terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Sucessor vai precisar de muita presciência para gerir contradições que Lula armou para governar

Questão para frente é política, não sobre o que deve ser feito nas áreas econômica e social
Antonio Machado

Quem está com a vida ganha, sem ter que se preocupar em procurar o que fazer depois de 2010, é o presidente Lula. Admiradores mundo afora, como headhunters bissextos, já cuidam de empregá-lo.



A revista inglesa The Economist, por exemplo, lançou em editorial a idéia de as Nações Unidas criarem um governo internacional para o Haiti e sugeriu dois nomes para presidi-lo: o de Lula e o do ex-presidente Bill Clinton. Lula será homenageado em Davos, Suíça, na próxima sexta-feira, pelo Fórum Econômico Mundial, organização que reúne a fina-flor das finanças, com o status atribuído a Clinton.



Ele vai receber o título de Estadista Global, razão compreensível para fazer um bate e volta rapidinho no fórum antítese de Davos, o Social, da turma segundo a qual “outro mundo é possível”, em Porto Alegre. Lula confirmou a ida aos dois fóruns.



Escolhas não lhe vão faltar. O editor da publicação The Globalist – diário digital com ampla circulação entre executivos apátridas -, Stephan Richter, sugeriu que o Federal Reserve fosse entregue a Lula e não a Ben Bernanke, cuja recondução ainda não foi aprovada pelo Congresso dos EUA. Ele justifica a blague com um dado sério.



Nos sete anos de administração de um e outro, a de Lula, diz, foi mais competente para cumprir um dos mandatos do Banco Central dos EUA: cuidar do emprego e assim reduzir as desigualdades sociais.



A serem assim as qualidades de Lula, segundo o julgamento de seus fãs no exterior, ele deveria é ficar por aqui mesmo ao término de seu governo e se oferecer à candidata Dilma Rousseff, caso consiga elegê-la, para assumir o Ministério da Fazenda e o Banco Central.



Tudo junto, porque o seu sucessor vai precisar de alguém à frente da economia com muita presciência, além de habilidades especiais, para administrar as contradições que ele construiu para governar.



Com a economia global em rápida transformação e a brasileira com a expectativa alimentada pela campanha eleitoral de que superou os seus grandes problemas, sem razão para se preocupar com o dinheiro finito que constrange todos os governos, até o chinês, os próximos anos serão de desafios. Dilma ou José Serra estarão preparados?



Já há precedente na Rússia: o ex-presidente Vladimir Putin elegeu seu primeiro-ministro Dmitri Medvedev sucessor, que o nomeou para o antigo cargo logo que assumiu. É verdade que hoje os dois andam se bicando. Mas é do jogo entre criador e criatura. No problem.



Problema será a economia entrando em 2011 com consumo bombando, a produção no talo, importações a mil, déficit externo e muita gente esquecida de que há Copom, Banco Central, Selic e ajuste fiscal.



Risco será a ressaca



Em situação normal, o ajuste esperado é bastante razoável. Se a economia virar o ano girando em torno de 6%, como muitos preveem, estará zerada ai por agosto a capacidade ociosa da indústria – o chamado hiato de produto, medida imprecisa mas usual que define o equilíbrio entre a oferta e a demanda sem tensões inflacionárias.



A diferença entre o que produzimos e o que gastamos (governo, as pessoas, as empresas) a mais deságua no déficit em conta corrente.

É a expressão da contabilidade nacional que totaliza o que entra e sai de mercadorias, pagamento de fretes, turismo e por ai vai.



BC contra os excessos



Desde 2008 essa conta está deficitária, coberta com folga pelos ingressos de investimento direto do exterior (IED) e aplicações em ações e títulos de dívida. Ou seja: só com superávits comerciais a conta não zera. E sujeita o país às incertezas da economia global.



O que se espera é que o BC desacelere em algum momento o ritmo da economia, voltando a subir a Selic. Não será por temer a inflação corrente. O fechamento do tal hiato e a piora da conta corrente, diz o economista Fernando Montero, garantem o aumento do consumo (a absorção doméstica, para ser preciso) sem provocar inflação.



A questão é política



Não evita, porém, o agravamento do déficit externo, um risco numa situação incerta como hoje, em que o governo Obama resolveu peitar a banca e a China indica que puxou o freio.



O que o mercado espera é que o BC aja. Por isso a expectativa de inflação está na meta de 4,5%. A taxa de crescimento do PIB viria a 4,5% em 2011, conforme simulação do Bradesco, ainda um bom número.



O BC fará isso apesar das eleições? O sucessor terá apetite para conter o gasto público?



A questão para frente é política, não sobre o que deve ser feito. Lula dispôs de caixa para mimar sindicatos e movimentos sociais. Mas não se prevê fartura fiscal em 2011. Esse é um dos muitos nós.



Seria como diamante?



Aí é que está o enrosco. A economia só romperá os gargalos tanto da oferta de bens como da infraestrutura se investir muito mais do que investe hoje - acima de 21% do PIB contra atuais 17%.



Isso pede controle dos gastos de custeio, com os salários do funcionalismo e um pouco de moderação com a Previdência Social. A folga de caixa deve ser direcionada para aumentar os investimentos públicos.



Quem for o pós-Lula fará algo assim, menos ou mais dependendo do cenário externo e do apoio político e social que tiver. É esse o horizonte que se enxerga: a lembrança de Lula a permear os passos do sucessor, mesmo se der Dilma.



Lula parece para sempre, conforme a antiga campanha de diamantes. Mas seria bruto ou a lapidar?

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