terça-feira, 16 de junho de 2009

Cidade Biz - China e a banca global se congraçam em Pequim em evento no qual o Brasil atraiu atenções

É uma projeção desafiadora, se o país não estiver preparado, como prenuncia a valorização do real


Antonio Machado

Se todos os caminhos levam à China no realinhamento econômico que vai emergir da crise que fraturou gravemente as economias do mundo rico, eles também passam pelo Brasil, como se constatou na reunião de meio de ano dos grandes bancos globais esta semana em Pequim.

É uma projeção desafiadora, se o país não estiver preparado, como prenuncia a valorização do real, inflado por um fiapo de ingressos de capitais, comparado ao que poderá afluir para cá.

O governo foi ao evento promovido pelo IIF, Institute of International Finance, a entidade dos maiores bancos do mundo, com uma comitiva do BNDES, um de seus associados - e com direito a estande sobre o país e a uma concorrida palestra-almoço de seu presidente Luciano Coutinho.

O governo comunista da China estendeu sem nenhum constrangimento tapete vermelho à banca, que também se curvou ao poder ascendente chinês, e às economias emergentes em geral. Banqueiro surfa todas as ondas.

“A crise global tem sublinhado a importância da China e das economias emergentes líderes”, disse o alemão Josef Ackermann, presidente do IIF e chefão do Deutsche Bank. Elogio é de praxe em eventos festivos. Cadê o dinheiro? A resposta veio a seguir.

O IIF informou que este ano haverá um “dramático” declínio para os mercados emergentes dos fluxos de capitais privados. Prevê-se US$ 141 bilhões, menos da metade do total aplicado em 2008, US$ 392 bilhões, e muito abaixo do recorde de US$ 888 bilhões em 2007.

“Não obstante”, disse o IIF, “um modesto renascimento dos fluxos começa agora a ficar evidente”. A previsão para 2010 é que aumente para US$ 373 bilhões. Tais capitais devem dirigir-se para papéis de dívida dos emergentes, atraídos, em parte, diz o informe, “pela persistência dos largos diferenciais das taxas de juros nominais entre as economias maduras e as emergentes”. Não se sabe se foi só constatação ou recado, por exemplo, à obesidade da Selic.

Seria melhor que os capitais externos fossem atraídos apenas por oportunidades do lado real da economia, não pelos juros de títulos de dívida e ações já emitidas. Mas há uma ressalva mais animadora.

A nota do IIF ressalta que a motivação do investimento em mercados maduros ou emergentes está ficando “embaçada”. O risco-país nesta “nova normalidade”, segundo a entidade dos bancos, vai favorecer os deslocamentos de capitais globais para as economias emergentes.

A leitura é positiva

Coutinho, do BNDES, testemunhou a mudança de interesse dos bancos e em especial pelo Brasil. Falando de Pequim, disse ele que “toda a leitura sobre o país é positiva. Não há nenhuma ressalva”.

Outra constatação é que a passagem do presidente Lula pela China no meio de maio, segundo ele, “causou boa impressão” e terá desdobramentos práticos a curto prazo em termos de investimentos.

“A densidade da relação bilateral tende a crescer muito e a levar o intercâmbio do comércio e de investimentos a uma atuação muito mais intensa”, avaliou.

Os negócios da China

Já estava acertada a compra de 200 mil barris de petróleo/dia da Petrobras pela China, no valor de US$ 10 bilhões, pagos na frente, para compor o financiamento da exploração do pré-sal, o que levou ao evento do IIF o diretor de finanças da estatal, Almir Barbassa.

Agora, Coutinho acertou com o China Development Bank, equivalente ao BNDES, e o Eximbank local convênios de cooperação e a montagem de uma missão em 30 dias para vir ao Brasil prospectar projetos de interesse ao investimento chinês.

O embaixador Clodoaldo Hugueney ajudou nas tratativas, que também aproximaram o gerente do Banco do Brasil em Pequim. Mas a presença oficial do país é pequena para as oportunidades que estão postas. O corpo técnico permanente da embaixada em Pequim, por exemplo, não chega a dez pessoas.

Jogo global está dado

À margem da programação do IIF os assessores do BNDES auscultaram que a percepção do pós-crise entre os bancos é que a Ásia - puxada pela China, os seus satélites e Índia -, Brasil e EUA estão melhor posicionados, enquanto a Europa deve piorar mais, estando de seis a oito meses atrasada em relação aos sinais de recuperação.

As autoridades do governo chinês passaram a idéia de que o pacote de investimentos de US$ 687 bilhões lançado no fim de novembro foi eficaz para reaquecer a economia pelo mercado interno. A tendência do crescimento estaria evoluindo para 7% a 7,5% este ano.

Quanto aos EUA, há expectativas incertas quanto à retomada da inflação e não muita fé na âncora do Fed e em seu guia, Ben Bernanke. O jogo está dado.

Novo neocolonialismo

Nenhuma incursão econômica para ser venturosa pode dar-se ao luxo de ignorar a China. O Goldman Sachs ratificou esta semana que ela terá o maior PIB do mundo em 2027, com Brasil ainda na 9ª posição.

Brasil e China, porém, salvo grãos e minérios, não são economias complementares, e sim concorrentes. Seu modo de expansão lembra os tempos do colonialismo - uma realidade, segundo o economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, que vai assombrar.

O risco é que crença da competitividade industrial do Brasil vire pó. A discussão que se impõe é a do espaço do país no mundo pós-crise. O da China está dado e não admite barreiras à sua expansão. Mas aqui só o supérfluo empolga."

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