quarta-feira, 1 de abril de 2009

ENVOLVERDE - Revista Digital de Meio Ambiente e Desenvolvimento

"Os novos investidores financeiros

Por Hazel Henderson*

Um investidor de risco amigo meu perguntou-me em discussão recente sobre a desintegração financeira: “Quem serão os novos investidores financistas”?

Respondi de imediato: “Os novos investidores financistas serão os agentes de alto nível de informação e conhecimento - e eles agregarão a nova pesquisa sobre processos de mudança global e comandarão a estruturação dos negócios, agora criando a crescente economia verde.” Hoje, a mídia e a informação impulsionam os mercados.

Esses novos investidores financistas já atuam sem serem percebidos pelos administradores tradicionais de ativos e freqüentadores da Wall Street. São basicamente invisíveis para quem atua hoje no mercado financeiro e governos, pois a informação é sua moeda nobre; não o dinheiro. Os novos negociantes valorizam o papel das moedas honestas e bem-administradas que permanecem como reservas confiáveis de valor e meios de câmbio. O dinheiro é um tipo especial de informação, não uma commodity em si, mas sim uma invenção brilhante da mente humana. Tendo como base os artigos e serviços do mundo real, bem como contratos fortes, o dinheiro pode, de forma precisa, rastrear e marcar a engenhosidade humana, a produtividade e transações que interagem com a vasta gama natural de recursos do nosso lar: o planeta Terra.

O problema com o dinheiro é mantê-lo honesto e cumprir sua “promessa de pagar”. Desde os ourives que emprestavam demais suas pilhas de ouro em estoque aos seus clientes, até os reis que barganhavam até as últimas moedas e os banqueiros de hoje, que criam nosso dinheiro do nada, nós, humanos, achamos muitas formas de depreciar nossas moedas.

As atividades humanas aumentaram desde o escambo, auxílio mútuo e brindes tradicionais até a invenção do dinheiro por volta de 3.000 A.C. Nosso dinheiro evoluiu de pastilhas de argila, conchas e vacas até moedas de metal, ouro, prata, atual papel-moeda e modas eletrônicas que são sinais em milhões de telas de comércio financeiro.

Ao nos expandirmos mundialmente com o advento da Revolução Industrial na Europa, há 300 anos, nossa necessidade de comercializar e permutar aumentou geometricamente. Isso exigiu a expansão de nossos sistemas monetários de câmbio. O ouro, que era a base da maior parte das moedas no comércio internacional crescente, tornou-se constringente demais - não havia o bastante dele. Muitos comerciantes recorreram à prata e outros metais preciosos. Logo, a falta de ouro levou os governos a emitir papel-moeda irresgatável e decretado moeda corrente com base apenas em promessas e uma fração de ouro verdadeiro. Alguns países fecharam suas “janelas de ouro”, inclusive os EUA, em 1971, e restringiram a posse do ouro por parte de seus cidadãos.

Nossas crises financeiras atuais vão além daquelas contrações , pânicos e recessões iniciais causados pela falta de ouro ou suprimentos suficientes de papel-moeda confiável. Os banqueiros centrais aprenderam as lições da Grande Depressão. O suprimento de dinheiro deve manter-se lado a lado e não ultrapassar a expansão da produção e comércio à medida que um país cresce e sua economia real progride. Hoje, a interligação das economias de todos os países devido à globalização das finanças e tecnologia fez com que a criação de dinheiro crescesse desordenadamente, levando a uma bolha de crédito e montanhas de débito.

A informatização das finanças e mercados acelerou a comercialização em ritmo de segundos; a interligação de satélites de mercados de commodities e ações 24 horas por dia levou à explosão de contratos de derivativos, à ainda mais exótica “securitização” de pacotes de hipotecas, empréstimos estudantis e débitos no cartão de crédito. A análise de risco foi relegada a algoritmos de matemáticos que desconsideravam questões práticas e ignoravam as condições do mundo real. Tudo isso multiplicado pela criação exponencial de dinheiro e crédito.

As empresas financeiras displicentes e mal-regulamentadas em Wall Street venderam seus “valores mobiliários” dúbios e tóxicos a investidores e fundos de pensão crédulos (que deveriam ter sabido mais) no mundo todo. Por exemplo: as apostas especulativas sobre inadimplência, chamadas de swaps de inadimplência de crédito, aumentaram desregradamente abrangendo agora $683 trilhões de contratos (Banco para Liquidações Internacionais, Dezembro de 2008) - enquanto a produção global real é de apenas os $62 trilhões de PIB global (FMI, Outubro de 2008).

As crises resultantes foram previstas por mim e outros nas últimas décadas. Toda aquela criação de dinheiro e dívidas levou a ganhos ilusórios e às inevitáveis perdas e à “desalavancagem” de hoje. A bolha de finanças e dinheiro estourou. Os banqueiros centrais e investidores financistas, formados nas melhores escolas de comércio do mundo e departamentos de economia, têm seu foco no dinheiro e na circulação monetária global. Raramente lhes fora ensinado que o dinheiro era apenas uma forma de informação - atualmente muitíssimo desvalorizada à medida que as novas formas de criação de dinheiro cresceram desgovernadamente.

