sábado, 23 de maio de 2009

Cidade Biz - Embora Lula rejeite 3º mandato, industriais de SP não acreditam, sinal de negaça fraca

Teses malandras prosperam devido à lenda de que lhe falta um nome viável, se Dilma tiver de sair da disputa


Antonio Machado

Do jeito que vai a discussão imprópria, ociosa e imprudente sobre a reforma do sistema eleitoral e, agora, de terceiro mandato aos ocupantes de cargos executivos, como presidente e governadores, ou de prorrogação dos mandatos vencíveis em 2010 até 2012, parece que uma fatia dos políticos quer criar a democracia sem eleições.

É fácil constatar: todas as propostas de algum modo pretendem não aperfeiçoar o sistema eleitoral, torná-lo mais representativo da vontade do eleitor e consonante com um processo de desenvolvimento econômico e social. Qual a intenção, por exemplo, da proposta de mudar o sistema de votação para as listas fechadas escolhidas por partidos se não o de facilitar a reeleição dos atuais deputados?

Tal idéia, assim como a do financiamento público de campanhas, é a peça de resistência da cogitada reforma eleitoral, que começa a sair de cena pela resistência da sociedade e a desconfiança de um grupo de partidos da base de apoio ao governo, como PSB, PR, PTB e PP.

A falta de acordo na base aliada aparentemente demoveu PMDB e PT a seguirem em frente com a reforma, que, curiosamente, agrada a setores do PSDB e do Dem, a linha de frente da oposição.

Mas, se tais projetos desfrutam de alguma razoabilidade e mesmo o precedente de sua aplicação em outras democracias, nada há que se possa argumentar a favor da proposta de emenda constitucional para permitir a reeleição sucessiva do presidente e governadores ou da ainda mais extemporânea, safada até, da prorrogação de mandatos.

Propostas assim só subsistem em países com democracias capengas, antigamente chamadas de “bananeiras”, já que, literalmente, não passavam de fazendões de bananas exportadas para os EUA e Europa.

Não se imagina o presidente Lula aceitando macular sua brilhante biografia equiparando-se a trambiqueiros eleitorais como tantos na América Latina. Iniciativas com tal dimensão, além disso, demandam uma aura de respeitabilidade que nenhum de seus proponentes, todos parlamentares inexpressivos, tem a oferecer. Ao contrário, põem em suspeição. Representam apenas os seus interesses bajulatórios.

Os argumentos em favor dessas alucinações são pueris. Pegue-se os do líder do PR, deputado Sandro Mabel, autor da idéia de prorrogar todos os mandatos atuais até 2012 a pretexto de fazer coincidir as renovações com as eleições municipais.

“Não se juntar as eleições é antiprodutivo e não é econômico”, justificou, preocupado com a economia “de bilhões”, segundo sua ênfase, aos cofres públicos. É o corolário da tese da democracia sem eleições, o eleito sem voto.

Investimento de risco

Desde quando eleição é despesa? Despesa é o que os parlamentares fazem depois de eleitos. Só faltou alguém dizer que a prorrogação de mandatos seria boa para combater os efeitos da crise mundial – desculpa rasteira que hoje se presta para tudo.

Nada relacionado à democracia configura despesa, sendo as eleições seu grande momento – o único encontro real entre eleitor e eleito. É um investimento, embora de risco, como demonstrado pelo nível de propostas como as em curso.

Quem não gosta de eleição está no lugar errado. Nos EUA, o mandato de deputado é de dois anos, sem sinal de insatisfação.

A veemência em falta

Essas teses malandras começam a prosperar devido ao infortúnio da doença da ministra Dilma Rousseff, indicada por Lula para disputar a sua sucessão.

O caldo de cultura é a lenda de que lhe falta um nome viável, se a ministra tiver de sair da disputa, além de algo muito mal resolvido desde a reeleição em 2006: a suspeita de que, no íntimo, ambicionaria seguir onde está. Lula nega, mas não o faz com veemência, já que há importantes industriais em São Paulo com a firme convicção de que a tese do terceiro mandato tem seu apoio.

Slogan para marionete

Da Turquia, última escala de sua viagem ao exterior, Lula afirmou que não discute sobre hipótese. “Primeiro”, disse, “porque não tem terceiro mandato. E segundo porque a Dilma está bem.” Mas e se não estivesse? Quanto à reeleição, é só mudar a Constituição. Teria de ter sido mais enfático, pelo menos na compreensão de empresários.

A persistência desses rumores enfraquece tanto a ministra como o slogan sugerido por um apoiador, e elogiado pelo ex-ministro José Dirceu em seu blog como “boa sacada”. Diz: “Dilma 2010, é Lula de novo”. Ou seja, a oposição poderia exibi-la como uma marionete.

A coisa está mal ao PT, menos ao PMDB, o único capaz de fazer aprovar a tese da reeleição de Lula, mas ao preço de despetizar o governo.

Sucessor pro tempore

A Lula certamente envaidece um movimento pela sua continuidade. A idéia, porém, tumultuará a cena política e respingará na economia, parando os investimentos já em marcha lenta não só pela crise, mas pela expectativa do que virá depois de 2010.

À falta de Dilma, ele dispõe da opção pelo ex-ministro Antonio Palocci, se isentado pelo STF do caso da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo.

Para industriais atentos à sucessão, Palocci tem, como Dilma, o perfil que Lula almeja: lealdade absoluta e imagem de bom gestor. Essa é a sacada: “bom gestor”. Ela preserva sua imagem altruísta, fazendo do sucessor um tipo de primeiro-ministro pro tempore."

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