segunda-feira, 10 de agosto de 2009


Antonio Machado
Economia em ordem e política na lama permitem a Lula moldar agenda do pré-sal a seu gosto

Tempo é curto, mas não desfavorece o calendário do governo nem o marketing tipo “o petróleo é nosso”

09.08.2009 - 19:41

Antonio Machado

Com a inflação cada vez mais comportada e já agora em julho, pela primeira vez desde dezembro de 2007, rigorosamente dentro da meta de 4,5% de variação anual, o desemprego na indústria sinalizando a provável chegada ao fundo do poço e a política, sempre mendicante, atolada na lama do Senado, o presidente Lula respira aliviado.

Pode dar-se ao luxo de protelar as definições sobre o novo marco regulatório para a exploração do petróleo do pré-sal, sem abalar-se com a crítica de que a comissão interministerial constituída em agosto do ano passado para formular tal política estaria dividida, incapaz de chegar a um consenso. É isso. Mas também não é.

Lula achou melhor assuntar empresários, sindicalistas e políticos antes de bater o martelo sobre o novo modelo e enviar os projetos de lei ao Congresso, onde terá de chegar negociado e costurado, caso o queira aprovado a tempo de servir à campanha de quem vier a lançar – hoje, a ministra Dilma Rousseff - à sua sucessão em 2010.

O tempo é curto, mas não desfavorece a lógica do calendário nem a narrativa de campanha em relação ao pré-sal, baseada em apelos do tipo “o petróleo é nosso” e da distribuição social dessa riqueza.

A idéia é que o discurso será eficaz, com a ajuda prestativa da UNE, MST e centrais sindicais nas ruas, bastando que a oposição queira mudar no Congresso alguns fundamentos do novo modelo.

Para os propósitos da campanha, faz sentido que a discussão mais acalorada ocorra perto da eleição, em outubro. Não haveria atraso para o início das explorações do pré-sal, que já começou.

Primeiro, a Petrobras e as petroleiras estrangeiras às quais está associada já perscrutam a todo vapor a Bacia de Santos, principal região do pré-sal, com base nos contratos de concessão anteriores a nova modelagem pelo regime de partilha.

Segundo, só agora houve a decisão de a Agência Nacional do Petróleo (ANP) ir a campo para mapear o potencial petrolífero das áreas não licitadas do pré-sal, que constituem a grande parte, contratando empresas de prospecção.

Tais dados são fundamentais para a nova estatal a ser criada para gerenciar os contratos do pré-sal, mas sem atividade operacional - que será da Petrobras como operador exclusivo ou associado aos que participarem de leilões -, estabeleça os percentuais de partilha.

Sucessor do sucessor

Embora a comunicação do governo sugira que o acesso ao petróleo no fundo do oceano será imediato e, portanto, à riqueza gerada e transformada em programas sociais e investimentos, o dinheiro vai começar a jorrar de fato a partir de meados do governo do sucessor do sucessor do presidente Lula.

A projeção é que do campo de Tupi, onde se estimam 8 a 12 bilhões de barris, praticamente o dobro das atuais reservas oficiais, saia entre 2015 e 2018 - dependendo do ritmo dos investimentos e do sucesso das tecnologias no território desconhecido das águas ultraprofundas - a produção de 2 milhões de barris/dia, também o dobro da atual.

Petrosal para Lula?

Os dados são animadores, tanto que se especula em áreas próximas a Lula se ele não se veria tentado, elegendo o sucessor, a querer a direção da nova estatal, apelidada de Petrosal. Assemelhar-se-ia à trajetória do presidente Ernesto Geisel, de quem Lula já afirmou admirar suas facetas desenvolvimentista e nacionalista, depois que fez o general João Figueiredo seu sucessor.

Geisel saiu do governo e foi dirigir a Norquisa - empresa privada criada para acomodá-lo, com apoio da Petrobras, que comandara antes de virar presidente. A Petrosal pode ser o palanque para Lula manter sua projeção pública e operar influência no bastidor, isso diretamente ou por meio de um ventríloquo, caso eleja o seu sucessor.

Mesmo que o pré-sal seja menor do que as ambições – as projeções especulativas falam num potencial de 50 bilhões de barris, e há quem projete mais que o triplo – só o que é mais certo, porque com sondagens em fase avançada, como Tupi, pagaria todos os devaneios dos políticos.

O início de exploração comercial em Tupi é prevista para 2011 de maneira escalonada à base de 100 mil barris/dia

Atenção às maldições

Com habilidade, e a cautela de se ir fundo antenado às sequelas da provável chegada de tecnologias de ruptura, sobretudo nos EUA, como dos carros elétricos, o pré-sal pode alimentar muitas bocas.
M
as só se a riqueza não vier com maldições que acometeram outros países que tiveram a mesma sorte, como a do colapso da moeda, caso da Holanda; desperdícios e inconstância política, como na Nigéria, Iraque, Venezuela; e o esgotamento do petróleo antes que ocorresse transformação estrutural, a situação da Inglaterra e Indonésia.

Trogloditas ameaçam

O tempo político está favorecido pelo tempo da economia. Embora os óbices econômicos continuem majestosos no mundo, vai surgindo o consenso de que o mergulho no desconhecido passou, começando agora a recuperação.

Provavelmente, ela será lenta e penosa nos EUA e Europa – à falta de algum plano não convencional e da indução de tecnologias novas -, e acelerada para os emergentes. As áreas de risco para a “nova economia” estariam mais em quem é cotado a liderá-la, a China, devido às contradições de seu modelo econômico, que para os demais da fila, Índia e Brasil.

A sucessão de Lula será sob esse cenário, hoje talvez só ameaçado pelos trogloditas da política que ele próprio alimentou.


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