sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ao politizar o apagão governo e oposição põem o dedo na tomada. Por soberba. E omissão

Maldição do debate é que tudo está politizado, e Lula reage à crítica com sensibilidade de bumbum de bebê

Antonio Machado

O apagão no fornecimento de energia elétrica de Itaipu, atingindo 18 estados com cerca de quatro horas de escuridão geral e deixando até o dia seguinte sequelas no abastecimento de água em várias cidades e caos no trânsito pela pane dos sinais, não teve a ver com falta de investimentos, mas tem tudo com a falibilidade dos sistemas.

Ele serve para mostrar que na área dos serviços públicos não há a situação brilhante propagada pelo governo, embora muito menos haja o sucateamento sugerido pela oposição. A politização do problema é do jogo, mas nesse curto-circuito o governo e oposição estão com o dedo na tomada. O governo Lula, pela soberba. E FHC, por omissão.

O incidente de agora não tem parentesco com o de 2001, que marcou o início do racionamento de energia, trouxe prejuízos à economia e fulminou a chance de FHC eleger seu sucessor. O apagão de 2001 foi sequela dos reservatórios baixos nas hidrelétricas, da escassez de investimentos em geração e transmissão e da falta de contingência.

O blecaute de 2009, embora com a causa técnica ainda incerta, não decorreu de nada disso. Se não foi sabotagem, hipótese já afastada pelo governo, só pode ter sido falha de gerenciamento dos sistemas de transmissão e de acionamento das usinas termelétricas - a rede antiapagão montada como seguro contra blecautes depois de 2001.

Ainda que tenha havido uma grave tempestade na rota da energia de Itaipu, nenhuma autoridade do setor de energia deu ênfase, depois do blecaute, a tal possibilidade, até porque não teria amparo nos relatórios da meteorologia.

Quem culpou a natureza depois foi o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, numa entrevista tumultuada em que mais suscitou dúvidas que esclareceu. Mas que tivesse caído um raio.

Contra tal risco existem as linhas redundantes, já que a energia não trafega por um único linhão, mas por cinco, segundo explicação do presidente da Eletrobrás, José Antonio Muniz Lopes.

Três são de corrente alternada – para permitir a distribuição capilar ao longo da rota – e duas de corrente contínua, sem interrupção até chegar ao hub distribuidor, nas cercanias de São Paulo. Esse sistema é administrado por Furnas, uma das estatais da holding Eletrobrás.

É na administração da tecnologia dos sistemas de distribuição de energia que está o foco do problema, como também esteve no enorme blecaute de 1965 que atingiu a costa Leste dos EUA, tirando Nova York da tomada.

Também tem de ser discutido o protocolo que rege a operação das termelétricas. O apagão revela que elas são acionadas só em situação de escassez da energia armazenada nos reservatórios das hidrelétricas, não em caso de pane na distribuição.

Excesso de confiança

A oposição fez o que faz qualquer oposição: cobrou explicações. E tirou uma casquinha da situação. O líder do PSDB na Câmara, José Aníbal, lembrou que a ministra Dilma Rousseff, dias atrás, reagiu com segurança impávida ao ser indagada se havia risco de apagão no país como o de 2001: “Apagão no país? Nem morta”.
Ou ela deposita muita fé no que faz, já que enquanto ministra das Minas e Energia foi que se desenhou o atual modelo do setor energético, ou tem uma confiança cega na operação do sistema de energia no país.

Sensibilidade de bebê

A Lei de Murphy aconselha a que se desconfie de tudo. Cisne negro é raro, mas existe, a tese do livro Black Swan, título em inglês, que consagrou o financista Nassim Taleb ao discorrer sobre eventos altamente improváveis, como a grande crise do crédito no mundo.
A maldição do debate é que tudo está politizado, e o governo Lula reage com sensibilidade de bumbum de bebê a todo cutucão. Aceita apenas afagos. Pegue-se o ministro da Justiça, Tarso Genro, que de energia só deve saber como se troca uma lâmpada queimada.

Tarso se apressou em dizer que o blecaute “foi um pequeno incidente perto de todos os benefícios que já trouxemos para o país”. Pequeno não foi, mas o governo tem dificuldade em se mostrar falível, normal.

E um PAC da humildade?

A reação do presidente Lula também foi de quem levou um choque. “O que fizemos nestes últimos sete anos”, afirmou, “equivale a 30% de tudo o que foi feito nos últimos 123 anos” na área de energia.

Exagero. Thomaz Edison alumiou a lâmpada em 1879. Qualquer um hoje investe em energia elétrica mais que há um século. No Brasil, se e quando houver outra Itaipu e Tucuruí, haverá investimento no setor energético maior que no período Médici e Geisel.

De fato, hoje a segurança energética é melhor que em 2001. Mas graças à rede das termelétricas, pois grandes hidrelétricas só há as em construção.

E se volta ao problema do blecaute: não foi sucateamento, como diz a oposição, mas também não foi pelo acaso. Foi falta de humildade.

Déficit de governança
Muito mais “defeito” das operações da infraestrutura pública é o que se pode esperar à medida que a economia volte a se expandir e o faça com força, desacompanhada de investimentos não só em obras físicas, mas em formação e treinamento de pessoal técnico – outro déficit do crescimento desestruturado e do Estado mal equipado.
Não se trata de fulminar o governo, como faz a oposição, nem de assegurar a superioridade da governança pública. É possível dizer que ela está em reconstrução, mas começou nos últimos anos e ainda se faz mais pelo meio do sistema gerencial, servindo interesses de grupos políticos, que na ponta executiva dos projetos e da gestão.

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