terça-feira, 22 de setembro de 2009

Cidade Biz - Economia, Marketing e Negócios - Pós-Lula será difícil porque hoje está fácil, e se perdeu a chance de murchar de vez os juros

Resposta lenta do investimento ao consumo crescendo em ritmo maior que a produção põe BC em alerta

Antonio Machado

O que amofina os políticos ao tratar de economia, mas também aos que se relacionam com ela sem maiores compromissos, afora os seus próprios, é que não há nada simples, tudo é complexo. Toque-se um de seus pedaços e todo o resto se põe em movimento. É mais isso, e não o tal “almoço grátis” que a economia jamais serviu a que se referia o monetarista-mor Milton Friedman, prêmio Nobel de 1976.

Os problemas também custam a aparecer, como se viu com o estouro das bolhas de crédito e de ativos financeiros nos EUA e em várias partes do mundo, que começaram a ser gestadas lá atrás, nos anos 70, quando o dólar no governo Nixon virou cachorro sem dono na mão dos políticos americanos, ao perder a paridade ao ouro. E sem que algum instrumento multilateral o substituísse como âncora cambial.

A grande crise, que irrompe nos EUA em meados do segundo semestre de 2007, só foi percebida por medalhões do main street do circuito acadêmico depois da quebra do Lehman Brothers, em setembro. E aqui mesmo ninguém a viu - do governo aos aplicadores na Bovespa, para os quais o índice chegaria a 90 mil pontos no fim de 2008, quando já estava em 73.516 em 20 de maio, um recorde ainda não superado.

Desenharam-se no passado e continuam sendo rabiscados no presente problemas para a administração da economia. Não em 2010, nem com a gravidade da crise global que parece esmaecer em toda parte. Longe disso. Mas, em 2011, será difícil ao governante deixar de sentir o cheiro de fritura da Selic no Banco Central, mantidos o regime de metas de inflação, câmbio flutuante e o superávit primário fininho como hoje em dia, e do mesmo jeito está projetado para 2010.

Vai ser difícil porque hoje está fácil, mas o governo desperdiçou a grande oportunidade trazida pela recessão, segundo o economista Fernando Montero, que disseca as contas nacionais com lupa, para corrigir a distorção dos juros elevados como patamar que equilibra os fluxos da economia sem inflação e déficits externos vultosos.

Ao contrário, diz ele, a agravou ao deixar correr solto o gasto fiscal. É isso o que explica a preocupação do presidente Lula e de Henrique Meirelles, do Banco Central, com o atraso do empresariado em retomar os investimentos na produção.

A economia política está ai, no descompasso entre a aceleração da demanda, que é forte pela expansão do gasto público irredutível quando se fizer dispensável, e a oferta, função da taxa de investimentos em relação ao PIB.

Déficit é de atenção

A discussão da economia para valer normalmente provoca outro tipo de déficit, o de atenção dos políticos. E põe para correr também a turma adepta do pensamento mágico, como os que sonham com o regime cambial chinês, que bota o renminbi sempre atrás do dólar, mas não atenta para os custos sociais do modelo.

A via chinesa do crescimento econômico implica doses maciças de poupança pública. Fácil numa ditadura. Inviável em democracias.

A questão é que a propensão maior ao consumo com gasto fiscal em expansão e engessado e crédito público liberado, como diz Montero, eleva os multiplicadores e aceleradores do sistema econômico.

Aceleração endógena

Esse quadro, em sua visão, cria uma aceleração endógena, ou seja, intrínseca ao organismo, que diferencia a economia brasileira das demais.

O crescimento, diz, terá um componente retro-alimentador, com a volta do investimento e do emprego à medida que a capacidade ociosa for sendo ocupada.

A resposta defasada do investimento ao aumento do consumo público e privado em situação de produção sem ociosidade dificultará sobremaneira a política monetária, analisa.

Pé esquerdo após Lula

É ai que entra o apelo, sobretudo de Meirelles, ao empresariado. A urgência do investimento, na análise de Montero, “talvez derive não só da preocupação com o nível futuro da oferta, mas em ocupar o espaço da recuperação antes que o governo o ocupe com o consumo permanente”. A margem em favor do investimento já está estreita.

A taxa de investimento no ano será da ordem de 16,5% do PIB, mas chegou a 19% em 2007. Para voltar a 17,5%, ela precisaria crescer 6,1% acima do crescimento do PIB, que se espera chegue a 5% no ano que vem. Se o investimento crescer 11,4%, representaria 1,9 ponto percentual da expansão de 5% do PIB, ou 2,9 pontos com estoques.

“Quanto sobraria para o consumo, sem pressões adicionais sobre a economia?”, indaga Montero. Nós perguntamos: quem topa vir depois de Lula com o pé esquerdo da inflação ou da Selic em progressão? Tal nó se desata com menos gasto fiscal ou mais imposto. Você elege.

2010 será só alegria

A situação favorece o ambiente eleitoral. Ele será com percepção de alívio pelo eleitor. Não haverá problema de crescimento nem de inflação, muito menos de arrecadação fiscal e de emprego. “A real questão é a sequência da economia em 2011, que será de aceleração da demanda e não de desaceleração ou estabilidade”, diz Montero.

Qual então o grilo? “Não se trata se a economia fará o ajuste”, diz. “Mas de como o fará: com mais juros e inflação, com economia aquecida, com a piora exponencial do déficit e/ou com a recaída do investimento.”

De algum modo, era o que se avistava em 2008 antes que a crise chegasse. Falta, diz Montero, uma nova âncora fiscal. Na pré-candidatura de José Serra o tema já é discutido"

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