de papéis do Tesouro alemão foram só parcialmente subscritos desde junho de 2008.
Lula deve viajar a Londres sem grandes ilusões. No cúpula de Washington, em novembro, o G-20 se comprometeu a não erguer barreiras protecionistas. Desde então, vários países, inclusive 17 do G-20, implantaram 47 medidas de restrição ao comércio, segundo o Banco Mundial. Os velhos ricos vão tentar levar na conversa os novos ricos. Brasil que se cuide.
Agenda real do G-20
Até agora muito se tem falado em laxismo monetário e ação fiscal dos governos para tirar as economias do buraco. É mesmo por aí, mas Obama, por exemplo, maior defensor do ativismo global, parece tranquilo em emitir quanto se faça necessário, apesar de a China, seu maior financiador, já manifestar incômodo e surgirem pressões na Europa para aumento dos juros das dívidas soberanas.
Isso para os países fita-azul, como a Alemanha e França, pois para Irlanda, Grécia, Espanha, a Europa do Leste, nem os juros altos resolvem. Aposta-se no default da Irlanda, sem apoio da União Européia. Essa é a agenda real do G-20. O resto é circo para públicos internos."
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