sábado, 6 de junho de 2009
Cidade Biz - Indústria no mapa da CNI também parou de cair. Para frente importa a velocidade da recuperação
Questão mal elaborada é saber quais setores vão ficar para trás e quais vão puxar a recuperação
Antonio Machado
Os dados de abril da produção industrial acompanhada pela CNI, a Confederação Nacional da Indústria, estão em linha com os do IBGE e definem, conforme o diagnóstico da entidade, a situação atual: transição entre o fundo do poço e a recuperação. Relevante daqui em diante não é a crise em si, mas a velocidade de saída dela e os seus impactos sobre a estrutura de negócios de cada setor.
Como a situação é desigual entre os subsetores da indústria, e o processo em curso desde a parada abrupta do crédito em setembro é o de desova de estoques, quase encerrada, os dados não são bons. A tendência é de melhora contínua até o fim do ano. O que se vê por agora é a fotografia dos estragos de uma tempestade que já passou.
É o que faz a medida do PIB (Produto Interno Bruto) no primeiro trimestre, que o IBGE divulgará dia 9, trazer a segunda retração trimestral seguida – um quadro de recessão conforme a convenção da economia. As projeções oscilam em torno de queda de 3% em relação ao primeiro trimestre de 2008. O provável é que involuiu 2,5%.
No mês, o faturamento real da indústria de transformação, segundo o mapa da CNI, recuou 1,9% sobre março, quando crescera 2,8% sobre fevereiro, acumulando no ano redução de 8,4% contra igual período de 2008. Mas o índice de horas trabalhadas praticamente não variou em abril, com recuo de 0,1% sobre março e queda no ano de 7,5% - indício de que a produção parou de cair. E, como seria óbvio, num nível muito menor que o constatado no pré-crise.
Outro dado de refluxo da crise, e mais diretamente relacionado ao fim da fase de queima de estoques que vem travando a produção, é o que mede o nivel de utilização da capacidade instalada, chamado de NUCI. Ele aumentou de 78,8% em março para 79,2% em abril.
Deve-se ler tal indicador com o do emprego na indústria, que caiu 1,1% em abril sobre março. No ano, o emprego está 2% menor que em igual período de 2008. O emprego encolheu pelo sexto mês, o que já indica, combinado com o aumento do NUCI e à estabilidade das horas trabalhadas, o empenho da indústria por maior produtividade.
Retomada é desigual
O crescimento do NUCI foi o terceiro seguido. No nivel máximo, em abril de 2008, o NUCI chegara a 83%. Para muitos setores, porém, a crise foi como um empurrão no precipício. O setor de combustíveis, álcool e coque, por exemplo, operava a 94,4% de sua capacidade em julho de 2008. Em janeiro, estava a 62,67%. Chegou agora a 87,6%.
Metalurgia básica operava também em julho a 93% - a plena carga, portanto, já que nunca se vai a 100% por segurança -, e hoje ainda patina em torno de 72%. A produção de veículos ocupava 90% de sua capacidade em março de 2008, afundou até 79% um ano depois e está agora em abril operando a 82,12%. Sem a redução do IPI dos carros, ela ainda estaria atolada no acostamento da economia.
Vantagens nacionais
O que passou já era. Não se deve perder tempo com isso. “Os dados mostram que a fase crítica passou e a situação deixou de piorar”, diz o economista-chefe da CNI, Flávio Castelo Branco, mas com a ressalva de que “a indústria trabalha em nivel muito inferior ao desejado”.
Isso era o esperado, sendo esta uma crise não bem de escassez de crédito, mas de volta à realidade e ajuste da riqueza criada pela inchaço do valor dos ativos financeiros e reais.
Por ter passado ao largo em boa parte desta febre, embora tenha usufruido das exportações para as economias beneficiadas por tal fenômeno, sobretudo as asiáticas, o Brasil, se não se livrou do baque, foi muito menos afetado. Por isso, começa a se reerguer.
Sob a síndrome da GM
A questão mal elaborada pelas análises é saber quais setores vão ficar para trás e quais vão puxar a recuperação. O mercado interno é o determinante do novo dinamismo, no que o país não está mal.
Negócios dependentes do ciclo econômico global estão sujeitos às flutuações de uma demanda cada vez mais condicionada a viradas de modelo econômico, necessidade crucial para a China (voltar-se para dentro) e os EUA (desindividar-se e aumentar poupança). Outros já estão ameaçados pela supercapacidade produtiva decorrente do corte do crédito em escala global, o caso da indústria automobilística.
A chamada “destruição criativa” é o cenário que se prenuncia para o setor automobilístico inteiro, não só para GM e Chrysler, ambas agora sob tutela estatal. Doravante, a indústria que desdenhar as mudanças estruturais em curso corre risco de virar outra GM.
Minc polui os fatos
O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, está vertendo fora do penico com a sucessão de insultos à agricultura empresarial. Ele começou chamando os produtores de “vigaristas”. Agora, diz que não vai “deixar essa turminha destruir nossos biomas”.
Tal “turminha” fez os preços dos alimentos entre 1994 e 2005 caírem 40% em média no custo de vida, e seguiram crescendo abaixo da inflação, segundo estudo da Esalq/USP. A comida barata ajudou as classes C, D e E.
O campo transferiu renda, sob a forma de receita não realizada, de quase R$ 1 trilhão. Renda apropriada pelos setores empobrecidos do país e transformada em poder aquisitivo de bens industriais."
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