Tal como aos EUA a retomada exige combinar ações que reanimem a economia com um horizonte ao capital
Variável-chave para a evolução corrente da economia, com impactos sobre o nível do emprego, a renda, a arrecadação tributária e, por consequência, o desfecho da sucessão do presidente Lula em 2010, o desempenho da produção industrial em fevereiro na métrica do IBGE foi menor que o esperado. Mas não sinaliza um desastre. Ainda.
Não, pelo menos, no mesmo patamar de recessão tendendo a virar uma depressão, à falta de políticas anticíclicas eficazes e de um horizonte confiável para o capital, visto nas economias da Europa, EUA, Japão e na maioria dos emergentes, à exceção de China e Índia – enfim, o Grupo dos 20, G20, dos países mais ricos do mundo.
Os chefes de governo do G20 se reuniram em outra rodada anticrise e decidiram mais do que se previa. O que houve de mais relevante foi um pacote de US$ 1,1 trilhão para reforçar o funding do FMI e do Banco Mundial, incluindo-se US$ 250 bilhões para as linhas de crédito à exportação. O juízo é que a alta de crédito, estimada em US$ 300 bilhões, agravou o colapso do intercâmbio comercial entre países.
Na conta da Organização Mundial do Comércio, o fluxo comercial recuou 23% no primeiro trimestre sobre igual período de 2008. Sem reforço do crédito, tenderá a recuar 13% no ano, contra o aumento médio de 8% nos últimos anos. O problema é que tal análise não é consensual.
No próprio Banco Mundial há economistas que relacionam a retração do comércio não à escassez de crédito, mas à recessão nas maiores economias, e isso devido à globalização das cadeias produtivas no mundo. Se a demanda interna em países de consumo voraz, como EUA e China, enfraqueceu, o comércio global também enfraquece. E só com estímulos fiscais para ativar a demanda doméstica a situação volta ao normal. Ainda assim, tal ação precisaria ser seletiva.
O ativismo fiscal deveria ser mais forte em países ou blocos com superávits externos, sobretudo China e Japão, mas também a Europa, e menor nos EUA, que já está gastando mais do que pode, só que, se ficar isolado neste esforço, reiniciará o circuito importador e os seus enormes déficits comerciais.
Está neles a origem primária do desbalanceamento global, expresso pela enorme propensão ao consumo dos EUA sem a contrapartida de importações equivalentes pelos seus parceiros superavitários, sobretudo China, Japão e a zona do euro. Nada disso o pacote de medidas do G20 conseguirá resolver.
Um processo doentio
As raízes da crise são profundas. Elas começam com a cornucópia dos dólares emitidos para financiar os déficits primeiro fiscais, depois, comerciais, dos EUA. Eles criaram o “capital de giro” para a expansão do comércio global, que impulsionou o modelo exportador de bens industriais baratos para o mercado americano, a volta dos superávits desses países para aplicação em papéis dos EUA, e por ai se foi semeando a crise atual.
O superendividamento dos EUA, as bolhas de especulação nos últimos anos, o colapso do crédito, tudo vem daí: do processo doentio de acumulação de riqueza no mundo. A ambição do G20 é livrar o mundo desses males, mas não será agora.
Sabedoria em falta
Falta tudo ao G20, de visão consensual sobre as origens da crise à vontade sincera dos governos em assumir sua cota de sacrifício.
O laxismo fiscal coordenado sugerido por Barack Obama não encontra respaldo entre os governos da Alemanha e França, mais preocupados em defender seus próprios mercados que em facilitar o comércio dos “outros”, embora esta seja uma política em que só há perdedor.
Mas quem disse que a riqueza das nações traz sabedoria ao governante?
Risco de estagnação
É neste contexto de contradição e mesquinhez do mundo rico que se insere a economia brasileira e seu principal elemento, a produção industrial. Ela cresceu 1,8% em fevereiro sobre janeiro, abaixo da expectativa, e acumula expansão de 4% sobre dezembro - ritmo lento para recuperar o tombo de 20,1% de outubro a dezembro em relação a setembro.
Por tais dados, o quadro não se agrava, mas torna remota a chance de o Produto Interno Bruto (PIB) fechar o ano com taxa de crescimento parruda. No cenário do Banco Central, crescerá 1,2%.
A esperança de crescimento, ainda que modesto, se abate diante da forte queda do investimento. A produção de bens de capital recuou 6,3% sobre janeiro, revelando o pessimismo empresarial. Não é bom augúrio. Sem o mercado interno e o investimento, a estagnação é o melhor cenário, já que do mundo, por ora, não há o que esperar.
Miopia globalizada
Tal como aos EUA, onde está o centro da crise, no Brasil também a retomada exige a combinação de ações que reanimem o consumo com um projeto crível de expansão a longo prazo. Mas tanto lá como cá é o cenário corrente que merece atenção, o que se entende nos EUA, com a insolvência virtual da banca, mas não aqui.
O governo parece importar-se mais com indicadores correntes capazes de influenciar a popularidade presidencial que com o quadro econômico futuro, desprezando o fato de que é no presente que se constrói o que virá. Tipo o quê? Dando redução de imposto para máquinas e equipamentos, por exemplo, não só para carro e material de construção. A miopia não é só das potências econômicas do G20."
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