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"CRÔNICA/JACQUELINE DE SOUZA AMARAL
Um pai querido
José Lourenço do Amaral Filho, nascido ao pé da Serra de Martins, oriundo de família humilde que migrou para Mossoró na década de 50. Aqui estudou, ingressou no serviço público, chegou a chefe dos Correios, casou-se com dona Eliete, minha mãe, e segundo ela foi e é o único amor de toda sua vida. Formou-se em Economia na Uern, abnegado pela Contabilidade, profissional como poucos. Até hoje nunca vi um balanço patrimonial tão perfeito e rebuscado quanto os que ele fechava. Foi nessa escola que também me tornei contadora e, como ele mesmo generosamente dizia, das boas (palavras dele; quem me dera chegar aos seus pés).
Zezito, Zezito Amaral, Zezito dos Correios, Zezito Contador, Zezito maçom, Zezito homem e, mais especialmente, Zezito pai.
A intensidade do ser humano nos condiciona muitas vezes a pagar um preço muito alto. Zezito é exemplo disso. Um romântico inveterado, 'bon vivant' apaixonado por música, boemia e uísque. Lembro que outrora as lojas Disco Fitas e Som Livre separavam para ele todos os discos novos que chegavam à cidade. Daí, ele escolhia e comprava semanalmente, tendo formado uma discoteca invejável, apreciada por bons admiradores da música, dentre os quais lembro-me com saudade de Neto Negócio, Lucas Benjamim, Junheira Azevedo, Aderson dos Bárbaros e outros amigos que, pela minha então tenra idade, talvez esteja cometendo a injustiça de omitir.
Do seu lado, dona Eliete, a Ângela Maria Mossoroense, eleita na Praça do Cid a mais bela voz da cidade, os acolhia em nossa casa com carinho e bons petiscos. Sempre começando nas sextas e encerrando nos domingos à tardinha, momentos esses sempre permeados por palhinhas memoráveis com as quais ela nos premiava e cuja voz aveludada minha irmã Jeannine herdou.
Poeta e apaixonado por repentes de viola, também cantava, voz grave e alta, afinado, adora Johnny Mathis, Paul Anka, Orlando Silva, Nélson Gonçalves, Luiz Gonzaga, Sivuca, Elizete Cardoso, os poetas repentistas, especialmente Ivanildo Vilanova, cujos versos sempre invocava: 'Observe a humanidade na sua extrema grandeza, progresso e evolução, dando sinais de beleza, porém no meio tem coisas que só nos causam tristeza.' Lembro-me dele recitando e cantando muitas letras bonitas e poéticas, as quais até hoje me transportam a uma condição sublime de sentimentos mágicos e incondicionais, em que tudo é sentido de forma lírica, forte, sentimental.
Meu pai é, acima de tudo, um cara generoso, puro, sem malícia, altivo, sincero e positivo, taxado inúmeras vezes de arrogante, quando na realidade externava a verdade dos sentimentos nas palavras, sem medos ou disfarces, coisa que poucas pessoas se arvoram ou têm coragem de demonstrar. Prova maior de sua generosidade se deu quando da construção da Loja Maçônica Betel, na qual despendeu esforço de toda ordem, dedicando todo seu tempo nesse projeto, chegando até a comprometer seus recursos financeiros, tendo conseguido junto com os irmãos maçons realizar o grande sonho de ter um templo próprio. Para ele, foi a realização de um grande sonho.
Capaz de sacrificar tudo o que tinha para ajudar alguém, mas incapaz de vencer o vício da bebida que o consumiu e fragilizou o seu corpo e mente, hoje se encontra no seu leito com a saúde debilitada, sem conseguir andar e com o raciocínio lento e falho, sem o corpo responder a contento. Todavia, como o mais altivo dos guerreiros, resolveu pagar o preço: não reclama, não chora, não questiona. Aquele rosto, apesar dos traços marcantes da debilitação física, ainda serve de moldura a olhos vivamente astutos, inteligentes, perspicazes. Sabe o que se passa com ele e o que lhe causou tamanho dano.
Outro dia, minha irmã Jeannine colocou uma música e ele cantou: ¨Ontem ao luar, nós dois em plena solidão tu me perguntaste o que era dor de uma paixão, nada respondi, calmo assim fiquei...'. Fui às lágrimas quando ela me contou. Chorei, lembrei-me dos tantos anos idos e vividos, nem sempre bons, nem sempre ruins, nem sempre felizes ou infelizes, mas anos do mais absoluto convívio familiar, inigualáveis, importantes, inesquecíveis.
A necessidade de escrever essas palavras veio neste dia 22 de novembro de 2010. Temi que ele se fosse de repente e eu não pudesse, envolvida pela dor da perda, ser racional e imparcial ao falar, já que ele não combina com palavras de pena ou de dor. Viveu a sua juventude e maturidade da forma que quis e entendeu ser certo. Ou errado, não importa! E hoje, honradamente, paga o preço de sua autoflagelação. E, mesmo enclausurado no calabouço do seu frágil corpo, ainda nos premia com seu beijo carinhoso, companhia e olhar, que nos transporta à poesia dos seus pensamentos, os quais, embora por nós desconhecidos, certamente representam sempre a mais absoluta, completa e sublime forma de amar. Beijo, pai. Te amo.
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Jacqueline de Souza Amaral
é gerente executiva da Saúde do Município de Mossoró.
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