terça-feira, 18 de agosto de 2009
Cidade Biz - Economia, Marketing e Negócios - Lula quer exaltar seu governo como o melhor que já houve, e PSDB se prepara para desconstruir
Tudo se passa como se o gasto corrente por habitante crescesse R$ 100/mês em dois mandatos sobre 2002
Antonio Machado
Com ansiedade extravasada sempre que discute questões eleitorais, que trata como obsessão, o presidente Lula está certo de que faz um bom governo. Ele quer que a comparação de sua administração com as passadas, especialmente com a de Fernando Henrique, seja tema apresentado ao toque de trompas e clarins na campanha sucessória.
Com a economia já com o pé fora da recessão, enquanto no resto do mundo ainda roça o fundo do poço, Lula tem motivos para se jactar. Mas ele tem mais: tem a chave do cofre, que para os desafiantes da ministra Dilma Rousseff, seu provável candidato, é um cofrinho de porcelana comparado ao federal, como o dos governadores José Serra e Aécio Neves, para não falar da possível candidatura da senadora Marina Silva, caso atenda convite do PV, que nem cofre tem.
Lula serviu sem cerimônia as políticas públicas em seus sete anos de mandato. Como ele diria, nunca antes, neste país, um presidente abriu o cofre público a mancheias. E o fez sobretudo em benefício de distribuição direta de renda, o que talvez explique sua taxa de popularidade de 80% - um espanto em fim de mandato -, assim como a inflação estável, que significa poder aquisitivo preservado, item político dos mais valorizados por grande parte do eleitorado.
Ele quer comparações. Então, vamos a elas pelas contas no atacado da execução do orçamento fiscal entre 2002 e 2009, considerando-se para este ano os valores orçamentários projetados. A elaboração é do economista Fernando Montero, colaborador assíduo desta coluna.
Os gastos federais totais, em dinheiro de hoje, aumentaram desde 2002 algo como R$ 266,8 bilhões, equivalentes a quase 9% do PIB, o Produto Interno Bruto, estimado de 2009. Desse acréscimo de gasto em relação às despesas totais no último ano do governo FH, Montero estima que a menor parte, R$ 14,6 bilhões, 5,5% do total, foi para investimentos públicos.
O PAC como carro-chefe da candidatura da ministra Dilma é um cisco diante de tudo o que o governo empenhou em gastos correntes.
O adicional das transferências constitucionais a municípios e a estados totalizou R$ 53,2 bilhões, 20% do total gasto a mais desde 2002. Os R$ 198,9 bilhões remanescentes, 74,5% do total, explicam a popularidade de Lula, o sentimento de impotência da oposição e o perfil com jeito de arca de Noé da base governista no Congresso.
Percepção de alívio
O grosso do crescimento dos gastos do governo, a partir de 2002, contemplou salários do funcionalismo, aposentadorias, programas sociais e custeios diversos, coisas que agradam o eleitor. A seco, tais valores, embora impressionantes, revelam pouco sobre o seu significado, sem alguma comparação.
Montero os correlacionou em termos per capita, o que é uma boa aproximação, já que o grosso do gasto corrente, basicamente, é direcionado à renda e ao consumo.
Essa distribuição direta a pessoas passou de R$ 1967 per capita em 2002 – ou seja, a parcela a mais de renda repassada em relação ao que já era desembolsado - para R$ 2851 também per capita em 2009. Isto significa um avanço de R$ 884 per capita em sete anos, resultando em maior percepção de alívio pela sociedade.
R$ 100 a mais ao mês
Supondo-se aumento real de 8% desses repasses para 2010, o gasto federal corrente per capita crescerá para R$ 3043, elevando para R$ 1043 per capita a diferença a mais repassada em oito anos de governo Lula em relação à gestão de FH.
Ao longo do mandato duplo, assim, Lula adicionou mais R$ 100 por mês ao gasto corrente por habitante. Quantia que, segundo Montero, até torna “mesquinho” o pagamento de R$ 100 do Bolsa Família, consideradas quatro pessoas.
Plebiscito de egos?
A prodigalidade social de Lula parece inquestionável, assim como do investimento público puxado pelo PAC. É o que ele quer exibir, se a senadora Marina Silva não frustrar a sua vontade de fazer da eleição de 2010 um evento plebiscitário.
Mas economistas próximos ao PSDB preparam a contestação. O investimento público, englobando União, estados, municípios e empresas estatais, por exemplo, foi, segundo eles, na média do segundo mandato de Lula, de 3,4% do PIB.
É menos que no primeiro governo de FHC, 3,62%, e mais que no segundo, de 2,73%. Já o gasto social total passou de 11,8% do PIB em 1994 para 14,2% em 2007. Mas em relação à carga tributária foi de 39,66% em 1994 e de 38,9% em 2007. Praticamente não variou, e cresceu mais pela Previdência que pela assistência aos muito pobres.
Resta uma dúvida: para que isso, se Lula e FHC não são candidatos em 2010?
Vaidade é obstáculo
Fazer da campanha um plebiscito entre quem foi melhor governante implica riscos. O imediato é confundir o eleitor, se a oposição for eficiente na desconstrução, sobre um juízo que, hoje, favorece amplamente o governo - beneficiado pelos gastos públicos, o ciclo econômico outra vez em alta e câmbio benéfico ao poder aquisitivo.
Além disso, quanto mais Lula aparecer em 2010, menos espaço Dilma terá, podendo suscitar a idéia de que ele continuaria com a mão na massa se ela vencer. Pode funcionar, dada a sua popularidade, mas, sem criar empatia com o eleitor, há risco de reação em contrário. O ativo de Lula é o lulismo, e a vaidade, o seu maior obstáculo."
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário