Governo Lula, que a princípio tratava meio ambiente com desdém, agora se vê na vanguarda da discussão
Antonio Machado
Com mais de 15 mil participantes, delegados de 192 países e pouco mais de uma centena de chefes de Estado e de governo esperados nos dez dias do evento, dos presidentes Barack Obama a Lula, a cúpula global sobre o clima organizada pelas Nações Unidas em Copenhague, Dinamarca, já é um sucesso de público. Tudo o mais é incerto.
O ceticismo quando aos resultados para impedir que a temperatura da Terra cresça 2% - meta do consenso científico para assegurar a sobrevivência da vida do modo como a concebemos - e as diferenças para atingir tal objetivo são enormes. Mas hoje se discutem metas, não mais os males de emissões de carbono (CO2), os gases de efeito estufa considerados responsáveis pelo aquecimento do planeta.
Nenhum país desta vez se omitiu, nem os EUA. No acordo inaugural, conhecido por Protocolo de Kyoto, em referência à cidade do Japão em que ocorreu a cúpula, firmado em 1997, o então presidente Bill Clinton subscreveu o tratado, mas o Congresso não o referendou, e os EUA ficaram de fora desse primeiro esforço global. Ele previa para o período 2008-2012 emissões de gases estufa 5,2% menores em relação ao nível de 1990, com metas por país e blocos de países.
Para a União Européia, atribuiu-se valor 8% inferior às emissões em 1990. Aos EUA, 7%. Aos países em desenvolvimento que começavam a se tornar economias emergentes, como China, Índia e Brasil, não se exigiu corte algum, tendo sido esta a argumentação do Congresso dos EUA para impor a derrota a Clinton, fragilizando Kyoto.
O Protocolo de Copenhague, se houver consenso para tanto, deverá substituir o tratado de Kyoto com objetivos climáticos muito mais agressivos, até 2020 e 2050. Desconfianças sobre a real emergência climática e divergências sobre o auxílio em dinheiro e a cessão de tecnologia para os países mais pobres persistem, mas a pressão da opinião pública internacional também aumentou.
Duas semanas atrás, o ministro do Comércio da Índia, o terceiro maior emissor de carbono no mundo, questionou o alarme. No mesmo momento, na cúpula asiática em Cingapura, os presidentes da China, Hu Jintao, e dos EUA, respectivamente, primeiro e segundo maiores emissores globais de gases estufa, anunciaram não esperar nada mais que princípios de Copenhague. As metas quantitativas ficariam para depois. Os três governos recuaram pela pressão internacional.
Esperando EUA e China
Obama queria ganhar tempo. O governo da Índia também. Os dois não têm a simpatia do Congresso para a questão climática. Nos EUA, há dois projetos: um brando, aprovado na Câmara, outro, um pouco mais incisivo, em discussão no Senado.
Obama fecha com o último, mas é pouco: prevê cortes de emissões de 17% em 2020 sobre 2005, o que é menos do que teria sido se os EUA tivessem ratificado Kyoto.
Mal ou bem a União Européia fez a sua parte combinada em Kyoto, e agora promete mais 20% até 2020 ou mais, se os EUA e os emergentes consolidarem propostas factíveis e corajosas. A diferença é essa.
Do desdém à vanguarda
O governo Lula, que a princípio tratava meio ambiente com desdém, agora se vê na vanguarda da discussão. Lula viaja com um programa de cortes de 15% de emissões de CO2 até 2020 sobre a base de 2005.
Com matriz energética considerada “verde” pelo painel climático das Nações Unidas, pois a energia elétrica é maciçamente de origem hidráulica e o etanol assumiu a tendência de substituir a queima de petróleo em veículos leves, ao Brasil há condições para cumprir o objetivo ideal.
O documento-base das Nações Unidas propõe corte global de 25% a 40% em 2020, e 80% em 2050, ambos sobre 2005.
Sem carvão e petróleo
O esforço brasileiro, a rigor, virá do processo, não de cortes na carne, como aos EUA, China, Índia, Rússia, cuja energia depende da queima de carvão, a maior fonte poluente, e petróleo, a segunda.
Ao Brasil, basta reduzir o desmatamento na Amazônia e Cerrado, e lançar um ou outro programa economizador de energia. Aos demais os caminhos são mais árduos: a solução implica revolucionar os meios de produção.
Os EUA investem nessa onda, mas falta muito para as tecnologias de ruptura. À China, devoradora intensiva de energia, a saída está mais distante, e a Índia nem começou a procurá-la.
Não há como se levar a sério a questão climática sem substituir o carvão e o petróleo na matriz energética global. Tudo é perfumaria perto do que ambos geram de emissões de CO2. Copenhague, sem outro modelo energético no mundo, parece insuficiente. E, se for, então, só resta rezar para que os cientistas tenham exagerado o horror.
Catástrofe enigmática
Fato é que há mais de dois anos se discute a agenda de Copenhague e há quase vinte, desde a cúpula pioneira do Rio, o aquecimento da Terra é prioridades das Nações Unidas.
Se o que se vislumbra para o espaço de uma geração é uma catástrofe de proporções bíblicas, é bizarro que antes do grande happening na Dinamarca os governos das nações líderes não se tenham posto de acordo sobre o que fazer. E também alertado a opinião pública sobre a gravidade do problema e levado à cúpula uma posição fechada, não uma algaravia de metas.
É grave que se anunciem cortes de CO2 sem uma base comum de dados, e nenhum controle independente. A discussão tem que ser aprofundada.
