sábado, 5 de dezembro de 2009

Xis preto em Dubai. Agora é Brasil, terra do Bolsa Família e também coqueluche dos investidores

Até carro de luxo encalhado no reino árabe endividado está sendo desviado para o mercado brasileiro


Antonio Machado

Xis preto em Dubai, o emirado árabe dos gastos suntuosos que foi à breca. Acendam-se os holofotes sobre o Brasil, a terra do Bolsa Família, mas também a “coqueluche” dos investidores estrangeiros, como troçou o economista Paul Krugman, Nobel de Economia em 2008, professor da Universidade de Princeton e polemista de primeira.

“A economia brasileira reagiu bem à crise”, admitiu Krugman numa palestra em São Paulo nesta quarta-feira, “encontra-se num momento favorável”, e emendou, conforme seu estilo atrevido e sem papas na língua: “Mas é preciso tomar cuidado com o excesso de euforia, que tem provocado uma exagerada e preocupante valorização do câmbio”.

Referindo-se ao presidente Lula e a Henrique Meirelles, do Banco Central, Krugman aconselhou, com a verve com que critica o governo Barack Obama pela falta de ousadia diante da crise em seus artigos no New York Times: “Eles deveriam dizer ao mercado: `Nós estamos melhores do que estávamos, mas não tão bem. Não nos amem tanto´”.

De fato, o real se valoriza mais que o dólar despenca em relação às principais moedas, e isso ocorre em meio à demanda bombando, ao crédito disparando, renda subindo, e os investimentos em ampliação da oferta, insuficiente para um quadro econômico tendendo ao pleno emprego, só agora começando a retomar o pique anterior à crise.

A economia brasileira tem todos os motivos para atrair a atenção dos capitais externos - dos financeiros, voláteis, que vêm e vão em ondas, aos das multinacionais, mais ordeiros, que chegam para ficar, saindo apenas os lucros remetidos às matrizes.

Com o mundo envolvido em excesso de produção em toda parte, as multis procuram novos mercados em expansão, e o Brasil está nesse mapa, ao lado de China e Índia, nessa ordem. O ganho das ações na Bovespa chega a 80% no ano, e há quem fale em início de uma bolha.

Com as taxas de juros margeando o zero nas economias maduras, os financistas globais estão atrás de oportunidades - disponíveis no Brasil como barganha: o juro regulatório de política monetária, a Selic, é de 8,75%, contra inflação de 4,5%.

Aqui, aplicações financeiras têm retorno real. Nos EUA, Europa e Japão, por exemplo, perde-se dinheiro estacionado em juros. E pode ser assim porque a inflação por ora é mínima e a recessão, máxima.

O Mini para o máximo

O risco é a euforia mencionada por Krugman. Como houve em Dubai e, no limite, pode transferir-se para cá - como o lote de 70 Mini Cooper, o charmoso e caro carrinho inglês, que encalhou no areal dos Emirados e a BMW, dona da empresa, desviou para o Brasil.

Noutros tempos o capital fugia do Brasil, começando pelo dinheiro dos potentados árabes administrado pela banca dos EUA, Inglaterra e França, em especial. Hoje, produtos de luxo encalhados no mundo árabe são trazidos para cá.

Graças ao ajuste iniciado em 1994 com o Plano Real e os alicerces do regime de metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário para solver parte da dívida pública - e a acumulação de reservas de divisas, no governo Lula, maiores que o endividamento externo -, o país tornou-se mais estável.

De pujança e desgraça

Tais são os diferenciais brasileiros que atraem o capital externo a ponto de preocupar não só o economista Krugman, mas a assessoria do presidente Lula, que já o alertou sobre o risco do crescimento acelerado em 2010, 6%, por ai. O que vem fácil vai embora também.

A pujança dos países emergentes em meio à ruína global pode ser a desgraça de amanhã, segundo o alerta de Krugman, e mais sério que para China ou Índia, já que aqui se faz o equilíbrio com juros dos mais altos no mundo.

E com carga tributária recorde em relação aos países com renda per capita assemelhada, déficit fiscal e folga no orçamento federal mínima, 1% do PIB, para o investimento público.

Carona ou dirigindo?

Para o PIB crescer 6,1% em 2010, aposta do Bradesco, o superávit da balança comercial, que já encolhe desde 2008, estando estimado em US$ 25 bilhões este ano, será quase zero. O déficit em contas correntes vai a mais de 3% do PIB, tornando-se o terceiro maior do mundo em 2010, só atrás de EUA e Espanha.

Não faltarão capitais de fora para financiá-lo, mas a dependência externa estará de volta.

E a inflação? Sem aperto monetário, com a Selic subindo até 12,5% em outubro de 2010 e aumento dos compulsórios, o cenário do banco Goldman Sachs a projeta rasgando o teto da meta, 6,5%. E o déficit externo voaria alto.

No cenário sem BC, o real perderia valor. Não é bom assim. É melhor estar ao volante que no assento do carona.

Olho maior que a boca

O problema do Brasil é que os ciclos de demanda forte se acomodam com o aumento de importação e desvio de exportação para o mercado interno. O processo se acumula com a apreciação que vem junta, já que tais ciclos têm forte correlação com os ingressos de capitais, destrambelhando as cadeias industriais.

A indústria opera cada vez mais integrada a outros países e se fixa onde há maiores vantagens comparativas. Corrigir o crescimento com tais gargalos leva tempo. Exige infraestrutura ampla, custo relativo de produção baixo, além de sintonia entre oferta e demanda para que o déficit externo seja custeado sem depreciação cambial excessiva. Os desafios são esses.

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