Por Redação do Economia Interativa
Em 12 meses, até outubro, o preço do açúcar subiu 63,96% e o do álcool, 10,64%, contra o acumulado do Índice do Custo de Vida, de 4%. A vantagem do preço do álcool (máximo de 70%) sobre o da gasolina pode estar com os dias contados.
O consumo de combustíveis continuou crescendo no Brasil apesar da crise financeira internacional. E os preços do álcool combustível (hidratado) empinaram nas bombas, como de costume, quando a safra da agroindústria de cana-de-açúcar do Centro-Sul do País vai se encerrando.
Baseada no Índice de Preços ao Consumidor (IPC), a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) constatou que o valor médio do álcool combustível representou 62,4% do preço médio da gasolina na capital paulista nos últimos 30 dias encerrados em 23 de outubro: a maior marca de 2009, uma acelerada em relação aos 57,6% apurados em setembro, nível registrado em maio de 2007, quando a economia estava florida.
Antonio Evaldo Comune, responsável por esses acompanhamentos da Fipe, considera que a vantagem do preço do álcool (máximo de 70%) sobre o da gasolinapode estar com os dias contados. Mas não se esqueçam também os leitores que a gasolina que o País consome contém 25% de álcool anidro, produzido pelas mesmas usinas que fabricam açúcar e etanol.
As empresas sucroalcooleiras apontam o consumo e as chuvas atípicas na safra - além dos recorrentes custos de produção sempre deprimidos - para a variação. A Fipe registra que no acumulado do ano, até o final de setembro, o álcool ainda estava em queda, de 2,27% e a gasolina, 1,20%.
Periódica lengalenga
O Governo Federal ameaça diminuir o teor de álcool na gasolina para pressionar os usineiros a baixar os preços na boca das usinas. E os usineiros alegam que o mercado (leia-se consumidores) pode ser o fiel da balança. Como 90% dos novos automóveis postos no mercado podem rodar com dois combustíveis (37% da frota nacional), o consumidor pode optar pela gasolina quando o preço do álcool não compensar o maior gasto por quilômetro rodado.
Acontece que além de toda a periódica lengalenga há meia dúzia de duas ou três coisinhas que embaralham as contas dos negócios do chamado combustível ecológico. Todas elas amarradas nas pernas dos mercados com bolas de ferro. Uma delas é que o álcool está faltando também no mercado mundial onde os dois enormes produtores são exatamente o Brasil e os Estados Unidos - de longe os maiores consumidores do produto.
A outra é que a safra de cana-de-açúcar da Índia tinha ido para o beleléu. E daí? Daí que o Brasil, a Índia e a China são os maiores produtores de açúcar do planeta e também "gigantescos formigueiros" que regulam os mercados de glutões e da vasta produção mundial de alimentos e bebidas.
Bem ou mal, as usinas brasileiras - as paulistas por excelência - combinam o caldo-de-cana com o melhor pastel: são flexíveis para fazer álcool ou o açúcar, conforme o freguês e a conveniência do negócio.
Os preços do açúcar e do álcool combustível superaram o crescimento da inflação em 12 meses até outubro, segundo registros do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Nesse intervalo, enquanto o Índice do Custo de Vida (ICV) acumulou taxa de 4%, o preço do açúcar apresentou forte variação de 63,96% e o do álcool, 10,64%.
O Dieese confere que a alta no preço do açúcar no mercado interno deve-se em grande parte ao crescimento das exportações brasileiras, fruto da quebra de produção da cana-de-açúcar na Índia. Desde 2001 o maior volume exportado pelo Brasil aponta 2008 e 2009, com um acréscimo anual de 11,8%.
Líder da produção mundial
Em 2005, o mundo consumiu 200 milhões de toneladas de açúcar e hoje já engole cerca de 600 milhões de toneladas. O Brasil, líder da produção mundial, tem potencial e fome para suprir um bom bocado da demanda global. Até 2010, o País deverá ter 60% de participação no mercado planetário, um cavalar avanço de 2% na fatia do novo outro branco.
A crise mundial de crédito já mostra efeitos perversos na produção brasileira de cana-de-açúcar e vai inflar ainda mais os preços. Os fundos de investimento que por aqui andaram, a torto e a direito, comprando usinas e anunciando portentosos projetos sucroalcooleiros, marcaram as cartas dos aumentos dos preços do açúcar e das commodities em 2008. E se voltarem com tudo para recuperar os ganhos planejados e ainda não realizados, vão estourar a boca do balão internacional dos preços do açúcar e do álcool.
Em valores reais, os preços estão apenas 9% acima dos praticados na última década, mas pressionados pelo aumento do consumo mundial. No cassino, a torcida é que os preços subam, em dólares, para que as fichas na mão valham mais.
Registre-se aqui que açúcar e álcool combustível são produtos da agricultura, dependentes do humor de São Pedro. O primeiro, consolidado em commodity, desde antes de Portugal pagar suas dívidas européias com o fruto das moendas de cana-de-açúcar movidas a escravos na sua colônia.
O álcool combustível está longe disso. Primeiro porque o seu consumo e a sua produção mundiais não estão disseminados como, por exemplo, os do petróleo, dos minérios, da soja, do milho, do algodão e do açúcar. Segundo porque nem mesmo tem padrões de referência de compra e venda, a não ser para as indústrias alimentícias e farmacêuticas, que não o consomem nas quantidades dispersivas da indústria automobilística.
Assim, se o Brasil quiser continuar se gabando da utilização do álcool (e do biodiesel, sim senhor) para mover seus veículos, terá que providenciar maneira de formar estoques nas safras para regular preços nos anos de mau humor de São Pedro. Quem vai pagar a operação é outra história. No caso do açúcar, por exemplo, os usineiros bancam a conta. Alguém já leu na Imprensa algum pedido de financiamento de estoques de açúcar nas últimas décadas?
Sobre o álcool - que nos interessa de perto - há mais uma coisinha de trato doméstico, e aí sim, caso de mão forte do Estado: a sonegação de impostos que distorce o mercado e prejudica os cidadãos. Coisinha de sabedoria ampla e irrestrita, a bocas pequenas e grandes, que não livra postos, distribuidores e fornecedores de combustíveis. De responsabilidade das receitas estaduais e federal: muito dinheiro. Na linguagem policial, se apertar mesmo, espana.
http://www.economiainterativa.com.br
(Envolverde/Economia Interativa)
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