Antonio Machado
Com mais de 15 mil participantes, delegados de 192 países e pouco mais de uma centena de chefes de Estado e de governo esperados nos dez dias do evento, dos presidentes Barack Obama a Lula, a cúpula global sobre o clima organizada pelas Nações Unidas em Copenhague, Dinamarca, já é um sucesso de público. Tudo o mais é incerto.
O ceticismo quando aos resultados para impedir que a temperatura da Terra cresça 2% - meta do consenso científico para assegurar a sobrevivência da vida do modo como a concebemos - e as diferenças para atingir tal objetivo são enormes. Mas hoje se discutem metas, não mais os males de emissões de carbono (CO2), os gases de efeito estufa considerados responsáveis pelo aquecimento do planeta.
Nenhum país desta vez se omitiu, nem os EUA. No acordo inaugural, conhecido por Protocolo de Kyoto, em referência à cidade do Japão em que ocorreu a cúpula, firmado em 1997, o então presidente Bill Clinton subscreveu o tratado, mas o Congresso não o referendou, e os EUA ficaram de fora desse primeiro esforço global. Ele previa para o período 2008-2012 emissões de gases estufa 5,2% menores em relação ao nível de 1990, com metas por país e blocos de países.
Para a União Européia, atribuiu-se valor 8% inferior às emissões em 1990. Aos EUA, 7%. Aos países em desenvolvimento que começavam a se tornar economias emergentes, como China, Índia e Brasil, não se exigiu corte algum, tendo sido esta a argumentação do Congresso dos EUA para impor a derrota a Clinton, fragilizando Kyoto.
O Protocolo de Copenhague, se houver consenso para tanto, deverá substituir o tratado de Kyoto com objetivos climáticos muito mais agressivos, até 2020 e 2050. Desconfianças sobre a real emergência climática e divergências sobre o auxílio em dinheiro e a cessão de tecnologia para os países mais pobres persistem, mas a pressão da opinião pública internacional também aumentou.
Duas semanas atrás, o ministro do Comércio da Índia, o terceiro maior emissor de carbono no mundo, questionou o alarme. No mesmo momento, na cúpula asiática em Cingapura, os presidentes da China, Hu Jintao, e dos EUA, respectivamente, primeiro e segundo maiores emissores globais de gases estufa, anunciaram não esperar nada mais que princípios de Copenhague. As metas quantitativas ficariam para depois. Os três governos recuaram pela pressão internacional.
Esperando EUA e China
Obama queria ganhar tempo. O governo da Índia também. Os dois não têm a simpatia do Congresso para a questão climática. Nos EUA, há dois projetos: um brando, aprovado na Câmara, outro, um pouco mais incisivo, em discussão no Senado.
Obama fecha com o último, mas é pouco: prevê cortes de emissões de 17% em 2020 sobre 2005, o que é menos do que teria sido se os EUA tivessem ratificado Kyoto.
Mal ou bem a União Européia fez a sua parte combinada em Kyoto, e agora promete mais 20% até 2020 ou mais, se os EUA e os emergentes consolidarem propostas factíveis e corajosas. A diferença é essa.
Do desdém à vanguarda
O governo Lula, que a princípio tratava meio ambiente com desdém, agora se vê na vanguarda da discussão. Lula viaja com um programa de cortes de 15% de emissões de CO2 até 2020 sobre a base de 2005.
Com matriz energética considerada “verde” pelo painel climático das Nações Unidas, pois a energia elétrica é maciçamente de origem hidráulica e o etanol assumiu a tendência de substituir a queima de petróleo em veículos leves, ao Brasil há condições para cumprir o objetivo ideal.
O documento-base das Nações Unidas propõe corte global de 25% a 40% em 2020, e 80% em 2050, ambos sobre 2005.
Sem carvão e petróleo
O esforço brasileiro, a rigor, virá do processo, não de cortes na carne, como aos EUA, China, Índia, Rússia, cuja energia depende da queima de carvão, a maior fonte poluente, e petróleo, a segunda.
Ao Brasil, basta reduzir o desmatamento na Amazônia e Cerrado, e lançar um ou outro programa economizador de energia. Aos demais os caminhos são mais árduos: a solução implica revolucionar os meios de produção.
Os EUA investem nessa onda, mas falta muito para as tecnologias de ruptura. À China, devoradora intensiva de energia, a saída está mais distante, e a Índia nem começou a procurá-la.
Não há como se levar a sério a questão climática sem substituir o carvão e o petróleo na matriz energética global. Tudo é perfumaria perto do que ambos geram de emissões de CO2. Copenhague, sem outro modelo energético no mundo, parece insuficiente. E, se for, então, só resta rezar para que os cientistas tenham exagerado o horror.
Catástrofe enigmática
Fato é que há mais de dois anos se discute a agenda de Copenhague e há quase vinte, desde a cúpula pioneira do Rio, o aquecimento da Terra é prioridades das Nações Unidas.
Se o que se vislumbra para o espaço de uma geração é uma catástrofe de proporções bíblicas, é bizarro que antes do grande happening na Dinamarca os governos das nações líderes não se tenham posto de acordo sobre o que fazer. E também alertado a opinião pública sobre a gravidade do problema e levado à cúpula uma posição fechada, não uma algaravia de metas.
É grave que se anunciem cortes de CO2 sem uma base comum de dados, e nenhum controle independente. A discussão tem que ser aprofundada.
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