sábado, 3 de outubro de 2009
Cidade Biz Crescimento requer mais empresário disposto a assumir risco e a reforma do investimento
Antonio Machado
Entre tantas reformas inadiáveis da economia e nunca enfrentadas, algumas do arco da velha, como da Federação e do sistema político, outras empurradas à base do “agora vai”, e não vão a nenhum lugar, como da Previdência e a tributária, uma novíssima começa a zanzar entre os formuladores das políticas de desenvolvimento no país.
Diferentemente das reformas essenciais sempre preteridas na hora da decisão por falta de consenso político para aprová-las, esta é inusitada. Não depende de decisões do governo nem do Congresso.
O país de tantos déficits e a oportunidade quase única de superá-los, em meio ao mundo ainda grogue pela crise, estaria diante de outra insuficiência: a de empreendedores com vontade de assumir os riscos inerentes aos projetos que se vão tornando necessários com o crescimento econômico e levantar capitais, mesmo com o apoio de bancos públicos e participação acionária complementar do Estado.
Nem parece ser bem o caso de escassez de vontade ou temor diante do endividamento que acompanha a expansão empresarial. Empresário bem capitalizado e competente existe. Mas eles são poucos frente à miríade de projetos de infraestrutura, de expansão industrial e de inovação tecnológica requeridos pelo crescimento da economia.
Pouco antes da concordata da GM nos EUA, por exemplo, apareceu a possibilidade de venda da filial brasileira. O BNDES fez algumas sondagens. Todos acharam o negócio grande demais. Numa iniciativa paralela, o banco Goldman Sachs também foi atrás e desistiu.
Os investimentos puxadores do novo ciclo de expansão que começava a despontar antes do agravamento da crise global e que vão voltar, superadas a recessão e a sucessão presidencial, eram quase sempre dos mesmos grandes grupos nacionais. O congestionamento de capital e expertise é evidente. E não se veem sinais de renovação.
Mais do mesmo traz o incômodo da concentração do capital, coisa indigesta aos políticos nestes tempos de democracia de massa – e, apesar disso, ela é crescente, sobretudo nas concessões públicas, mesmo com abertura para empresas estrangeiras, por falta de opção.
Não fossem tais condicionantes políticos, há outro quase físico: boa parte das empresas nacionais está no limite de comprometimento do capital próprio com os investimentos em curso.
E nem se fez 10% a 15% das obras necessárias apenas em setores básicos da economia, quanto mais nas atividades do meio das cadeias de produção para a ponta do consumidor final. O que será?
Progresso emparedado
A desnacionalização acentuada da indústria nacional? O aumento da estatização, com todas as sequelas de ineficiência - e as exceções como a Petrobras confirmando a regra? Ou o morde-assopra da Selic pelo Banco Central, para enquadrar o consumo à oferta e evitar que a inflação e os déficits externos façam o ajuste na marra?
O problema para romper a camisa de força que veste o descompasso entre a oferta e demanda é menos de taxa de juros, já que para tal fim há dinheiro longo e com custo baixo no BNDES e nos guichês do financiamento externo da banca privada. A questão é mais complexa.
Capital envelhecido
O que parece premente é a atualização da estrutura de capital da empresa nacional, assim como de maior ativismo local de bancos de investimento operando não apenas na gestão de fortunas e trocando papéis no mercado - áreas rentáveis, mas menos estratégicas.
O perfil de banco de investimento necessário é o que viabiliza a modernização e reforço do capital empresarial, além de influenciar governanças profissionais comprometidas com o empreendedorismo, os resultados do negócio e a atenção aos minoritários. E hoje também a sustentabilidade, o novo valor corporativo tornado prioritário.
O mercado convocado
No estágio seguinte da evolução do capitalismo nacional a empresa fechada ou com pequena participação de capitais de mercado já terá dificuldades para acompanhar o crescimento. E menos deverá esperar de órgãos de fomento, tipo BNDES, hoje praticamente único provedor de capitais para investimento.
O mercado será mais acionado, o que implica a diluição de capital, menos “donos” e gestão transparente.
O funding do BNDES provavelmente ainda terá de ser reforçado para dar conta de projetos que menos seduzem o investidor financeiro. A tendência, porém, é que o mercado seja menos complementar ao BNDES e mais ativo nos processos de expansão.
Isso exige que o mercado seja grande e impulsionado por uma rede privada de capitais que interaja com o BNDES no apoio ao “espírito animal” do empresário.
Ilusão do estatismo
A discussão pelo progresso, sobretudo entre os políticos, ficará mais clara quando surgir o juízo de que o Estado pode muito. Mas não prescinde de capitais privados para bancar o crescimento, se o seu custeio e políticas sociais já consumirem o grosso do que pode ou quer contribuir a sociedade.
Pegue-se o projeto do pré-sal. Ele reserva o monopólio da exploração à Petrobras, só que custeada com dinheiro privado, até o aumento de capital proposto pelo governo.
O investimento bancado com recursos fiscais virou troco. Os bancos públicos estão no limite. Então, senhores e senhoras, comecem a falar sério."
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