sábado, 21 de março de 2009

Queda de 4,5% do PIB do Morgan Stanley tem a qualidade do aumento de 4% de Mantega

Queda de 4,5% do PIB do Morgan Stanley tem a qualidade do aumento de 4% de Mantega

Os muito pessimistas ignoram o papel de elementos amortecedores à continuidade da retração

19.03.2009 - 18:54

Antonio Machado

Na bolsa de apostas sobre a economia em 2009, parece que ninguém vai superar os dois lances mais atrevidos sobre a variação do PIB, Produto Interno Bruto, ambos com chances reduzidas de acerto.

Eles vão de um crescimento de 4%, o sonho do ministro da Fazenda, Guido Mantega, a uma retração de 4,5% - o pesadelo do banco Morgan Stanley, divulgado como estraga-festa quando o presidente Lula e comitiva garantiam a uma platéia de investidores em Nova York, na segunda-feira, que a palavra recessão não será ouvida no Brasil.

Na retrospectiva do ano fechado, é provável que não. Na sequência do último trimestre, quando o PIB recuou 3,6% comparado ao período anterior, com o desempenho entre janeiro e março, talvez sim. Mas nem isso está garantido. Certeza é que poucos anteciparam antes de setembro o tsunami (Lembra? É a onda que bateria no país, segundo Lula, como marolinha) - e continuam boiando sobre o que virá.

Mantega passou a sorrir amarelo depois do saber do PIB do último trimestre, que abriu as porteiras para o pessimismo escancarado. É outra seqüela desta crise: a falta de uma fonte ouvida por todos e considerada crível, harmonizando as expectativas dos empresários e do mercado financeiro com cenários realistas e também raciocínios articulados. O ex-ministro Delfim Netto era mestre neste papel, e todos os que vieram depois, com maior ou menor êxito, seguiram tal ritual: clarear o horizonte da conjuntura. Quem falhou não durou.

Não raramente, o que mais se ouvia era líder empresarial repetir como reflexão própria o que absorvera de algum ministro, e o fazia meio inconsciente tamanha a confiabilidade na palavra do governo. Sem essa coordenação, fica o passeio ao acaso dos cenários, dando espaço para diversionismo estatístico, como as projeções do PIB de Mantega e do Morgan Stanley, desamparadas de evidências empíricas.

Hoje está claro, entre os fatores factuais, o que derrubou o PIB a partir de setembro – basicamente, a parada abrupta do crédito e o adiamento preventivo do investimento na produção devido à quebra do comércio internacional. Mas não estão claras a causa de a queda ter sido tão forte e a conjuntura neste início do ano, que começou pontuado pela manutenção do bom desempenho do comércio em par com a estagnação relativa da indústria, vergada pelos estoques.

Pessimismo sem rigor

Outro dado que parece estar sendo ignorado pelos projetistas mais pessimistas do PIB este ano, como o baque profetizado pelo Morgan Stanley – queda de 4,5%, algo nunca visto desde que a FGV começou a apurar o PIB em 1948, substituída na função depois pelo IBGE – é o papel dos elementos amortecedores da retração da economia.

Não é que impeçam uma grande desaceleração frente ao crescimento de 5,1% no ano cheio de 2008 e de 5,7% em 2007. Mas, como diz o economista Fernando Montero, “a não ser que se forme uma espiral recessiva de desconfiança e o quadro externo continue a assustar não há por que achar que o Brasil não retomaria o crescimento”. O que se ignora?

Consumo resistente

As vendas de carros neste primeiro trimestre já tendem a superar as de um ano atrás. Houve o incentivo do IPI, é certo, mas não se vê o governo cometendo a loucura de não prorrogá-lo. Além disso, o consumo continua, pelo menos até agora, segundo Montero, mostrando “resistência surpreendente”.

Em dezembro, fora carros, as vendas foram apenas 0,3% menores que as de novembro. E, em janeiro, houve aumento de 1,4%. Função de promoções? Também. Mas uma melhora tão generalizada das vendas, diz ele, precisa de renda e de crédito.

Governo sinaliza mal

Crédito segue andando de lado e caro, o que significa que com uma pequena distensão a atividade pode dar um salto, já que do lado da renda não há retração, e pelo emprego, os dados do Caged, que dá a visão das contratações e demissões do mercado formal, mostram para fevereiro números positivos.

A massa de rendimentos nominais para janeiro foi 12,7% superior à de igual mês de 2008. Os rendimentos reais se expandiram na mesma base 7,8%. O gasto público federal no bimestre janeiro-fevereiro cresceu 17%, já abatida a inflação.

A velocidade de volta da produção industrial depende da retomada do investimento e do fim do ciclo de estoques, ainda alto no setor intermediário da indústria. É o que pode aclarar a diferença de 10 pontos percentuais entre a produção e demanda. Mas não os cenários catastrofistas. Se os porta-vozes do governo fossem mais críveis, o pessimismo poderia ser menor.

Dólar perde o pique

À medida que o ano vai passando surgem evidências de que, se não dá para evitar uma grande contração do PIB, e isso pelo tamanho da recessão nos EUA e Europa, pelo menos há condições de o ajuste se processar num ambiente bem menos desagregador que o que se assiste em quase todo o mundo.

Pegue-se o dólar: pela tendência, à luz do fluxo de divisas, está mais para uma ligeira apreciação por volta de R$ 2,10 a R$ 2,20. Não há indício de agravamento do déficit em contas externas. O que importa hoje é a tendência à frente, e isso a partir da retomada que parece em curso, não em relação ao degrau recorde do PIB do terceiro trimestre de 2008. O que foi já era.

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