sábado, 19 de setembro de 2009

Cidade Biz - Economia, Marketing e Negócios - Ousadia dos irmãos Batista, do JBS, e de Eike Batista revela nova faceta do capitalismo nacional


Salto olímpico da empresa nacional, criando grupos com atuação global, é restrito, mas não é fortuito

Antonio Machado

A compra do controle acionário da Pilgrim’s Pride, segunda maior indústria de frango dos EUA, com vendas anuais de US$ 8,5 bilhões, em paralelo à fusão com a Bertin, número 2 do mercado de carne de boi no Brasil, consolida o JBS como exemplo cintilante de algo que parece tomar corpo como nova tendência no capitalismo brasileiro e que andava adormecida: a vontade de agredir, ousar, cair no mundo, com ambição do tamanho da projeção da economia no pós-crise.

É um movimento que se assemelha à fase de criação ou tonificação de grandes grupos empresariais, entre os anos 60 e 70, sempre com indução do Estado, que fornecia financiamento, subsídios, reserva de mercado e até capital direto.

E se diferencia por se dar, hoje, em ambiente de economia aberta, com alvo de internacionalização, e não de substituição de importações, e apoio público, basicamente, de financiamento de longo prazo, às vezes envolvendo participação minoritária de capital do BNDES. Não é pouco. Mas não é tudo.

Se na fase do chamado nacional-desenvolvimentismo era o governo o princípio, meio e fim da expansão empresarial privada e, não raro, com o Estado assumindo setores inteiros com empresas estatais, os negócios mais robustos nesta nova fase surgem de fora para dentro.

É o arrojo empresarial ainda de uns poucos que procura o BNDES. Não é o governo que vai atrás, como o presidente Lula sugere, ao instar o empresariado a sair da toca em que se enfiou, inquietado pela crise externa, e voltar a investir, embora talvez não seja bem isso, o viés estatizante, o que queira transmitir. Ou ele faz como retórica eleitoral ou não está sabendo expressar-se.

“O Estado não pode ser o gerenciador, o administrador”, disse o presidente ao Valor. “O Estado tem que ter apenas papel de indutor e fiscalizador.” Tal definição é mais apropriada ao que se poderia chamar de “nova ousadia” empresarial.

E isso até porque ela surge a despeito de qualquer indução estatal - como é o caso das grandes tacadas de um empresário veterano, mas que, aos 56 anos, resolveu reinventar-se, e para tanto, se escora fundamentalmente no mercado de capitais, não em fundos públicos, embora não descarte o BNDES.

Trata-se de Eike Batista. Depois de décadas como operador e sócio de minas de ouro, ele resolveu investir pesado na infraestrutura, provavelmente porque passou a ouvir seu pai Eliezer Batista, homem de idéias maiúsculas, nacionalista, fundador da mineradora Vale.

O que Lula idealiza

Eike aparece no ranking de bilionários da revista Forbes como dono da maior fortuna no Brasil. Mas é consequência dos negócios que faz em setores dos quais o capital privado prefere afastar-se, dada a dimensão dos investimentos e o pay back a perder de vista.

Ele é o tipo de empresário que Lula idealiza ao falar sobre as oportunidades do país. Eike tem empresas de mineração e energia, constrói uma ferrovia para ligar as suas minas de ferro em Minas, tocadas com sócios estratégicos estrangeiros, a portos próprios, opera concessões de petróleo, e anunciou esta semana a construção de um estaleiro em Santa Catarina ao custo de US$ 1 bilhão.

Sem muleta do Estado

Até 2012 Eike prevê investir US$ 10,3 bilhões. Ele diz já ter em caixa US$ 9,2 bilhões, dinheiro da venda de ações de suas empresas e financiamento de prazo longo. O governo entra em seus projetos apenas como parte regulatória.

Essa é outra faceta do capitalismo brasileiro: ele acompanha a indução do governo sem necessariamente depender da generosidade do Estado para viabilizar as iniciativas.

Às vezes, como na indústria da carne, as vontades se cruzam entre o empreendedorismo superlativo de empresários como os filhos de Zé Mineiro, o goiano José Batista Sobrinho, origem do JBS, e a visão da intelligentsia do BNDES.

Ela recomeça a pensar o horizonte das cadeias industriais meio como à época do crescimento acelerado da economia, estimulada pelo presidente do banco, Luciano Coutinho - economista que se dedicou a vida toda a estudar o desenvolvimento.

Exemplos para copiar

Lula tem a ambição do Brasil grande, como a sua candidata Dilma Rousseff e o provável desafiante José Serra. Coutinho desenhou a estratégia, e é ouvido pelos três. E empreendedores como Eike e os irmãos Batista do JBS, coincidentes não só no sobrenome, operam a transformação de vontade em realidade.

O caso do JBS impressiona. Em sete anos virou o maior processador de carne bovina do mundo e, com o Pilgrim’s, encostou-se à Vale como maior empresa do país, só menor que a Petrobras. Reproduzam-se. E o país será potência.

Banqueiro empresário

O salto olímpico de empresas nacionais, criando conglomerados com atuação global, ainda é restrito, mas não é fortuito. Ele mescla a agressividade cautelosa do BNDES, sob inspiração de Coutinho, com o mercado de capitais redivivo, macroeconomia sólida e empresários decididos.

Banqueiros empreendedores também despontam no país com disposição de emular a trinca do ex-Garantia (Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira, Marcel Telles), que soube compor o “curto prazismo” do mercado com o tempo da economia real para criar colossos como a Anheuser-Bush Inbev, fruto das costelas da Antarctica e Brahma.

As oportunidades existem. Mas não dão em árvores. Tem de ir atrás."

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