Teses centrais da cúpula não têm consenso de governos e, a rigor, nem são antídotos à crise
Os líderes das maiores economias do mundo representadas no Grupo dos 20, G-20, demonstram entusiasmo com a cúpula marcada para esta quinta-feira em Londres. Como temas coadjuvantes dominam a agenda, a impressão é que cada dirigente quer fazer da cúpula um palanque para os eleitores de seus países, exibindo-se maiores do que são – um grupo de gente atônita frente à crise que devora seus governos.
Como diz o economista inglês Willem Buiter, professor da Escola de Economia e Ciências Políticas de Londres e considerado um dos mais atilados analistas da crise atual, “a melhor atitude é não esperar nada, desejar o melhor e preparar-se para o pior”.
Dos três tópicos principais, nenhum encontrou consenso. Europeus e as economias emergentes incorporadas ao bloco do G-8, dos países ricos, resultando no G-20, defendem uma regulamentação rigorosa do sistema financeiro global, monitorado por um ente supranacional. O presidente Barack Obama é contra. Seria o fim do reinado do dólar.
Ele aceita mais regulações prudenciais, mas recusa uma autoridade multilateral sobre os sistemas bancários soberanos de cada país. A sua prioridade seria um estimulo fiscal conjunto e coordenado dos membros do G-20 para animar, em bloco, a economia global, proposta refugada pelo premiê da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy. Eles alegam que os esforços fiscais foram feitos e superam os dos EUA, já que na Europa há uma extensa rede de proteção social inexistente em outros países.
O anfitrião Gordon Brown acata todas as propostas, alinhando-se a Obama e aos parceiros da União Européia, e adiciona outra: o fim dos paraísos fiscais, sugestão que cativou o presidente Lula, que também espera encontrar espaço na cúpula londrina para consolidar-se como referência entre os países desenvolvidos e os emergentes.
Pelo que andou dizendo aqui e nos dois encontros internacionais de que participou antes do G-20, no Chile e no Catar, ele ensaia um forte discurso crítico, na linha de que a crise foi gerada por “gente branca, de olhos azuis”, como declarou durante a visita de Brown ao Brasil, e o conceito de que as saídas são essencialmente políticas, não técnicas.
Qualquer decisão de um governo sempre é política. Ela é boa ou ruim dependendo de sua consistência técnica – e é aí que o G-20 continua como um carro patinando no lamaçal.
Todos são cúmplices
Nenhuma das teses centrais da agenda do G-20, com ou sem consenso entre seus participantes, configura um antídoto à crise gerada nos EUA pela hipertrofia do endividamento, disseminado mundo afora. É raro o país que não desfrutou gostosamente a farra financeira. Ela permitiu projetos industriais, programas sociais, o senso ilusório de prosperidade sem fim, graças aos mecanismos de multiplicação do crédito criados por Wall Street.
Não há inocentes, como diz Lula, apenas cúmplices de uma situação insolúvel com medidas voltadas a restaurar o crédito em sociedades já altamente endividadas, como os EUA. Elas precisam de mais renda, não de mais dívida.
A banca virou a Geni
Os bancos dos EUA viraram a Geni da crise. Mas era a eles que as empresas e governos do mundo recorriam em busca da magia das tais “operações estruturadas” – o sistema que viabiliza tirar do zero, com exigências mínimas de capital, projetos complexos e de risco, parte da engenhosidade da conversão de fluxos de caixa passados e futuros em ativo financeiro.
A tese européia de controle severo da banca, apoiada por Lula, cerceará operações assim, que não derivam de um mal congênito. Mesmo no Brasil, no âmbito do BNDES, são elas que suportam os caros projetos de infraestrutura do PAC. O mal foi sua aplicação indiscriminada, sem observância, e ai sim por falta de fiscalização adequada, das regras básicas de prudência.
Propostas ineficazes
Dos excessos da banca formal e informal, como fundos de hedge e de investimentos, o colapso do crédito já se encarregou de punir e filtrar. Regulação mais estrita é requisito para frente. O momento exige é diagnóstico preciso das causas e seqüelas da crise.
A sua falta leva os governantes a acionar o piloto automático dos gastos compensatórios do Estado e propor ações de cunho moral contra os mercados, necessárias, mas ineficazes para estancar a depressão da economia global, essa sim a prioridade zero.
As grandes economias precisam de novos eixos de expansão, que substituam o modelo antes movido por consumo e dívida. Sem isso a crise não acaba.
armadilha japonesa
O fracasso do Japão para sair da depressão em que se enfiou após o estouro de uma bolha de crédito muito similar à atual no mundo é a advertência sobre o que não fazer.
Lá vários governos desde 1989 tentaram reanimar a economia com taxa de juros ao redor de zero e projetos de infraestrutura que criaram pontes para lugar nenhum. E deu no quê? Na estagnação da qual nunca mais saiu inteiramente. Os bancos e consumidores ficaram ocupados pagando dívidas.
O problema não era a escassez de crédito, mas de crescimento econômico firme, que criasse empregos e aumentasse a renda disponível. Era isso ou a acumulação de poupança. Os EUA estão caindo na mesma armadilha."
Antonio Machado
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