Atualmente, vemos os banqueiros centrais imprimindo dinheiro na televisão. Não há papel nem tinta que cheguem para imprimir dinheiro suficiente para que se tape o rombo entre aqueles $683 trilhões de falsas promessas e o PIB global real de $62 trilhões. A única questão é quem irá levar o golpe. Até agora, a influência política dos setores financeiros vem forçando o contribuinte a ser fiador dos investidores financistas. A injustiça gritante e o absurdo disso vêm causando imensos protestos de cidadãos ultrajados. Aqueles bilhões dados a banqueiros irresponsáveis poderiam ter financiado o cuidado com a saúde universal e a educação superior. Este é o fim das finanças baseadas somente em dinheiro e papel-moeda irresgatável e decretado moeda corrente. Agora sabemos que é sobre prioridades e valores.

Entrem os novos investidores financistas: aqueles agentes de alto nível de informação e de conhecimento que compreendem nossa Era da Informação e a grande transição da Era Industrial movida a combustível fóssil para a nossa nova Era Solar. Os circuitos carregados de dinheiro romperam-se e um grande novo volume de transações da década passada migrou para a Internet. O câmbio puro com base na informação e compartilhamento levou a um novo modelo híbrido de economia descrito por peritos, inclusive o Remix de Lawrence Lessig (2008), A Riqueza das Redes, de Yoichi Benkler (2007), Wikinomia, de Don Tapscott (2008), Evolução do Conhecimento, de Verna Allee (1997) e meu próprio trabalho (www.ethicalmarkets.com). Esta economia híbrida é compreendida tanto pela velha concorrência baseada no dinheiro quanto pelo compartilhamento, troca e cooperação baseada na informação. Das Bolsas de Valores eletrônicas, Instinet, Archipelago, NASDAQ, Knight e Entrex, até o Google, e-Bay, Craigslist, Amazon, Facebook e Wikipédia, estamos vendo como os investidores financistas obcecados por dinheiro estão ficando para trás. Os novos investidores financistas: aqueles agentes de alto nível de informação vão além da economia até o entendimento de sistemas completos e da família humana no planeta Terra.

O dinheiro pode retornar à sua base honesta, refletindo os valores do mundo real da produtividade da Main Street, mas talvez nunca venha a ser novamente o meio dominante de câmbio; assim como o ouro permanece valioso, mas não pode mais sustentar o novo volume de transações humanas. O dinheiro será substituído por todas as novas moedas digitais já em circulação desde os sistemas de comercialização de câmbio locais (LETS) e moedas complementares como “Berkshares” e “Wirs” na Suíça até o Freecycle e muitos outros sites de permuta, redes de telefone celular e programas de rádio. Jogadores titulares de circuitos monetários tentarão fazer com que os reguladores impeçam essas tecnologias e concorrentes disruptivos e pretenciosos. A Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC), por exemplo, fechou o site Prosper.com na Internet, que estourou facilitando os comerciantes e residentes locais a realizarem empréstimos uns aos outros.

Os novos investidores financistas estão atuando nestas novas plataformas digitais de comercialização em muitos países. Muitos projetos para moedas digitais globais estão a caminho. Eles complementarão os Direitos de Saques Especiais do FMI, outra moeda pura baseada em informação para o desenvolvimento internacional que ainda está conceitualmente atrelada ao ouro. Os novos investidores financistas demonstrarão por que os velhos investidores financistas e banqueiros centrais não podem mais ter o monopólio do dinheiro e de sua criação. As moedas baseadas em informação e plataformas de comercialização operarão onde necessário for para as comunidades humanas em evolução de modo a combinar as necessidades com os recursos e gerar empregos - desde o câmbio em nível local e regional até o nacional e internacional.

A “crise” financeira de hoje está facilitando o salto evolucionário para o próximo estágio do desenvolvimento humano - a mudança do crescimento defeituoso do PIB medido pelo dinheiro para economias mais limpas, verdes e sustentáveis. Os governos estão se dando conta de que agora devem corrigir aqueles indicadores baseados em dinheiro e contas nacionais de PIB para adoção dos novos Indicadores de Qualidade de Vida. Os fundos de pensão perceberam seus erros em perseguir apenas o retorno monetário de curto prazo e estão exigindo que as empresas relatem seu desempenho além do resultado líquido único do dinheiro para o resultado líquido triplo, inclusive do progresso no desempenho social, ambiental e de governança. Bem-Vindo à Era da Informação.

* Hazel Henderson é economista, líder mundial da plataforma Mercado Ético. Autora de vários livros, entre eles Ethical Markets: Growing the Green Economy. Co-criadora do Calvert-Henderson Quality of Life Indicators, juntamente com o Calvert Group. Participou do Comitê Organizador da conferência Beyond GDP no Parlamento Europeu (www.beyond-gdp.eu).


(Envolverde/Mercado Ético)"

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