Melhor do país é o mesmo fio condutor que perpassa a economia em quase duas décadas
Antonio Machado
O PT combativo, barulhento, mal humorado, que lutava "contra tudo isso que está aí", desde 2002, quando Lula se elegeu - e o partido perdeu o medo de ser feliz -, a cada eleição tenta vestir o antigo figurino para mobilizar a militância contra os dragões da direita, mas está cada vez mais difícil.
A militância não perdeu a forma no poder. O PT é que está orgulhoso de "tudo isso que está ai".
Sua bancada na Câmara, por exemplo, produz um clipping diário das principais notícias sobre o governo e os deputados da legenda. Nos últimos tempos, fora uma ou outra nota mais, digamos, démodé para o Brasil de Lula, o otimismo revela a satisfação do petismo.
Das treze notas do boletim de terça-feira, sete reproduziam notas favoráveis ao governo, a maioria delas devido aos frutos do mesmo modelo econômico que Lula herdou de seu antecessor, aprofundou e reorientou com o viés social, depois de constatado o fim do longo ciclo de ajuste monetário e fiscal em resposta à crise da dívida externa da década de 1980. Qualquer que seja o dia o tom é igual.
A conciliação entre abertura da economia e saneamento fiscal (com origem nos governos Sarney e Collor e consistência depois do Plano Real nas gestões Itamar e Fernando Henrique) com a ênfase social a partir de 2003 está na base do sucesso dos dois mandatos de Lula.
O crescimento econômico incorporou a parcela majoritária do país, por meio dos aumentos reais do salário míninimo e aposentadorias e o Bolsa Família, e criou a quase unanimidade que o envolve com a retomada dos investimentos privados e públicos, mais os primeiros que os últimos, em decorrência da maior previsibilidade econômica.
Tudo isso é uma obra em aberto, com muitos autores, e um processo que não começa em 2003, mas tem em Lula um grande maestro no novo ciclo ascendente da economia, e isso por mérito exclusivamente seu ao ignorar as recomendações de boa parte das lideranças petistas e mesmo de empresários cansados de tantos juros e impostos.
Não fosse sua prudência, especialmente ao apoiar a estratégia de acumulação de reservas pelo Banco Central e não querer usufruir os dividendos políticos do crédito farto e barato como havia nos EUA, e dificilmente o país teria atravessado com relativa tranquilidade a crise global. O consumidor estaria devendo até o pescoço, e a banca, pela bola sete, não esbanjando saúde.
O mesmo fio condutor
É esse Brasil ainda cheio de problemas, com exagero de dose entre o ativismo fiscal de Lula e sua contraface monetária, que encanta o mundo e embaraça o PT, ansioso em ser o caudatário do otimismo, mas atado a preconceitos, como se hoje receasse ser feliz.
O melhor do Brasil é o mesmo fio condutor que perpassa a economia em quase duas décadas, com um governo apurando a gestão anterior e ampliando os resultados. A campanha da ministra Dilma Rousseff, no entanto, está buscando valorizar o contraponto entre as conquistas do governo Lula vis-à-vis FHC como se o país tivesse sido “achado” em 2003.
Isso não é elogio, é afronta à clarividência de Lula.
Alívio começou antes
A política atual é a da social-democracia sem os constrangimentos fiscais dos governos FHC. Ele errou ao dar à solvência pública um peso maior que ao emprego resultante de investimentos - e atentou muito tarde para as políticas de compensação social cujo arcabouço inspira o bem-sucedido Bolsa Família.
Mas o clima de alívio, sem o ajuste passado, seria hoje só aspiração. E Lula pisaria em ovos.
Certamente, o boletim diário do PT na Câmara não estamparia notas tais como: “Aprovação de Lula sobe para 83%”. Ou: “Washington Post afirma que Brasil caminha para se tornar petropotência”. Ou ainda esta: “Copenhague: Brasil pode liderar negociações sobre clima”. E mais: “CNI confirma crescimento da indústria no Brasil”.
Nada veio por acaso
Do que então resmunga o economista Marcio Pochman, presidente do IPEA, o think-tank do governo, em artigo no qual fulmina o “modelo neoliberal”, já que, diz ele, “coube ao Estado a submissão plena ao regime de ajustes fiscais permanentes”?
Pode-se questionar essa rota, plena de contradições, não a necessidade da solvência fiscal do Estado, sem a qual não haveria os “sinais de transição para o modelo social-desenvolvimentista”, como Pochman define o momento.
Ele destaca a “reafirmação da soberania”, o país passar a credor do FMI, fatos da realidade, mas não obras do acaso. Há um passado de suor nas boas perspectivas atuais, um trabalho que mal começou. Será mais fácil se não desmerecer a inteligência nacional.
A agenda para valer
Eleições explicam retóricas enviesadas, mas não as justificam nem colaboram com a formação de expectativas favoráveis ao governo, se sugerirem o oposto do que mobiliza os responsáveis pela formulação econômica.
A preocupação é expandir os limites do financiamento de longo prazo, prioridade nos três grandes bancos federais, para não tornar o país outra vez dependente de capital externo nem enforcar o progressivo aumento do investimento industrial.
Isso tem muito a ver com a valorização cambial e com a carência crônica de poupança fiscal, cuja obtenção, sem sacrifício das demandas sociais, exige maior produtividade dos dinheiros públicos. Essa é a agenda real.
