Cidade Biz - Economia, Marketing e Negócios - Mercado de trabalho confirma melhora gradativa, ainda que lenta, e alivia o pessimismo:
Os sinais são de que dezembro foi o pior momento no Brasil da crise iniciada em 2007 nos EUA
Antonio Machado
A divulgação de que a criação líquida de empregos voltou a ficar positiva em março, depois de praticamente estável em fevereiro, na métrica do Caged, Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho, é um dado forte, na avaliação dos efeitos da grande crise econômica global. Mas deve ser visto com cautela.
As contratações superaram as demissões em 34,8 mil vagas em março – contra saldo positivo de pífios 9,2 mil em fevereiro, e negativo de 101,7 mil em janeiro, 654,9 mil em dezembro (o pior registro da série do Caged) e 40,8 mil em novembro, quando a crise se revelou mais grave que a marolinha então esperada pelo presidente Lula. As 34,8 mil vagas líquidas abertas em março se comparam às 196,4 mil criadas em igual mês do ano passado.
Todos os sinais são de que dezembro foi o pior momento no Brasil da crise iniciada no fim de 2007 nos EUA, disseminada pelo mundo e agravada depois de setembro, detonando a primeira grande recessão sincronizada em escala global desde a depressão dos anos 30. Já em janeiro há indícios de que se abranda no Brasil, assim como também há sinais esparsos neste sentido nos EUA e relativamente firmes na China e Coréia do Sul. No resto do mundo, ela segue agravando-se.
Emprego é a variável-chave a acompanhar, já que, se cadente, fará a retração se aprofundar. Mas crescimento depois de cortes maciços não é garantia de recuperação. Pode só indicar que parou de cair.
A diferença não é apenas semântica. A pesquisa do Caged é baseada em dados declaratórios das empresas, o que impede que se saiba a situação das vagas declaradas. Elas podem decorrer da formalização de empregos informais existentes, que podem estar caindo ou não.
O conjunto do emprego, formal e informal, é o que monitora o IBGE a cada mês, com a deficiência de excluir da apuração o desalentado - o desempregado que desiste de procurar emprego – e restringir as pesquisas às seis maiores regiões metropolitanas do país.
O último dado, de fevereiro, indicava taxa de desemprego de 8,5%. O próximo sai dia 24, referente a março. As projeções apontam que, se a evolução da economia no ano for negativa, o desemprego pela métrica do IBGE chegará a dezembro em torno de 11%, vindo da média de 7,5% no terceiro trimestre de 2008.
O Caged, assim, fornece uma visão parcial do emprego, sem a relevância que lhe atribui o ministro do Trabalho, Carlos Lupi. Ele deveria consolidar tal dado com outros indicadores, até para não criar a impressão de que tudo está bem.
Dezembro foi o piso
A análise abrangente carente na exposição do ministro do Trabalho é o que fez a consultoria LCA. Ela recorreu aos dados do Relatório Anual de Informações Sociais (RAIS), no qual, com força de lei, as empresas informam o quadro de seus empregados celetistas.
A LCA cruzou o estoque anual de trabalhadores formais do RAIS com o fluxo de contratações mensais monitorado pelo Caged. Ainda é uma estimativa, mas mais completa. Com ajuste sazonal, que equaliza o número de dias de cada mês (outra falta na apresentação do Caged), tal índice aponta que o emprego subiu 0,1% em março, contra 0,69% em igual mês de 2008. Em dezembro, caíra 0,5%; em janeiro, -0,15%; e em fevereiro ficou quase estável, recuando apenas 0,03%.
Mundo está bem pior
Com ajuste sazonal, o resultado do Caged passou de fechamento de 16,8 mil postos de trabalho em fevereiro para abertura líquida de 30,1 mil vagas em março. Foi o primeiro resultado positivo desde a chegada da crise no Brasil, considerada a equalização sazonal.
Os setores de serviços, construção civil e agropecuária ajudaram a alavancar o emprego, enquanto comércio e, sobretudo, a indústria manufatureira, ainda às voltas com estoques indesejáveis, jogaram contra. Para frente a situação ficará mais clara. Não deve piorar.
Dados antecedentes sugerem a criação líquida de 140 mil a 180 mil vagas este mês, segundo a LCA - menos que as 295 mil vagas abertas em abril de 2008, mas muito bom comparado à situação mundo afora.
Vigiar expectativas
O cuidado a tomar é com o PIB do primeiro trimestre, que o IBGE divulgará em 9 de junho. Pode provocar um choque. Espera-se outra retração, configurando recessão técnica (dois trimestres seguidos de PIB em queda).
Mas no papel, pois, de fato, a economia estará em recuperação, embora não de volta à situação pré-crise, que talvez demore anos para ser reconstruída. O governo deveria atuar sobre as expectativas desde já para prevenir frustrações.
O que exige atenção
A redução da meta do orçamento fiscal de 2010 para o pagamento de juros da dívida pública, o tal superávit primário, de 3,8% do PIB para 3,3%, conforme a proposta da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) enviada pelo governo ao Congresso, não implica risco algum.
Ela se dará com a exclusão da Petrobras desse esforço, liberando- a para reforçar com o próprio caixa os investimentos programados. O ajuste será compensado com o custo menor da dívida pública, que acompanha o alívio da Selic.
Os conservadores vão torcer o nariz, mas com um falso risco. Problema são os gastos de custeio, que só crescem, e as ações eleitoreiras do governo, que exigem atenção. Este é problema para 2009, com a redução da mesma meta para 2,5% do PIB, liberando cerca de R$ 40 bilhões a mais para os gastos públicos.
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