: "Meirelles alerta contra “otimismo exagerado”, e o mercado entende como sinal de freio na Selic
Expectativa já cedeu para um corte mais modesto no próximo Copom, e isso mesmo com inflação cadente
Antonio Machado
Dirigente de banco central que alerta contra “otimismo exagerado” e adverte que “é prematuro” cogitar juros interbancários de apenas um dígito está passando recado. É o que tem feito o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles - e isso quando se avizinha uma nova reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), dia 29, que vai apreciar o patamar futuro da Selic, hoje de 11,25% ao ano.
A expectativa é de outro corte dos juros interbancários. Se igual ao do último Copom, de 1,5 ponto percentual, a taxa virá para um digito, 9,75%. Na bola de cristal de bancos e consultorias ouvidas semanalmente pelo BC, a Selic fechará o ano a 9,25%, um recorde de baixa, o que traz implícita a aposta de dois cortes de 1 ponto de percentagem: um no dia 29, outro no Copom de 10 de junho, seguido de estabilidade nas quatro reuniões finais de 2009.
A dúvida é sobre o objetivo de suas declarações. Elas revertem o otimismo anterior em sincronia com a decisão do governo de relaxar o superávit primário formado para pagar juros da dívida pública. A medida injetará na economia R$ 40 bilhões em novos gastos - e vai sobrepor-se à recuperação da demanda agregada em curso. Questões:
1ª, o presidente do Banco Central fala em tese? Possível, mas não provável. Meirelles não é de desperdiçar palavras.
2ª, ou está preparando a praça contra o provável choque que será a divulgação dia 9 de junho pelo IBGE do desempenho da economia no primeiro trimestre? Associada à queda do PIB no quarto trimestre, outra retração formalizará que o país está em recessão.
3ª, ou seu aviso foi para o telhado do governo, aos operadores da campanha da ministra Dilma Rousseff à sucessão do presidente Lula?
Bombar gasto fiscal, resultado do corte do superávit primário da meta de 3,8% do PIB este ano para 2,5%, ou até mais, para 2%, caso seja necessário, em paralelo às ações para recuperar o consumo, na ótica do BC, pode reintroduzir as pressões inflacionárias, a médio prazo, na economia. Quando? No calor das eleições de 2010.
A essas três questões, digamos, estruturais, agrega-se uma menos visível: a pressão dos bancos para que a queda dos juros básicos abaixo de dois dígitos não ocorra antes que o governo concorde em reduzir o rendimento da caderneta de poupança - competidor direto dos fundos de renda fixa, que dependem da remuneração dos títulos da dívida pública, por sua vez atrelada à trajetória da Selic.
Depósitos em fundos têm incidência de Imposto de Renda, enquanto a caderneta é isenta. O resultado dos fundos de pensão, obrigados por lei à remuneração mínima real de 6% ao ano, também terá de ser equacionada. O governo se mostra confuso sobre o que fazer.
Mais liso que sabão
BC e governo estarão em maus lençóis se a Selic começar um ciclo de alta em 2009. Ou não fazerem nada se a inflação ressurgir. Há riscos? Os avisos de Meirelles não deixam antever.
De riscos, ele enfatiza só os externos. Dos internos, não precisa nenhum. Sobre a nova meta do superávit primário, por exemplo, diz que, conforme as previsões de mercado, a dívida pública ficará onde está - a 37% do Produto Interno Bruto.
Meirelles evita chocar-se com os movimentos políticos de Lula, que não questiona a Selic. Só o faz em público.
Chovendo no molhado
Sobre o câmbio, que tende a valorizar-se tanto quanto mais a taxa Selic esteja desalinhada em relação aos juros em dólares, euros e ienes, Meirelles chove no molhado: diz que o real se desvalorizou depois da quebra do Banco Lehman Brothers, em setembro, graças ao câmbio flutuante e se aprecia agora devido à percepção externa dos bons fundamentos da economia, como as reservas de US$ 202 bilhões.
Impossível extrair dele mais precisão. Mas os sinais continuam. O BC divulgou do nada, informalmente, estudo segundo o qual o câmbio já voltou à média histórica - medida a partir de 1988 -, depois da valorização de 30% de setembro a março, e sem repasses aos preços.
Como pinto no lixo
No mercado de reservas bancárias, que estabelece o piso do custo do dinheiro emprestado pelos bancos, as falas de Meirelles tiveram o efeito de interromper a queda de taxas, ou melhor, da idéia de corte de 1,5 ponto percentual da Selic.
Espera-se agora 1 ou meio ponto. Se fosse o que queria, conseguiu. Nessa toada, o dólar vai ficar em torno de R$ 2,10, a aposta que ganha força; a inflação, comportada, e a economia, sem arrojo. Já o governo vai estar como pinto no lixo: com cofre cheio para fazer bonito nas eleições.
Emprego é o que der
As divergências entre a dosagem requerida pela economia para sair do marasmo com mais ímpeto do que demonstra e os receios do BC são de ordem temporal. Distensão monetária repercute com atraso sobre a demanda. Já a expansão fiscal é na veia.
As ações monetárias e fiscais não se falam no governo Lula. Nem há plano de consistência fiscal a apoiar todo movimento que favoreça o pleno emprego, sempre espremido entre as metas de inflação, o saldo do balanço de pagamentos e o avanço do Estado - via gasto público, carga tributária e dívida -, sobre o setor privado, definido como empresas e famílias.
O investimento público é tratado como resíduo. E o privado é tributado. Jogo duro."
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