Antonio Machado
O PT combativo, barulhento, mal humorado, que lutava "contra tudo isso que está aí", desde 2002, quando Lula se elegeu - e o partido perdeu o medo de ser feliz -, a cada eleição tenta vestir o antigo figurino para mobilizar a militância contra os dragões da direita, mas está cada vez mais difícil.
A militância não perdeu a forma no poder. O PT é que está orgulhoso de "tudo isso que está ai".
Sua bancada na Câmara, por exemplo, produz um clipping diário das principais notícias sobre o governo e os deputados da legenda. Nos últimos tempos, fora uma ou outra nota mais, digamos, démodé para o Brasil de Lula, o otimismo revela a satisfação do petismo.
Das treze notas do boletim de terça-feira, sete reproduziam notas favoráveis ao governo, a maioria delas devido aos frutos do mesmo modelo econômico que Lula herdou de seu antecessor, aprofundou e reorientou com o viés social, depois de constatado o fim do longo ciclo de ajuste monetário e fiscal em resposta à crise da dívida externa da década de 1980. Qualquer que seja o dia o tom é igual.
A conciliação entre abertura da economia e saneamento fiscal (com origem nos governos Sarney e Collor e consistência depois do Plano Real nas gestões Itamar e Fernando Henrique) com a ênfase social a partir de 2003 está na base do sucesso dos dois mandatos de Lula.
O crescimento econômico incorporou a parcela majoritária do país, por meio dos aumentos reais do salário míninimo e aposentadorias e o Bolsa Família, e criou a quase unanimidade que o envolve com a retomada dos investimentos privados e públicos, mais os primeiros que os últimos, em decorrência da maior previsibilidade econômica.
Tudo isso é uma obra em aberto, com muitos autores, e um processo que não começa em 2003, mas tem em Lula um grande maestro no novo ciclo ascendente da economia, e isso por mérito exclusivamente seu ao ignorar as recomendações de boa parte das lideranças petistas e mesmo de empresários cansados de tantos juros e impostos.
Não fosse sua prudência, especialmente ao apoiar a estratégia de acumulação de reservas pelo Banco Central e não querer usufruir os dividendos políticos do crédito farto e barato como havia nos EUA, e dificilmente o país teria atravessado com relativa tranquilidade a crise global. O consumidor estaria devendo até o pescoço, e a banca, pela bola sete, não esbanjando saúde.
O mesmo fio condutor
É esse Brasil ainda cheio de problemas, com exagero de dose entre o ativismo fiscal de Lula e sua contraface monetária, que encanta o mundo e embaraça o PT, ansioso em ser o caudatário do otimismo, mas atado a preconceitos, como se hoje receasse ser feliz.
O melhor do Brasil é o mesmo fio condutor que perpassa a economia em quase duas décadas, com um governo apurando a gestão anterior e ampliando os resultados. A campanha da ministra Dilma Rousseff, no entanto, está buscando valorizar o contraponto entre as conquistas do governo Lula vis-à-vis FHC como se o país tivesse sido “achado” em 2003.
Isso não é elogio, é afronta à clarividência de Lula.
Alívio começou antes
A política atual é a da social-democracia sem os constrangimentos fiscais dos governos FHC. Ele errou ao dar à solvência pública um peso maior que ao emprego resultante de investimentos - e atentou muito tarde para as políticas de compensação social cujo arcabouço inspira o bem-sucedido Bolsa Família.
Mas o clima de alívio, sem o ajuste passado, seria hoje só aspiração. E Lula pisaria em ovos.
Certamente, o boletim diário do PT na Câmara não estamparia notas tais como: “Aprovação de Lula sobe para 83%”. Ou: “Washington Post afirma que Brasil caminha para se tornar petropotência”. Ou ainda esta: “Copenhague: Brasil pode liderar negociações sobre clima”. E mais: “CNI confirma crescimento da indústria no Brasil”.
Nada veio por acaso
Do que então resmunga o economista Marcio Pochman, presidente do IPEA, o think-tank do governo, em artigo no qual fulmina o “modelo neoliberal”, já que, diz ele, “coube ao Estado a submissão plena ao regime de ajustes fiscais permanentes”?
Pode-se questionar essa rota, plena de contradições, não a necessidade da solvência fiscal do Estado, sem a qual não haveria os “sinais de transição para o modelo social-desenvolvimentista”, como Pochman define o momento.
Ele destaca a “reafirmação da soberania”, o país passar a credor do FMI, fatos da realidade, mas não obras do acaso. Há um passado de suor nas boas perspectivas atuais, um trabalho que mal começou. Será mais fácil se não desmerecer a inteligência nacional.
A agenda para valer
Eleições explicam retóricas enviesadas, mas não as justificam nem colaboram com a formação de expectativas favoráveis ao governo, se sugerirem o oposto do que mobiliza os responsáveis pela formulação econômica.
A preocupação é expandir os limites do financiamento de longo prazo, prioridade nos três grandes bancos federais, para não tornar o país outra vez dependente de capital externo nem enforcar o progressivo aumento do investimento industrial.
Isso tem muito a ver com a valorização cambial e com a carência crônica de poupança fiscal, cuja obtenção, sem sacrifício das demandas sociais, exige maior produtividade dos dinheiros públicos. Essa é a agenda real.
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