quinta-feira, 11 de junho de 2009

Cidade Biz - PIB cai menos que o previsto graças ao consumo, que compensou em parte a retração da indústria



Economia teria sentido menos a crise se a banca e o empresariado não tivessem entrado em pânico

Antonio Machado

O substantivo surpresa e o adjetivo surpreendente foram os mais lidos e ouvidos depois de revelado o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre. Foi feio, como previsto, embora muito menos do que a maioria esperava, inclusive o governo.

O que há a considerar é que a crise externa nem foi um desastre para a economia, comparada à débâcle em várias partes no mundo, na China até, com o PIB recuando de crescimento de 13% em 2007 para 9% em 2008 e 6% a 7% este ano, nem está piorando, como esta coluna e poucos outros, como a consultoria LCA, afirmavam desde janeiro.

Os erros das análises foram gerais: do presidente Lula, ao negar que a crise externa chegaria ao Brasil, chamando-a de “marolinha”, um de seus grandes clássicos, e o ministro Guido Mantega, prevendo já em dezembro crescimento do PIB de 4,5% em 2009, aos economistas do Morgan Stanley “chutando” a queda para este ano em 4,5%.

Foram os absurdos extremos. A economia encolheu 0,8% em relação ao trimestre anterior, vindo de queda de 3,6% na mesma base, ou de 1,8% sobre igual período do ano passado, depois de crescer 1,3% no quarto trimestre. A variação acumulada em quatro trimestres recuou de 5,1%, a taxa de crescimento do PIB em 2008, para 3,1%.

A metodologia do IBGE considera duas medições, ambas chegando ao mesmo resultado de PIB: pela ótica da oferta, que inclui serviços (com peso de 65%), indústria (30%) e agropecuária (5%). Ou pela ótica de quem compra o que é produzido, englobando o consumo das famílias (60% do total), o consumo do governo (20%), investimentos (18%) e o saldo entre exportações e importações (2%).

O que aturdiu a maioria dos economistas entre estas contas foi o comportamento do consumo das famílias. Ela voltou a crescer logo depois do susto precipitado, em setembro, pela quebra do Lehman Brothers, nos EUA, levando ao fechamento do crédito no mundo e à parada abrupta do carrossel da riqueza financeira fictícia que o alimentava.

O consumo recuou 1,8% no quarto trimestre de 2008 em relação ao período anterior. Mas já entre janeiro e março estava outra vez crescendo, evoluindo 0,7% sobre o trimestre anterior.

Tal dado, mais o consumo do governo, que seguiu praticamente sem variação entre o 4º trimestre de 2008 e o 1º de 2009, com aumentos trimestrais de 0,5% e 0,6%, respectivamente, evitou um coice maior do PIB, já que os investimentos despencaram (9,3% e 12,6% na mesma base de trimestre encadeado), puxando a economia para baixo.

O que derrubou o PIB

Em termos gerais, na comparação interanual do PIB trimestral, a absorção doméstica – que consolida o consumo de famílias, governo e investimentos – tirou 2 pontos de percentagem da taxa do período (redução de 1,8%), dos quais 0,7 ponto pela queda do investimento.

A absorção externa (o saldo do comércio exterior) contribuiu para que a queda não fosse maior, aportando 0,2 ponto positivo. Isso se deveu à redução das importações ter superado a das exportações.

O que foi subestimado

O fato aparentemente subestimado pelas análises mais negativas é que o crédito encurtou no mundo, não só no Brasil, ao desaparecer a moeda virtual. Mas tal efeito foi desigual.

O ajuste que veio a seguir abalou mais os países cujo crescimento vinha bombado pelo financiamento externo e exportações – economias do Leste Europeu, no primeiro caso, e, no segundo, as asiáticas, sobretudo Japão e China, várias européias, Alemanha à frente, e latinas, tipo México e Argentina – e menos pelo mercado interno, a situação do Brasil.

A indústria vacilou

Aqui, onde o consumo perfaz 60% do PIB, a economia teria sentido menos a crise se o empresariado e a banca não entrassem em pânico, e o governo fosse ligeiro com as medidas anticíclicas.

Mas o governo custou para sacar que a marolinha era tsunami, não onda da oposição. E o industrial vacilou. Uns por pânico ou porque operavam muito à frente do nível do consumo interno e exportações.

Outros para avaliar seus planos de investimentos, sobretudo para exportações. O resultado pela ótica da produção é que a indústria desarticulou o PIB: recuou 3,1% do 4º trimestre para o 1º, e 9,3% sobre igual trimestre de 2008. Agropecuária caiu, respectivamente, 0,5% e 1,6%. E o setor de serviços cresceu 0,8% e 1,7%.

Essa mistura de causas reais com expectativas ruins é mais fácil de reverter, razão de a economia começar a sair da recessão. A LCA prevê expansão de 2% já neste 2º trimestre em relação ao 1º.

Pessimismo sem força

Como os dois trimestres negativos do PIB, configurando a chamada recessão técnica, acumularam retração de 4,5% e já há indícios de recuperação da atividade econômica em variados setores, o provável é que saiam de cena as piores expectativas.

Não se descarta nem um aumento discreto do PIB no ano, coisa de 0,5%. Apoiada no Índice de Confiança da Indústria da FGV, cuja correlação com as variações interanuais do PIB é da ordem de 85%, a LCA prevê expansão de 2% sobre o primeiro trimestre e um ligeiro recuo de 0,5% sobre igual base de 2008.

Se o governo ajudar a indústria a reaver a confiança para investir e o Banco Central cooperar, é correr para o abraço."

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