A política fede, o gasto público explode, BC sugere parar queda da Selic, mas a economia vai bemO que será até 2011 depende da inflação e do que fizer a Fazenda com o orçamento fiscal31.07.2009 - 14:18Antonio MachadoQuem se distrair com o noticiário sobre os podres do Congresso ou com as atas do Copom vai perder o pé sobre o que espera a economia neste final de 2009 e ao longo de 2010, marcado pela probabilidade elevada de fim da recessão em todo mundo. E eleição presidencial.
Não se deve fiar nas aparências. É mais acessório que substantivo o esfarinhamento moral do Congresso. Ele é real, mas vem de longe. Não expressa um processo de expiação redentor dos pecados. É mais o resultado de outro capítulo do choque de forças pelo controle do poder, antecedendo, ou querendo influenciar, a decisão do eleitor.
A necrose moral da política foi da Câmara. Mais atrás, do governo federal. Hoje, é do Senado, encurvado pela agonia do ex-presidente da República e senador José Sarney, tornado símbolo do “familismo, patriarcalismo e nepotismo”, como diria Gilberto Freire, do que há de mais ordinário na política, embora o seu prontuário seja comum à vasta maioria dos políticos. De quem o apóia e de quem o acusa.
As atas das reuniões do Banco Central sobre a taxa Selic são como bálsamo diante do odor acre exalado pela política, já que técnicas e, portanto, supostamente racionais. Mas esta última, referente à reunião que cortou a Selic para 8,75% na semana passada, não teve intenções florais. É o que a torna, tal como a política, um dado a mais a considerar, mas com o cuidado de não se superestimar o seu efeito real sobre o comportamento futuro da economia.
Para o BC, como que enfastiado pela dieta da Selic desde o último pico de 13,75%, sua posição no início de janeiro, é hora de parar e ver como fica, ainda que reconheça que a “elevada ociosidade” da indústria, como diz a ata, “não deve ser eliminada rapidamente”, o que limita as pressões inflacionárias para frente.
Mais que isso: tem feito a inflação surpreender os analistas com variações mensais seguidas muito menores que o previsto. Caso em julho do IGP-M, a inflação da FGV fechada no meio de cada mês, que desinflou 0,43% em relação a junho, quando já recuara 0,10%.
E do IPCA-15 também. A inflação oficial, medida pelo IBGE, variou 0,22% em julho, acumulando alta de 4,47% em doze meses - pela primeira vez desde dezembro de 2007 abaixo da meta anual de 4,5%. Sua queda é constante, vindo de aumento de 0,59% em maio e 0,38% em junho.
Técnica e crendiceA quem o BC quer assustar, praticamente endossando a elevação das expectativas inflacionarias informadas a cada semana pelo mercado, mas não ratificadas pela evolução efetiva dos índices? Pelo menos não os de agora. E os de amanhã se vê depois.
Desse modo, vai virar profecia autocumprida o risco de a inflação de 2010 superar a meta de 4,5%, contrariando o próprio modelo de projeção do BC.
Muito do risco intuído pelo BC, mas não lançado na ata, atende a preocupação com a execução das contas fiscais do governo. Elas, em conjunto com a avaliação prospectiva do BC, é que formatam a cara da economia.
A turma do mercado financeiro olha mal para o fiscal e conclui o pior para a inflação e juros. Parece crendice.
Para Dilma só sorrirO que vai ser dependerá da reação do BC e do que fizer a Fazenda com o orçamento fiscal. O gasto público cresceu 17,1%, no primeiro semestre, sobre igual período de 2008, enquanto a receita, premida pela recessão e desoneração temporária de impostos, caiu 1,8%.
O ministro Guido Mantega vai pular miúdo. De um lado, reafirmou o compromisso, voltando-se ao senhor mercado, de sacar do orçamento fiscal o equivalente a 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) para pagamento dos juros da dívida pública este ano, e 3,3% em 2010.
É o tal superávit primário. De outro lado, Lula mandou não cortar investimentos do PAC e programas sociais. Ele quer mais para 2010, para Dilma Rousseff ser só sorriso. Muita missa pra pouco santo.
2010 no pano verdeOs céticos acham que o cobertor é curto, que Lula vai contrariar o conservadorismo fiscal seguido a pau e pedra até 2007 e fazer de tudo para eleger o sucessor. Estão certos. E isso projeta economia gradativamente aquecida. Mas essa não é a questão-chave.
Importa é saber se a economia agüenta e como ela começará 2011. O superávit primário de 2009, para o economista Fernando Montero, deve ser de 1,6% do PIB, mas cumprirá a meta de 2,5%, servindo-se de alquimias permitidas pelas regras fiscais. O de 2010, 3,3%, dado o ritmo do gasto já feito, exige um regime duvidoso para a têmpera de Lula.
É uma aposta. Factível, embora difícil. O BC sugeriu que não paga.
Limite dos desaforosEconomia e política são faces da mesma moeda manipulada por mãos distintas. Os resultados de uma e outra dependem da eficiência e o propósito de seus operadores. Isso é cíclico. Houve época em que a consciência dos políticos batia a do capital, mimados até demais para acreditar e investir no país. Noutros tempos, houve o oposto.
Hoje, a política está terminal, e o capital, também em transição, espera. Ao contrário de crises passadas, a economia está bem mais firme, o empresariado é melhor e a institucionalidade, superior - embora sob o assédio crescente de interesses vis. Mas podem ainda tolerar alguns desaforos. O limite é a saúde fiscal. Fique atento.
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