sexta-feira, 12 de junho de 2009

Cidade Biz - Crescimento movido a políticas econômicas sem inovação não cria progresso nem é transformador

Inovações e áreas de expansão para o capital são iniciativas mais próprias da esfera privada


Antonio Machado

No dia de reunião da diretoria do Banco Central para determinar a Selic foi instigante, ou ilustrativo do vôo curto dos formuladores econômicos, saber que os ministros de Finanças dos G8, o grupo das sete economias ricas mais a Rússia, vão reunir-se no fim de semana na Itália para estudar uma estratégia uniforme de saída da crise.

Os dois eventos têm comum a sinalização do peso assumido em toda parte pelas políticas monetária e fiscal, de responsabilidade dos governos, para azeitar as engrenagens do crescimento. A iniciativa não é imprópria: sem economia ajustada, o que implica juro módico, déficits fiscal e externo controlados, financiamento assegurado da dívida pública e inflação estável, os negócios não engrenam.

Macroeconomia em ordem é condição mínima para o crescimento. Ela veio a pique não bem pelo colapso do crédito bancário, a sua causa mortis. Mas pelas duas décadas de prosperidade econômica movida a emissões de dívida pelos EUA, inflando aos poucos o cenário de bolhas e ganância financeira que atingiu o ápice, primeiro, com o fim da especulação imobiliária a partir de meados de 2007. Depois, com a insolvência de Wall Street de setembro em diante.

Ao longo desse longo período de bonança que trazia em seu bojo a própria degenerescência a economia privada e pública multiplicou os seus resultados graças à expansão paulatina do crédito e, no outro lado da balança, de dívidas - mas o fez de modo desigual.

Países chamados de subdesenvolvidos foram os perdedores na saída de tal processo nos anos 70. Os industrializados e exportadores de petróleo foram os vencedores.

Do fim dos anos 90 para frente essa relação se inverteu. Parte dos subdesenvolvidos adquiriu vacinas contra a dependência externa, acumulando reservas formadas contra os novos deficitários, EUA, basicamente.

Tornaram-se os emergentes da nova economia, destacando-se a China, Índia, Brasil e Rússia - os tais BRIC, acrônimo cunhado por um economista do Goldman Sachs para designar as possíveis potências econômicas até 2030.

Alguns o fizeram misturando estratégias de política econômica com pesado planejamento orientado ao desenvolvimento. China foi quem mais se serviu dessa visão, seguida da Índia. Não por menos ambos, hoje, são os quais crescem a despeito da recessão internacional.

Mundo rico fez pior

A Rússia pouco fez, já que paralisada pelas rendas de petróleo e gás, inexplorados quando encimava a União Soviética. Pior: tentou defender o rublo e perdeu quase metade de suas reservas antes da crise de US$ 600 bilhões.

O Brasil ficou no meio termo, com viés mais economicista – e dentro dele fiscalista e voltado à solvência pública e ao Estado paquidérmico -, que estratégico.

Os emergentes, apesar das mazelas de uns e outros, contudo, estão em melhor situação no plano global, porque o mundo rico fez pior: consumiu a riqueza acumulada desde o Pós-Guerra em gastos públicos correntes, permitiu o endividamento progressivo da população, até o incentivou no caso dos EUA, e assiste à tendência progressiva de necrose da inventividade e empreendedorismo empresarial.

O Estado inova mal

A composição destas seqüelas é que leva os ministros de Finanças do G8 a tomarem para si a responsabilidade de tentar reerguer as suas economias. Se esperassem que o mercado o fizesse, a recessão já teria se transformado em depressão.

Mas governos dificilmente são capazes de também formular as inovações e as áreas de expansão para o capital, iniciativas mais próprias da esfera privada.

O que se espera é que deem as condições econômicas adequadas e catalisem os processos focados no desenvolvimento. O que se faz nessa direção? Nada. O presidente Barack Obama se elegeu como o condutor das transformações.

Um de seus primeiros atos foi criar um fundo para incentivar novas energias. Mas cada vez mais parece atado às motivações e interesses dos financistas americanos.

Dependente de favor

Quando não se sabe para onde ir qualquer caminho serve, razão de se esperar tanto de reuniões como a do G8 e a do BC sobre a Selic.

Que ela fosse de 7% ao ano, não de 10,25% antes da reunião desta quinta-feira, como o presidente da FIESP, Federação das Indústrias de São Paulo, Paulo Skaf, imagina que devesse ser, e talvez, só talvez, o crédito ficasse um pouco mais acessível.

Certo é que a dívida pública custaria menos. O progresso continuaria aleatório, dependente de favores, irrealizável como força transformadora.

Desenvolvimento puro

Sem a concepção plena de progresso, e a presença entusiasmada de agentes privados e públicos pela transformação, sobram apenas as políticas macroeconômicas - muletas de um crescimento baseado no “ouvir dizer”, no galo cantar sem saber onde, tipo a expansão da produção de commodities para atender ao progresso chinês, mas não necessariamente ao progresso nacional.

A taxa de investimentos na economia desabou, como aferiu o IBGE ao mensurar o PIB, muito por tais razões: projetos em implantação visando menos o interesse do país a longo prazo. E isso por quê? Pela falta do desenvolvimento em estado puro, implantado desde o primeiro estágio, a educação.

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