Depois de cortar a Selic no atacado, BC abre fase de ajuste fino, de esperar para ver como ficaImpactos da taxa real das aplicações em torno de 4% real podem ser tremendos sobre os fluxos financeiros24.07.2009 - 14:20Antonio MachadoA redução de meio ponto percentual dos juros básicos da economia pelo Banco Central, trazendo a Selic para 8,75% ao ano, abre mais de uma perspectiva para a política econômica. A imediata é que os impactos de uma taxa real das aplicações em torno de 4% real, dependendo da faixa de variação da inflação anual entre 4% e 4,5%, média da meta do BC, serão tremendos sobre os fluxos financeiros.
Retornos dessa grandeza representam taxa líquida real inferior a 1,5% ao ano, abatidos o Imposto de Renda de 15% a 22,5%, que varia conforme o prazo da aplicação (de seis meses a mais de dois anos), e também a taxa de administração cobrada pelos gestores dos fundos de investimentos (1% a 2%), além da expectativa de inflação.
Aos bancos, fora as flutuações de tesouraria, já não compensam as aplicações em títulos da dívida pública. Às empresas, as receitas financeiras também vêm perdendo atrativo frente aos resultados das operações.
Não demora e cairá a ficha para os aplicadores típicos dos fundos dos bancos - normalmente aplicadores de classe média, cuja percepção se dá em ritmo menor que os profissionais. Fundos de pensão também estão com dificuldade para sustentar o retorno de 6% ao ano real - o alicerce para a solvência atuarial.
A opção franqueada é a caderneta de poupança, cujos juros de 0,5% ao mês e a isenção do IR se tornam mais atraentes para o aplicador que os resultados dos fundos da banca. A banca tentará minimizar a inevitável tendência de migração de investimentos reduzindo a taxa de administração dos fundos, mas isso só funciona por algum tempo.
Quanto tempo é o que espera a mudança da tributação da caderneta, ou dos fundos, anunciada pelo governo em maio. Se vier, já que o presidente Lula teme as repercussões políticas, será por projeto de lei submetido ao Congresso, com vigência a partir de 2010. Mais fácil é baixar o IR dos fundos, que dispensa sanção do Congresso.
Tais questões são apenas a ponta do iceberg do que representará a economia operando em regime de juros “normais”, ainda que maiores que na maioria dos países. Mas, cada vez mais, essa assimetria se deverá a distorções nas grandes economias, mergulhadas em profunda recessão e por isso dependentes até de monetização de sua dívida pública - como faz o Federal Reserve nos EUA -, que a perversões da política monetária no Brasil.
A crítica à gestão do BC em meio à crise omite ou desconhece, o que é mais provável, esta questão.
Capital tem de andarO BC derrubou a Selic desde o nível de 13,75% em janeiro passado com o fim retirar a atratividade dos juros altos para estimular a mobilidade do capital parado. Fez monetarismo puro para enfrentar a recessão trazida pela brutal crise do crédito nascida nos EUA.
Reaver a produção perdida, atenuando o desemprego que se seguiu, tomou o lugar da prioridade anterior, voltada a esfriar o ritmo da demanda para adequá-la à oferta agregada.
O cenário até meados de 2008, na avaliação do BC, implicava pressão de preços, redução do superávit da balança comercial pelo desvio de produção exportável para consumo interno, aumento das importações e déficit externo.
Motivações mudaramA partir do agravamento da crise externa, em setembro, a inflação perdeu ímpeto, e o comércio exterior, também. As motivações do BC, assim, se alteraram.
Tratava-se, primeiro, de estender uma rede de segurança para amenizar a queda da economia. Depois, de trazê-la de volta, começando pela queima do estoque acumulado na indústria, a ativação da produção e, finalmente, do investimento privado.
Os dois primeiros objetivos estão parcialmente atendidos, mas a um nível de produção bem menor que o anterior. O comércio sofreu menos, o que talvez indique que o ajuste sobre o emprego e a renda ainda em curso seja menor que o suposto à luz de crises passadas.
Futurologia em causaA taxa de desemprego em junho apurada pelo IBGE nas seis maiores regiões metropolitanas recuou de 8,8% em maio para 8,1%, quando a maioria das previsões indicava que cresceria. Está mais difícil a prática de simular a economia e é isso que deve levar o BC não a parar a sequencia de cortes da Selic, mas a esperar para ver como fica.
Como diz a economista Monica Baumgarten de Bolle, da Galanto Consultoria, “os modelos econométricos utilizados para projetar a inflação e a atividade não estão funcionando adequadamente depois da desorganização no fim de 2008”. Até a inflação se mostrou mais resiliente que o suposto. A economia, assim, segue em observação.
Velhos, novos cacosA desinflação dos juros mais incisiva e perene vai exigir ajustes que o governo não fez em tempo e talvez não possa agora fazer com o Congresso antenado com as eleições de 2010.
A tributação sobre as aplicações financeiras é um óbice à queda maior dos juros tanto quanto a sua receita é necessária ao governo, um problema fiscal.
Problema mais sério é se o Tesouro tiver dificuldade para girar a dívida. Basta que o tal “mercado” precifique o risco de recidiva da inflação nos juros longos, os que, de fato, influenciam o custo do crédito bancário. É o que mais teme o BC.
A economia vem muito bem na crise, mas continua com velhos, novos cacos de sempre.
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