Baseado na metodologia Delphi, que consiste na aplicação repetida de um mesmo questionário, visando à construção de consensos entre os pesquisados, o estudo de cenário consultou 112 importantes especialistas. Sete em cada dez (72%) apontaram a já mencionada gerência de eco-relações como a mais promissora de um quadro de seis carreiras emergentes - as outras são Chief Innovation Officer, Gerente de Marketing e e-commerce, Conselheiro de Aposentadoria, Coordenador de Desenvolvimento e Educação Continuada e Bioinformationist. Será atribuição principal do gerente de eco-relações fazer o meio de campo entre os programas ambientais da companhia e as suas diferentes partes interessadas - grupos de consumidores, ONGs ambientalistas e governos - assegurando boa comunicação e integração de esforços.
Trata-se, a rigor, de um nome novo para uma função já existente que, vem sendo cumprida, em algumas corporações líderes em sustentabilidade, por executivos de médio escalão ligados aos departamentos ou áreas de responsabilidade socioambiental - especialmente os de empresas que não apenas realizam o chamado "mapeamento de stakeholders", mas também levam a sério a ideia de monitorar suas impressões, ouvir e incorporar seus pontos de vista na gestão do negócio por meio de encontros, painéis e canais de comunicação formais.
Nessa condição, vale dizer, não há muitas companhias no Brasil. A maioria que alega ouvir os públicos de interesse o faz quase sempre como uma obrigação protocolar (sem, portanto, a profundidade e cuidado necessários), não como um instrumento útil, inserido em sua cultura de transparência, para melhorar o negócio com base em uma ótica que excede a miopia dos interesses dos donos ou acionistas.
Com relação à carreira indicada no estudo da FIA, cabe uma observação pontual: mais do que gerentes de eco-relações (o termo remete exclusivamente à questão do meio ambiente), as empresas precisarão cada vez mais de profissionais, de diferentes formações, capazes de pensar o negócio a partir de uma estratégia de sustentabilidade, o que significa, na prática, cuidar para que os processos e produtos gerem resultados econômico-financeiros respeitando o meio ambiente, o desenvolvimento sustentável de comunidades e as necessidades e expectativas da sociedade.
Se vier a se consolidar, a gerência de eco-relações será, portanto, uma área-meio. No campo das áreas-fins, as companhias que quiserem ser sustentáveis necessitarão, entre outros profissionais, de engenheiros preparados para desenhar processos cada vez mais ecoeficientes, menos emissores de carbono e mais cuidadosos no controle socioambiental da cadeia produtiva. Também aumentará a demanda por administradores, gestores de marketing e especialistas orientados para desenvolver produtos que conciliem as legítimas ambições empresariais de lucro com as não menos legítimas aspirações das pessoas a uma vida de melhor qualidade.
Prevalece ainda hoje a visão de que meio ambiente e sociedade constituem elementos à parte dos negócios. Como causa ou consequência dessa lógica da economia industrial, felizmente em declínio, impõe-se uma noção perversa de que todo empreendimento gera, inevitavelmente, externalidades com as quais a sociedade precisa aprender a conviver em nome do desenvolvimento econômico e da maior distribuição de suas benesses. No futuro próximo, com o avanço do aquecimento global, do esgotamento de recursos naturais e dos desequilíbrios sociais, a sustentabilidade deixará de ser um "elemento transversal" para se transformar, segundo o economista Sérgio Besserman, da PUC-RJ, no próprio "eixo central dos negócios". Externalidades como emissão de carbono e desgaste de ecosserviços, para ficar em dois exemplos contemporâneos, terão de ser precificadas a fim de que o seu custo seja pago hoje e não empurrado, como dívida, para as gerações futuras.
Nesse cenário, prevê-se, as empresas precisarão de economistas e planejadores preparados para reordenar novas equações de custo-preço ambientalmente honestas, de contadores capazes de tangibilizar os ativos socioambientais e de cientistas prontos para fazer pesquisa aplicada à inovação e ao desenvolvimento de tecnologias sustentáveis. É certo, portanto, que a ascensão da sustentabilidade nos negócios fará - como capturou a pesquisa da FIA - surgir novas carreiras. Não menos certo é o fato de que as carreiras tradicionais, especialmente as ligadas à gestão, terão de incorporar a visão sistêmica inerente ao conceito, o que implicará a deliberada formação de novas competências e habilidades, mas também de valores e atitudes. Eis um desafio importante para as universidades acostumadas a formar especialistas mais talhados para enxergar as partes do que o todo.
Pesquisa mostra a gerência de eco-relações como a mais promissora de um quadro de seis carreiras emergentes
* Ricardo Voltolini é publisher da revista Idéia Socioambiental e diretor da consultoria Ideia Sustentável: Estratégia e Conhecimento em SustentabilidadeE-mail: ricardo@ideiasustentavel.com.br
(Envolverde/Revista Idéia Socioambiental)
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