Cidade Biz - Economia, Marketing e Negócios - Euforia dos mercados é tão artificial quanto a riqueza construída à base de dívidas na bonança:
Indicadores, no Brasil e no mundo, dizem, na melhor hipótese, que a queda livre começa a parar
Antonio Machado
A surpreendente valorização do índice de preços das ações em todo mundo na segunda-feira – no Brasil, a Bovespa subiu 6,59% -, não é diferente do que fazem os inferninhos para atrair clientes: põem a música em alto volume e algumas mocinhas na porta. A alegria é um engodo, mas engana quem quer ou precisa ser enganado.
Os indicadores da economia, no Brasil e no resto do mundo, dizem, na melhor hipótese, que a queda livre do consumo está começando a parar, não que a crise terminou, não havendo nada razoável à vista que substancie a súbita euforia dos mercados globais.
Aqui dá para supor que há sinais de recuperação, enquanto lá fora nem a isso já se chegou. Mas o que vai à bolsa brasileira não quer dizer coisa alguma - é só especulação. E pior: ditada de fora para dentro.
A liquidez da Bovespa é raquítica, oscilando entre a euforia e o pessimismo conforme o ritmo de entrada e saída de fundos externos de curto prazo. Ações de apenas duas empresas, Vale e Petrobras, dominam o movimento diário. O desempenho geral mimetiza o que vai à Bolsa de Nova York, não os fundamentos da economia brasileira.
As alegações dos analistas para explicar a alta, que parou nesta terça-feira - supostamente para respirar ou “realização de lucro”, conforme o jargão do mercado -, são tão mundanas quanta as teorias antes da crise que explicavam a bonança.
Falou-se da China, onde o indicador da indústria de transformação cresceu em abril, o primeiro aumento em nove meses. Alegou-se que os bancos dos EUA não estariam tão maus à luz do teste de estresse a que o Federal Reserve submeteu os 19 maiores. Cautela, nenhuma.
Não se diz que a qualidade da retomada chinesa é duvidosa, movida a empréstimos volumosos concedidos sem maior critério. O acréscimo de crédito no primeiro trimestre equivaleu ao total de 2008.
Na ironia do economista Michael Pettis, professor da Universidade de Pequim, “reestruturação de mau crédito” será nos próximos anos a melhor carreira na China. O pacote de investimentos de US$ 675 bilhões anunciado em novembro, segundo o economista inglês Willem Buiter, não contempla o “imperativo de longo prazo”, que seria a redução da taxa de poupança nacional e dos superávits externos.
Ou seja: mais consumo interno e menos exportação. Priorizou-se ao contrário ampliar a produção de exportação e a infraestrutura, com o “inevitável resultado”, segundo Buiter, de “aumentar o excesso de capacidade e a destruição ambiental sem precedentes”.
Cenário de sobriedade
Do que, então, se alimenta a euforia das bolsas no mundo, até no Brasil, que já registra valorização acima de 30% desde o início do ano em total conflito com os resultados corporativos em baixa? Os indicadores de produção e consumo estão em lenta recuperação, como voltou a constatar a pesquisa da produção industrial do IBGE.
Ela subiu 0,7% em março sobre fevereiro, o terceiro mês em alta. Aos poucos, fecha-se o gap com a situação no ano passado. A queda no trimestre sobre igual período de 2008 recuou para 14,9%.
Na mão oposta, porém, a renda e o emprego ainda encolhem, embora menos do que no resto do mundo. Os prognósticos, sempre comparando com outros países, são bons para a economia brasileira. Mas estão longe de justificar uma onda de euforia no mercado de ações.
Pecados do passado
A melhor situação relativa das economias emergentes em relação ao antigo mundo industrializado, EUA, Europa do euro e Japão, é só o que sustenta a expectativa dos estrategistas dos fundos globais – o que também é sinal de que os pecados do passado continuam por ai e ninguém aprendeu coisa alguma.
Se a Selic continuar assimétrica em relação aos juros internacionais, logo o carrossel do dinheiro emprestado onde há grande liquidez e custo baixo (isto é, o mundo) reiniciará, pondo fogo na Bovespa e nos papéis da dívida pública.
Valorização dos tolos
Não faltará quem diga que é prova da força da economia. De fato, será a valorização dos tolos, que trará outra apreciação insana do real, debilitando as exportações e incentivando as aberrações com derivativos que arruinaram a reputação de grandes empresas.
Ah! Mas também se diz que a banca nos EUA saiu-se melhor do que se achava nos testes de solvência do Fed. Pode ser. A demora do Fed em divulgá-los, porém, diz mais do que dirá o anúncio formal. A alta das bolsas é conveniente nesse cenário: melhora a relação patrimonial da banca endividada dos EUA. E a Bovespa reverbera.
O paradoxo dos EUA
É sempre válido repisar a natureza da crise: ela se formou com a exacerbação do crédito suprido por ativos supervalorizados também por dívidas financeiras, tudo criando uma sensação de riqueza que jamais existiu no plano real.
Essa ciranda ruiu, desmontando tudo que dela dependia: do mercado imobiliário e renda disponível nos EUA aos megaprojetos industriais no Brasil, pautados pela idéia de exportações crescentes.
A necessidade dos EUA, ainda locomotiva do mundo, implica o que os economistas chamam de “paradoxo”: aumentar a taxa de poupança das famílias para pagar dívidas e se endividar mais ainda para consumir. Tais objetivos não são complementares.
Nenhum comentário:
Postar um comentário