Vai-se ver a evolução da economia no 4º trimestre, o primeiro em que a crise global atacou no país
Antonio Machado
A fotografia da economia que o IBGE revela nesta terça-feira será a mais contraditória em muito tempo. O que se verá é a evolução do Produto Interno Bruto (PIB) no quarto trimestre, o primeiro em que a crise global atacou no país, e no ano inteiro, o último do maior ciclo de prosperidade em todo o mundo desde o Pós-Guerra.
Num caso, se verá, entre o turbilhão de números do IBGE, uma taxa negativa como não se via há muito tempo. No outro, um crescimento de padrão asiático, com o qual todos, nós e o mundo, havíamos nos acostumado a achá-lo natural, não podendo haver nada de errado em seu processo e ameaçador.
No Brasil, o último crescimento pífio do PIB anual, 1,1%, ocorrera em 2003. Depois, disparou 5,7%, quando a inflação ressurge, o Banco Central entra em cena, e o PIB perde pique, crescendo 3,2% em 2005 e 4% em 2006. A gritaria foi grande.
Em 2007, já no estertor da bonança global, a economia brasileira se reconciliou com a felicidade, crescendo 5,7% sem inflação, que, no entanto, estraga-festa de sempre, voltou a pôr em cena o BC, no inicio do ano passado, esfriando os ânimos. Sem recidiva da Selic, o PIB, provavelmente, teria voado muito além de 6% em 2008.
Deve ter crescido 5,3%, segundo projeção da consultoria LCA, uma taxa ainda portentosa, mas com impacto conspurcado pelo resultado previsto do 4º trimestre em relação ao 3º: retração de 1,8%, quase repetindo com sinal trocado a evolução intertrimestral anterior.
O desempenho do investimento, com queda intertrimestres de 8,7%, foi o principal componente de baixa, na avaliação da LCA. Seria o maior recuo já registrado nas contas nacionais trimestrais com a metodologia atual do IBGE, iniciada em 1996, o que interrompe nove trimestres consecutivos de expansão do investimento (num ritmo de 3,9% em média por trimestre). Foi a pedra no caminho da economia.
Sem tal componente, avalia a LCA, o PIB teria passado de expansão de 0,6% no 3º trimestre para ligeira queda de 0,1%, o que mostra a força das expectativas empresariais para a derrubada da economia.
O consumo de famílias, nesse cenário, recuou 0,2% intertrimestre, o que não ocorria desde o segundo trimestre de 2003 - e isso mais pelo tranco do crédito sobre o comércio de automóveis que sobre os demais itens de consumo de bens duráveis. Essas considerações são relevantes para a avaliação futura da situação da economia e para calibrar a potência dos planos anticrise cogitados pelo governo.
2009 ainda confunde
As projeções de 2008 são assemelhadas entre bancos e consultorias que perscrutam os sinais vitais da economia. Para a consultoria Tendências, o PIB caiu 2,3% no 4º trimestre e subiu 5,2% no ano. O economista Fernando Montero, da Convenção, projeta expansão anual de 5,4% em 2008 e queda de 2% no último trimestre. Para a divisão de economia do Unibanco, 5,3% e menos 2,7%, respectivamente.
As divergências se manifestam quanto à persistência da retração. O Unibanco prevê queda de 0,2% neste trimestre, lenta recuperação nos períodos seguintes e crescimento no ano de modesto 0,3%. A LCA acha que os sinais não são de recessão aberta – definida como dois trimestres seguidos de retração -, podendo haver variação positiva de até 0,5% neste trimestre. E de 2,4% no ano. A avaliação do PIB anual de 2009 de Montero é parecida, 2,2%.
Sinais de retomada
Os indícios são de que a atividade econômica não virou o ano com aprofundamento da retração, mas com estabilidade num patamar menor em relação ao ritmo de crescimento anterior.
Muito menor. Mas já exibindo pequena retomada, enquanto continua a desabar no resto do mundo, conforme dados de licenciamento de automóveis e veículos comerciais leves, consumo de energia, volta do crédito ao consumo, embora lento, e melhor sentimento empresarial em relação à demanda doméstica, conforme algumas sondagens.
O mercado externo é a nota destoante, embora preços de grãos, como soja, estejam subindo. Mas isso mais devido à seca em países exportadores que à demanda.
Gap nada excepcional
A leitura dos números do PIB do último trimestre, associada aos indicadores antecedentes neste início de 2009, vai indicar que a economia capotou pela parada do investimento, de exportações e do crédito bancário, implicando uma quebra potencial da ordem de 5% do PIB até 2010, o gap a mitigar com ações reativas.
Não é nada excepcional. Risco é o governo extrapolar com intenções políticas.
Ganância brasileira
A crise gestada no interior do sistema financeiro mundial começou a arder nos EUA em meados de 2007. Mas só depois de setembro, com a quebra desastrosa do Lehman Brothers, é que se desfez a dúvida, alimentada pelo último suspiro da especulação ao inflar os preços das commodities no primeiro semestre de 2008, de que não se estava diante de um surto recessivo curto e brando.
Não fosse tal espasmo da ciranda, o país estaria melhor. Com ele surgiram os planos mais ousados de produção, estoque e investimento, inclusive do governo, e empresas saltaram no abismo com a aposta do real forte no câmbio futuro.
O golpe no PIB no fim de 2008 reflete decisões ruins, não problemas estruturais da economia. Exagera-se a crise no país.
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