sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Folha Online - Dinheiro - Mais de 10 milhões de empreendimentos precisam de microcrédito, diz secretário - 11/01/2010

da Agência Brasil, em Brasília

A demanda por microcrédito no Brasil envolve entre 10 milhões e 12 milhões de empreendimentos, sendo que a absoluta maioria encontra-se em situação informal e sem acesso a bancos. A avaliação, feita tendo por base dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística), é do secretário nacional de Economia Solidária, Paul Singer.
"Esta é uma situação lamentável, que decorre do desconhecimento que boa parte da população e das instituições financeiras tem sobre o quanto um empréstimo de R$ 100 pode significar em termos de mudança da situação econômica de milhões de empreendimentos familiares", diz o economista.

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Singer afirma que nenhum banco comercial empresta dinheiro para quem não ofereça garantias. "E essas pessoas [que necessitam de crédito] não costumam ter terras nem rebanhos". De acordo com ele, a maior fonte de microcrédito da América Latina é o Banco do Nordeste, que atende cerca de 500 mil empreendimentos. "Isso é ínfimo, se comparado à enorme demanda que temos no país", disse Singer. "Nenhuma outra entidade sequer chega perto disso."
Para ele, esse tipo de empréstimo de fato chega aos pobres "e faz uma diferença enorme para eles". "Tanto é que, aos poucos, estão inventando uma indústria do microcrédito. Houve o caso de instituição mexicana de microcrédito que virou banco, depois de ser comprada por uma grande instituição financeira. Isso mostra que em certas circunstâncias o microcrédito pode ser lucrativo", acrescenta.
Além disso, ressalta Singer, o crédito para pobres é visto como lucrativo por esse público acabar pagando juros mais altos, em função da pequena quantidade de crédito que solicita. Segundo o secretário, o giro de capital deles costuma ser muito rápido nessas situações, principalmente para os que lidam com comércio. "Eles dobram o capital com grande velocidade e têm índice de inadimplência praticamente zero", diz Singer, que associa a baixa inadimplência do microcrédito ao fato de os pobres terem hábito de se ajudar mutuamente e medo de passar por caloteiros.
"Infelizmente, os bancos brasileiros de médio e grande porte não se interessam em lucrar 10% em cima de baixas quantias", afirma o economista. "Mas tanto o Banco Mundial como a ONU [Organização das Nações Unidas] têm vendido a ideia de que o microcrédito pode ser muito lucrativo também para essas instituições."
Desde 2006, com a criação do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado, desenvolvido pelo Ministério do Trabalho, algumas dezenas organizações da sociedade civil com interesse público sem fins lucrativos e sociedades de crédito para microprodutores --estas de fim lucrativo-- passaram a atuar visando à promoção de microcrédito. "Mas ainda é um número muito pequeno de entidades dispostas a fornecer esses serviços", avalia Singer.
Ele acredita no surgimento de outras formas de microcrédito, "provavelmente na forma de bancos comunitários e de fundos rotativos solidários", que são sociedade de pessoas geralmente pobres, que vivem em áreas carentes e juntam a poupança de seus membros para fazer empréstimos visando a melhorar a qualidade de vida. "Esses fundos são compostos por pessoas pobres e se destinam a gente pobre. Por isso se chamam de rotativos."
Para Singer, a crise financeira internacional não alterou "pelo menos aparentemente" a oferta de microcrédito no Brasil. "Se afetou, eu não tive notícia. Mas, pela lógica, a demanda por ele deve ter aumentado", concluiu.

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