Queda do PIB expõe erro do BC na gestão dos juros
Sob pressão, Copom anuncia nesta 4ª nova queda na Selic
Lula Marques/Folha
Iniciada nos EUA, a crise financeira ganhou contornos globais em setembro de 2008. Desde então, o Banco Central reduziu a taxa de juros em um ponto percentual.
A Selic passou de 13,75% para os atuais 12,75%. O corte foi feito em 21 de janeiro de 2009, quatro meses depois da eclosão do fenômeno que Lula batizaria de “marolinha”.
Agora, dissemina-se no governo a avaliação de que o BC errou. Avalia-se no Planalto e na Fazenda que os juros deveriam ter sido passados na faca já em dezembro de 2008.
Naquele mês, o Copom realizara a última reunião de 2008. Um encontro no qual Henrique Meirelles e sua equipe optaram por manter inalterada a taxa Selic.
A impresão de que o BC cometeu o pecado do excesso de conservadorismo foi tonificada pela divulgação dos números do PIB.
Foram trazidos à luz pelo IBGE, nesta terça (10), dados que jogaram na cara do governo uma queda de 3,6% no crescimento da economia no último trimestre de 2008.
Ou seja, no instante em que o Copom decidira manter os juros, em dezembro, já fervilhavam nos computadores do IBGE os números acerbos.
Assediado por uma pressão que nasce no mercado e ecoa nos gabinetes de Brasília, o Copom encerra nesta quarta (11) uma reunião iniciada na véspera.
Dá-se como certo, muito certo, certíssimo que uma nova poda nos juros será anunciada no início da noite. O que se discute é o tamanho do talho.
Antes da novidade azeda pendurada nas manchetes pelo IBGE, trabalhava-se com um corte de um ponto percentual. A Selic iria de 12,75% para 11,75%.
Agora, mesmo no interior do governo, acalenta-se a expectativa de que o BC surpreenda o país com um corte mais profundo. Nada menor do que 1,5 ponto percentual.
Nesta terça (10), depois que o IBGE trovejou seus números sobre Brasília, os céus despejaram sobre o centro da Capital uma tempestade.
A chuva desceu impetuosa, torrencial. Formou-se sobre o edifício sede do BC um halo de nuvens escuras (veja a foto do repórter Lula Marques lá no alto).
Em nota, Henrique Meirelles fez um par de comentários sobre o PIB dos três últimos meses de 2008.
Um realista: “O resultado do PIB do quarto trimestre [...] mostrou que a economia brasileira não está imune à crise no mercado globalizado”.
Outro otimista: “Apesar da queda do último trimestre, fortemente influenciada por ajuste de estoques em alguns setores, o crescimento do PIB de 5,1% em 2008, impulsionado pela demanda doméstica e crescimento da renda...”
“...Mostra que economia brasileira tem fundamentos econômicos sólidos. Isto ajudará na retomada, fazendo com que o Brasil tenha condições de sair mais rapidamente da crise”.
Lula e a equipe da Fazenda acham que a saída será tanto mais rápida quanto maior for a sensibilidade de Meirelles e da equipe dele na administração dos cortes na Selic.
Em dezembro, quando decidiu manter a faca na gaveta, o BC projetava o PIB de 2009 em 3,2%. Abaixo dos fantasiosos 4% estimados por Mantega. Mas ainda irreais.
Depois do IBGE, o mercado, que trabalhava com um PIB de até 2,5% para 2009, passou a projetar um crescimento entre zero e 1%.
Se os pessimistas estiverem certos, uma decisão enviesada do BC pode contribuir para empurrar a economia do país para um crescimento negativo.
A decisão a ser anunciada nesta quarta (11) pelo Copom vai mostrar até que ponto o BC está disposto a pagar esse preço.
Escrito por Josias de Souza às 04h16
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