quarta-feira, 11 de março de 2009

Recessão. Por que indicador?

Por Dal Marcondes

O PIB caiu. Mas para que serve o PIB quando já existe um consenso sobre a necessidade de construção de uma economia baseada em valores como meio ambiente e direitos humanos?

Os jornais mostram os números negativos do PIB divulgados pelo IBGE. Este indicador aponta que a economia brasileira teve uma retração pelo segundo trimestre consecutivo. A queda foi de 3,6% no quarto trimestre de 2008, o que os economistas tradicionais asseguram ser “uma recessão”. Bom, pela lógica do velho mercado certamente é. Mas, e pela lógica de um mercado que está buscando novos paradigmas, baseado no sustentabilidade e na economia eficiente? Seria muito estranho que o Brasil não tivesse “pisado no breque” como todo o mundo no final de 2008. Depois, no primeiro trimestre de 2009 os brasileiros ficaram “andando de lado” até o Carnaval, e o ano realmente começou de verdade nestas paragens tropicais somente em março. Parece lógico que o PIB reflita esta queda na atividade econômica. Contudo, é precipitado falar em recessão.

Nos últimos tempos o modo de cálculo do PIB tem sido muito criticado como parâmetro para a medição de riqueza de um país. Os motivos são muitos, mas o principal deles é que o PIB mede o consumo, a produção e venda de produtos e serviços. Ele cresce quando uma catástrofe natural exige que se produza mais materiais de construção, como por exemplo as chuvas em Santa Catarina. Ele cresce quando se desperdiça produtos, e quando parte de tudo o que se produz vai para o lixo.

O que vai acontecer com o PIB se, por exemplo, a atual campanha do Instituto Akatu, que mostra que 1/3 dos alimentos comprados pelos consumidores vai direto para o lixo der certo? Se a campanha funcionar vai haver uma redução de 33% nas vendas de alimentos. Tudo o que for comprado vai para a panela e o desperdício vai ser reduzido ao mínimo. Ai produtores vão ter de encontrar novos mercados para seu excedente, transportadoras vão ficar proporcionalmente ociosas e toda a cadeia de alimentos vai ter de se reacomodar. E o PIB vai refletir esta redução na atividade econômica. No entanto vamos produzir e consumir de forma mais responsável.

As grandes cidades estão trabalhando para melhorar o transporte coletivo, ampliando o metrô e fazendo corredores de ônibus. Isto poderá se refletir em mais qualidade no transporte público e mais gente deixando de andar de carro. Menos combustível vendido nos postos, menos serviços na cadeia dos automóveis e, possívelmente, menos venda de carros. As pessoas das grandes cidades terão melhor qualidade de vida, as cidades terão menos poluição e o PIB certamente vai refletir uma queda na atividade econômica.

Se as campanhas para economia de água e energia começarem a dar resultados vamos ter, também menos atividade nestes setores. As pessoas terão água de qualidade e as empresas de saneamento vão vender menos água. As pessoas vão pagar contas de energia menores e as empresas de produção e distribuição de energia vão vender menos e faturar menos. Mas a qualidade do sistema estará assegurada, com a redução da necessidade de se implantar novas e poluentes usinas de geração. O PIB vai refletir uma queda de atividades nos dois setores, no entanto o meio ambiente estará mais protegido.

O PIB não está preparado para a transição para uma economia de baixo impacto, de baixo carbono e de baixo desperdício. A eficiência no uso de insumos, matérias-primas, água e energia vai impactar negativamente no PIB. Mais qualidade de vida nas cidade, em um primeiro momento, vai derrubar o PIB. Este indicador foi feito para economias industriais do século XX, quando o “crescimento econômico” era a meta da atividade humana. Hoje o que está em pauta é o desenvolvimento. E desenvolvimento pressupõe outros valores, baseados na eficiência do uso de recursos naturais, nos direitos humanos e no conhecimento. Uma economia voltada para a qualidade de vida e não para indicadores de consumo.

Os jornais falam na queda do PIB como se um “Tsunami” estivesse assolando o Brasil. Não é verdade. A queda era esperada, e se a economia realmente estiver evoluindo para um modelo de eficiência sustentável, o PIB torna-se um indicador absolutamente obsoleto, para não dizer “nefasto”. (Envolverde)

*Dal Marcondes é editor da Envolverde e foi repórter e editor de economia de grandes jornais e revistas brasileiros.


(Agência Envolverde)

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