sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Folha de S.Paulo - Análise/Crescimento: Brasil precisa elevar produtividade - 07/01/2011

Folha de S.Paulo - Análise/Crescimento: Brasil precisa elevar produtividade - 07/01/2011

ANÁLISE CRESCIMENTO

Brasil precisa elevar produtividade

Mudança no perfil demográfico da população acentua pressão sobre mercado de trabalho


SERÁ PRECISO CRIAR CONDIÇÕES PARA QUE A POPULAÇÃO TRABALHADORA TENHA O MÁXIMO DE DESEMPENHO


JORGE ARBACHE
ESPECIAL PARA A FOLHA

O Censo 2010 confirmou que o Brasil está passando por profunda transformação demográfica. Em 1990, a taxa de fecundidade era de 2,8 filhos por mulher, mas, em 2010, havia caído para 1,9.
Já a taxa de crescimento populacional passou de 1,8% em 1990 para só 0,9% em 2010. O que chama a atenção não é a convergência da fertilidade para padrões de países desenvolvidos, mas a rapidez com que essa transformação está se dando.
De fato, a taxa de fertilidade caiu de 3 para 2 filhos por mulher em apenas 18 anos (entre 1988 e 2005).
Essa abrupta mudança demográfica terá grandes repercussões econômicas, como o aumento dos custos das aposentadorias, serviços de saúde e a pressão sobre a taxa de poupança e sobre o mercado de trabalho.
A taxa de crescimento da população em idade ativa já é negativa -embora a população que chega ao mercado esteja crescendo, ela cresce e crescerá a um ritmo menor.
Não por acaso a taxa de desemprego vem caindo e os salários reais vêm aumentando. A partir do início da década de 2020, a proporção da população em idade ativa começará a declinar, trazendo consigo pressões maiores.
Para que a economia continue crescendo de forma sustentada, será preciso encontrar formas de mitigar as pressões demográficas.

ALTERNATIVAS
A migração do campo para a cidade é alternativa de possibilidades limitadas, pois resta apenas 16% da população nas áreas rurais.
O aumento da taxa de participação da força de trabalho também não, pois a taxa de participação, inclusive a das mulheres, já é de 73%.
Uma alternativa à crescente escassez de força de trabalho é aumentar a taxa de investimento. Mas a baixa taxa de poupança sugere ser essa uma possibilidade também de alcance limitado.
Isso implica que teremos que nos apoiar no avanço da produtividade do trabalho.
Ele será especialmente relevante para os setores mais expostos à competição externa, como a indústria manufatureira, e para evitar que o país seja empurrado para a produção de commodities.
O crescimento da produtividade é, no entanto, historicamente baixo e vem crescendo moderadamente, a taxas bem menores que as dos países dos Brics.
Entre 2000 e 2009, a produtividade no Brasil cresceu em média 0,4% ao ano, enquanto na China e na Índia ela cresceu 5,2% e 2,8%. Logo, o aumento da produtividade vai requerer redobrados esforços do governo e da sociedade.
Com população ainda relativamente jovem, o Brasil ainda tem tempo para converter parte da transformação demográfica em dividendo demográfico.
Mas, para isso, será preciso criar condições para que a população trabalhadora tenha o máximo de desempenho produtivo, o que requer investir mais em infraestrutura, em ciência e tecnologia e pesquisa e desenvolvimento, além de encorajar a realocação de recursos e os investimentos para setores de mais alta produtividade e valor adicionado.
O aumento da produtividade requer ainda a melhoria da qualidade da educação, o aumento da produtividade do setor informal e das micro e pequenas empresas e o incentivo à meritocracia, de forma a valorizar a acumulação de capital humano e o desempenho no trabalho.
Essa agenda terá que contar com o apoio de reformas que ajudem a mitigar os efeitos das mudanças demográficas no mercado de trabalho, como a flexibilização da legislação trabalhista e a mudança na legislação previdenciária, para que as pessoas não se aposentem tão prematuramente.
O desafio da elevação da produtividade vai requerer liderança política e coordenação das políticas públicas.
Como os benefícios das reformas e ações necessárias para elevar a produtividade são muito elevados, torna-se imperioso o governo estabelecer um diálogo aberto com a população sobre as mudanças demográficas e suas implicações com vistas a angariar apoio político para a aprovação das mesmas.

JORGE ARBACHE é assessor da presidência do BNDES e professor de economia da Universidade de Brasília

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