Ainda que involuntariamente, criou-se o lulismo em seu entorno, com vida própria e multipartidário
Antonio Machado
Se a oposição não tem discurso, como disse o presidente Lula à TV a cabo CNN, e por isso faz “pirotecnia”, o motivo, segundo ele, da CPI da Petrobras, o PT está à procura do nexo que o mantenha como expressão maior do “lulismo” sem perda de sua identidade.
Com taxa de aprovação inédita para um presidente a um ano e meio do final de um mandato estendido de oito anos, Lula deu um nó nos partidos, tornando-se, na prática, autor da agenda de sua própria sucessão entre os que o apóiam e a de seus adversários.
Ainda que involuntariamente, criou-se o lulismo em seu entorno, uma entidade com vida própria, multipartidária e maior que o petismo.
Foi para se entender com este fenômeno que o Construindo um Novo Brasil, grupo dirigente do PT, o ex-Campo Majoritário, de Lula, José Dirceu, Jaques Wagner, Antonio Palocci, Aloizio Mercadante, mas não do gaúcho Tarso Genro, por exemplo, expoente da maior das correntes minoritárias com assento na direção do partido, reuniu-se em conclave São Paulo.
Lula, naturalmente, não estava. Ele é o sujeito passado, presente e futuro do que se queria deliberar no encontro. Não há entre os adversários internos de seu grupo político quem ouse questionar suas decisões.
A unção da ministra Dilma Rousseff como candidata à sucessão de Lula não teve o dedo de mais ninguém. E não terá o candidato à presidência do PT em eleições diretas em 22 de novembro.
Boa parte do sentido do encontro do fim de semana em São Paulo teve tal objetivo: “construção de um consenso”, idéia “aparentemente heterodoxa para as tradições do partido”, segundo o manifesto condutor da reunião.
De fato. De todas as correntes do PT com deputados federais, só não assinaram o documento a Mensagem ao Partido, grupo de Tarso Genro, e a Articulação de Esquerda.
Se nem à oposição interessa trombar com Lula na campanha pela sua sucessão, conforme o significado da tese do “pós-Lula” proposta no PSDB pelo governador Aécio Neves, o PT é que não seria ranheta com os desejos de seu líder.
Tanto é assim que o nome de consenso para suceder o sindicalista e deputado Ricardo Berzoini na direção é o do secretário-particular de Lula, Gilberto Carvalho, que ele alega não poder dispensar, ou faz charme para deixar claro quem manda.
O resto que é tudo
Que seja o ex-senador José Eduardo Dutra, presidente da BR e nome aventado para liderar o partido na campanha eleitoral de 2010, e Lula estará atendido. Ele só teme que mãos frouxas possam reeditar escândalos como o dos aloprados, como ficou conhecida a história do tal dossiê antitucano nas eleições de 2006. O resto é com ele.
Resto que parece ser tudo, para o PT e a oposição. O documento do grupo majoritário do PT diz que o “programa para o Brasil será de continuidade”.
Dificilmente o programa da oposição irá discordar, especialmente em relação à política de distribuição de renda, tipo Bolsa Família, esteio do petismo e assumido pelos presidenciáveis Aécio e o governador José Serra como desdobramento do Bolsa Escola do governo FHC. O PT terá de se esforçar para buscar a diferença.
Agenda introjetada
O tucanato procura inocular-se das maledicências eleitorais, como a que mobiliza entidades que orbitam o PT para chapar como alvo da CPI da Petrobras a intenção de desmoralizá-la para privatizá-la.
A reação foi a proposta de emenda constitucional apresentada por um deputado do PSDB vedando a venda da estatal em qualquer situação.
Tudo isso é espuma, mas força a oposição a introjetar a agenda de Lula, assim como já ocorreu com o próprio PT, há muito tempo tendo de disputar espaço com outros partidos da base do lulismo.
Metáfora do 3º tempo
Numa eleição em que há um eleitor principal tratado como acima do bem e do mal, quase inimputável, tudo fica bem mais difícil, até a linguagem. Quando é arriscado explicitar divergências, fala-se por metáforas.
É assim que até no PT se traduz o sentido do projeto do deputado Jackson Barreto (PMDB-SE) permitindo a Lula disputar um terceiro mandato. Ele repele a jogada, que fragiliza a viabilidade de Dilma justo quando o seu nome começa a decolar nas pesquisas.
O PT deu 32 assinaturas ao projeto, entre 185 adesões na Câmara, 14 mais que o mínimo necessário. Qual o ardil? Afora sabujices, a interpretação de veteranos da política é que seria recado tácito a Lula, aproveitando-se do tratamento a que Dilma se submete contra um câncer, de suposta insatisfação com a escolha.
Golpe baixo, mas revelador de que tem muitos partidos e grupos querendo negociar.
O modelo de Vargas
Do PT ao PSDB e Dem não falta a vontade de ampliar o debate para além da camisa de força do lulismo - mistura do modelo econômico tucano com viés social acentuado pelo petismo e mais a conciliação de interesses de grupos no acesso ao orçamento fiscal e aos fundos de bancos estatais.
Tudo se passa, ironiza um cardeal do PT, como se Lula tivesse ampliado a sua influência à oposição, repetindo o modelo de Getúlio Vargas, que se apoiava entre o PTB, trabalhista e urbano, e o PSD, conservador e de chefes políticos.
O amalgama só não se completaria devido ao ex-presidente Fernando Henrique. Mais provável é que seja outra intriga eleitoral."
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