Problema é menos o carro, uma aspiração social, mas a falta de opções ao seu uso e o sucateamento urbano
Antonio Machado
Com a volta às aulas no lugar dos temporais, que parecem amainar, congestionando o trânsito em São Paulo por 100 a 180 quilômetros todos os dias, de manhã, de tarde, com sol, com chuva, não se sabe se é para comemorar ou chorar a projeção de que a venda de carros baterá outro recorde em 2010 - o quarto desde 2007.
O país está diante de um virtual apagão da malha urbana viária em praticamente todas as capitais. Ela vem da ocupação desordenada e da permissão para a construção de edifícios em zonas originalmente de casas e vias estreitas sem estrutura para receber mais morador, mais carros. Adicione-se a carência de transporte coletivo.
Tem-se a combinação perfeita para o caos, que começa a chegar às cidades médias e pequenas. Ele é acelerado pelo aumento da frota de veículos, desacompanhado de investimentos em infraestrutura de transportes e vias expressas, além de zoneamento inteligente.
O problema é menos o carro, uma aspiração social, mas a falta de alternativas ao seu uso e de ocupação racional das cidades.
A expectativa da Anfavea, a associação das montadoras, é produzir de 5% a 6% mais que em 2009, quando, apesar da crise mas graças ao desconto do IPI, entregou 3,2 milhões de veículos, que ela define como automóveis, comerciais leves, ônibus e caminhões.
Só a fatia de carros novos, nacionais e importados, engordou 2,697 milhões em 2010 – 12,8% mais que em 2008, quando crescera 11%.
Mas tais números não contam a história completa. Ela é arrepiante em sentido literal: para os acionistas das montadoras, que deverão lucrar como nunca no mercado brasileiro, compensando outro ano sem refresco em seus países de origem, e para os felizardos que sairão das lojas com o carro cheirando a novo. E perder tempo logo depois num engarrafamento. Que vão engrossar - literalmente, também.
Estudo da área econômica do Bradesco apurou que, se em 2004 - ano em que as vendas chegaram a 1,258 milhão de unidades – havia 6,2 milhões de pessoas habilitadas a comprar carro zero, em 2008 esse público potencial já era de 9,5 milhões.
A economia incorporou em quatro anos 3,3 milhões de consumidores potenciais, um aumento de 52,6% no período, contra 5,8% da população total acima de 18 anos.
Mais motoristas vem ai
A simulação considerou comprometimento de 30% da renda disponível mensal do consumidor e custo médio do crédito cobrado pelos bancos de montadoras (1,42%/mês ou 18,44%/ano em 2009, com prazo médio de 42 meses e máximo de 80, segundo a Anef, a associação do setor). E isso para a compra, com financiamento integral, de carro na faixa popular, com valor de R$ 25 mil a preços de 2009.
O mercado potencial é até maior, já que o estudo do Bradesco teve objetivo de quantificar o efeito da expansão da renda e da melhora das condições do crédito sobre a compra de carros.
Se a simulação considerar uma entrada, como é mais comum, cai o valor financiado, portanto, a prestação, e aumenta o mercado potencial. Que crescerá também quanto menor a taxa de juros e maior o prazo.
E o governo faz o quê?
Como essa é a tendência (renda maior, juro menor), o estudo foi avaliar o mercado potencial futuro, definido como a população na bica de obter a renda mínima exigida para comprar carro a prazo.
Supôs-se a faixa de renda até 20% abaixo da mínima considerada no financiamento. Enquadravam-se nesta situação, em 2008, 2,3 milhões de pessoas. Tal perfil de renda, a nova classe média, cresceu 43% em 2008, 7,5 vezes acima do crescimento vegetativo da população.
É ótimo para a economia o consumo fermentado pelo emprego e pelos salários em alta. A contribuição para o Produto Interno Bruto do setor automobilístico amplo, que inclui combustíveis, os postos de serviço, peças de reposição, oficinas, não tem igual. O que faz o Estado brasileiro em reciprocidade, porém, é quase nada.
Caos urbano vai piorar
O caos urbano vai piorar. Entre 1994 e 2006, segundo o economista Fernando Montero, a frota crescia 3,9% ao ano. De 2007 a 2009 deu um salto para 7% anuais. “O trânsito caótico é evidência de que a infraestrutura não acompanhou tal expansão”, diz.
Pior: afora o investimento para acompanhar o aumento da frota, tem-se que fazer ainda mais para recuperar o atraso e adiantar a expansão projetada pela melhora da renda no país.
E os governantes sobre isso? Devem estar parados em algum engarrafamento. E ao lado de eleitores que poderiam passar o tempo avaliando o que fizeram com seu voto.
Cidades pedem socorro
Não é só São Paulo que sofre. Em todas as cidades médias as ruas estão parando. Em
Paliativos, como rodízio, são cada vez menos eficientes. Só mais transporte, metro, sobretudo, e mais vias podem resolver. O Rio, por exemplo, cresce para o sul, acompanhando as praias, e mantém o mesmo aparato viário construído há 50 anos. Ou 30, o mais recente.
Fala-se de muitas necessidades do país, mas nenhuma supera as das cidades. O país mora nelas – e não será de Brasília que se poderá resolvê-las. Sem descentralizar poder e dinheiro, melhor esquecer.
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