segunda-feira, 20 de julho de 2009

Alguns dias entre Washington e Nova York revela que há muito mais que crise fervendo nos EUA





Há claros indícios de fortes mudanças, muitas ainda invisíveis à aferição econômica, outras só cogitadas

Antonio Machado

A observação da dinâmica da crise da economia global à distância pode ser reveladora. Alguns dias entre Washington e Nova York, por exemplo, sugere que há muito mais que uma crise econômica fervendo nos EUA.

Há claros indícios de fortes transformações, muitas ainda invisíveis à aferição econômica, várias apenas cogitadas, mas não mais como sonhos de verão, que lá ainda não veio para valer, assim como a profunda desaceleração econômica, que parece estacionar.

Nas lojas, restaurantes, ruas de Nova York o movimento é intenso, pessoas comprando muito, turistas do mundo todo às pencas, hotéis lotados. Nem o preço dos imóveis em Manhattan confirma a débâcle das hipotecas, que começou lá em Wall Street, o epicentro da crise devastadora do crédito que transbordou para o resto do mundo.

Mas a crise é real, o desemprego, elevado, as falências estão na ordem do dia. O que passa ao largo das análises é que não se trata de uma crise de decadência, sem retorno, como foi com a Argentina, cuja economia era mais pujante que a dos EUA até a década de 20.

Nos EUA, todos os sinais são de permanência de uma tendência que veio para durar, marcada pelo fim da sofreguidão consumista à base de dívidas e associada aos déficits fiscais e comerciais endêmicos há quase 40 anos, levando o país ao aperto inédito desde os anos 30 do século passado.

Os americanos estão gastando menos, poupando mais. A taxa nacional de poupança sobre a renda disponível saiu de abaixo de zero até 2007 para 6,9% em maio, mesmo patamar de 1993.

Com uma economia vitaminada pelo consumo, que lá chegava antes da crise a 70% do PIB, representando 30% da produção econômica total do mundo, maior consumidora do comércio internacional, emissora da moeda padrão de pagamentos e reserva de valor aos países e centro irradiador do mercado financeiro global, é óbvio que com os EUA na lona o sistema econômico planetário iria a nocaute. Em coma, seria um Deus nos acuda - como aconteceu, embora cada vez menos.

O que esta fotografia da crise não conta é o que vai por trás do ajuste ao fim da era de fartura agitada pelo carrossel financeiro de dívidas empilhadas, sobretudo por famílias, valorização inflada dos preços de ativos e a securitização dos recebíveis de caixa das empresas, de modo que, em muitos setores, a produção de seis meses a um ano à frente já estava descontada e gasta sem que estivesse ainda vendida.

Esse mundo acabou, e provavelmente para sempre.

O fim dos excessos

A crise reflete a abstinência ao crédito restrito, o que abateu a fúria consumista da sociedade americana, mas também o delírio dos ganhos fartos e fáceis da banca e a ilusão de riqueza generalizada entre as pessoas, empresas e governos em vários países, não só nos EUA. Aqui também, como na Europa, China, Japão, Rússia, o planeta.

O problema central, porém, deixou de ser o risco de quebradeira sistêmica da banca, contida graças às infusões maciças de liquidez pelos bancos centrais, e de depressão, aliviada por gastos fiscais dos governos. A questão que importa é o que virá depois.

Hambúrguer a US$ 1

Muitos se preocupam com a volta da inflação devido ao excesso dos programas de revitalização econômica dos países industrializados. É um risco, mas longe de estar à vista, já que a ocorrência mais comum aos EUA, Europa, Japão e China, as locomotivas da economia global, é a deflação.

Nos EUA ela é geral, até como adaptação pelas empresas ao bolso minguado do consumidor. O senso é de liquidação permanente no varejo.

A rede Burger King está vendendo hambúrguer a US$ 1. A Coca-Cola lançou latinha que é a metade da normal. As embalagens começam a priorizar volume e quantidade mais econômica.

PAC de Obama é maior

O mais impressionante nesta tendência do consumo, chamada de nova normalidade, não é o que indicam as análises macroeconômicas, que trazem números horripilantes de queda de vendas e desemprego.

Mais relevante é a adaptação da indústria a tal cenário, com custo mais baixo de produção, e do consumidor, comprando menos mas comprando, o que explica o movimento mais festivo que recessivo em Nova York.

O que se vê no governo Barack Obama, apesar do Congresso - menos peçonhento que em Brasília só porque mais vigiado -, são esforços para movimentar algo parecido a um PAC muito mais transformador. É o ARRA, sigla do American Recovery and Reinvestment Act aprovado em fevereiro, programa desdenhado pela imprensa e economistas, mas capaz de reinventar a economia americana a partir da tecnologia.

Mundo novo pós-crise

O ARRA é a maior intervenção governamental na economia americana desde o New Deal, nos anos 30, de Franklin Roosevelt.

Mobiliza US$ 787 bilhões, 5,4% do PIB, mais de 70% dos quais serão investidos até o fim de 2010, contemplando serviços de saúde, novas energias, a eficiência energética e acesso à internet em banda larga, além dos tradicionais investimentos em infraestrutura de transportes.

Não é o gasto keynesiano típico, anticíclico, destinado apenas a frear o efeito deletério da recessão sobre o emprego. O ARRA tem o foco em transformações intensivas em tecnologia de ponta, estando nessa concepção enormes desafios ao mundo pós-crise que vem aí.


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