Candidatos sonegam à platéia o essencial: conteúdo
Com um ano e quatro meses de antecedência, a sucessão presidencial de 2010 ganhou ares de fim de jogo.
O primeiro turno da eleição não é senão um ponto longínquo na folhinha. Mas a política pulsa num ritmo de 45 minutos do segundo turno.
Os institutos de pesquisa e o noticiário condenam o eleitor a optar entre o tucano José Serra e petista Dilma Rousseff.
No lado governista, nem Ciro Gomes se enxerga mais como alternativa. Na banda oposicionista, Aécio Neves é tratado como figurante de luxo.
As engrenagens da campanha já estão em movimento. Vive-se a fase da politicagem.
Esboçam-se as composições partidárias. Alianças com fins lucrativos.
É um período em que os candidatos e seus prepostos percorrem as coxias com ares de compositores. Compõem com qualquer um.
Resumida a dois nomes e rendida à baixa política, a campanha prematura sonega ao eleitor o essencial: conteúdo.
A grande dúvida, a interrogação eletrizante é: Com quem vai ficar o PMDB? Ninguém pergunta: O que diabos Serra e Dilma pretendem fazer com o país?
Que idéias tem para arrancar a saúde pública da maca? Como planejam produzir o salto científico e educacional?
São perguntas moídas pelo moto-contínuo das pesquisas. Estatísticas que antecipam o nome do herói que os pára-choques de caminhão vão desancar depois da posse.
É como se, submetidos a um par de candidatos compulsórios, dois grupos de loucos se dispusessem a dirigir o hospício sem apresentar credenciais mínimas.
Munidos de pesquisas –quantitativas e qualitativas— os malucos governistas e os da oposição percorrem a cartilha do marketing.
Convertem a vontade difusa do manicômio em música. Conferem à forca a aparência inofensiva de um instrumento de cordas.
Recolhem a opinião alheia e a devolvem aos opinantes na forma de sentimentos rarefeitos e convenientemente difusos.
O petismo de Dilma é vendido como a continuidade de Lula. O tucanato de Serra é a mudança que não diz o que será mudado.
Nas raras oportunidades em que se manifestam, os candidatos dizem coisas definitivas sem definir as coisas.
São, por assim dizer, mercadores de verdades que se esquecerão de acontecer. Noutras palavras: vendedores de ilusões.
A imprensa tampouco faz o seu papel. Jornalista gosta de cobrar as “propostas” dos candidatos. Agora, nem isso.
Privilegia-se a baixaria. Os ataques de parte a parte como que monopolizam os holofotes.
Vivo, Nelson Rodrigues diria: “Os repórteres esbarram, tropeçam no óbvio. Pedem desculpas e passam adiante, sem desconfiar que o óbvio é o óbvio”.
O óbvio, por ululante, começa a ser citado nos carros de praça, emerge das esquinas, irrompe nas mesas de bar.
A inanição mental dos candidatos à presidência, eis o óbvio que as manchetes se esforçam para não enchergar.
Desprezado pelos meios de comunicação e enganado pelos candidatos, resta ao eleitor tentar distinguir por conta própria o lamentável do lastimável.
O segundo turno de 2010 se imiscui em 2009 como uma espécie de loteria sem prêmio. O país se divide entre o seis e o meia dúzia.
Escrito por Josias de Souza às 19h27
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