Desunião no Grupo dos 20 reflete a complexidade dos desafios, que assombram não só o Brasil: "Desunião no Grupo dos 20 reflete a complexidade dos desafios, que assombram não só o Brasil
Não é a economia brasileira a única a ter problemas. Ao menos, os têm sem crise, contrariamente às economias avançadas..
21/2/2011 - 18:43 - Antonio Machado
A algaravia das propostas entre os ministros de finanças do Grupo dos 20 (G-20), uma mais disparatada que a outra, se não serve como consolo à presidente Dilma Rousseff, ao menos contextualiza melhor a enorme complexidade dos desafios de todas as economias do mundo.
Não é a economia brasileira a única a ter problemas. Ao menos, os têm sem crise, contrariamente às economias avançadas - todas, sem exceção, dos EUA ao Japão, da Alemanha à França, umas mais, outras menos, amargando déficits que chegam a dois dígitos do PIB, ou a três, considerando-se a dívida pública, além de se virem feridas, agora, pela inflação, sem poderem, a rigor, aumentar juro e cortar gastos sob pena de frustrarem a tímida recuperação ensaiada.
É devido à inflação, que vinha mansa e foi vitaminada pela alta das commodities agrícolas – assim que EUA voltaram a emitir para recomprar títulos de dívida, visando reanimar o consumo por meio do moribundo crédito bancário -, que o governo da França, no papel de anfitrião do G-20 este ano, investe contra os dois fenômenos.
Começou sugerindo o controle do mercado de commodities, depois alterado para maior supervisão das operações de derivativos com produtos agrícolas, e terminou tentando enfiar na cesta as causas do barraco global: o laxismo monetário dos EUA e o desequilíbrio entre os países superavitários, que acumulam reservas elevadas, e os deficitários, como EUA e União Européia, sobretudo no comércio com a China. O governo chinês é suspeito de manipular a moeda para anabolizar a competitividade de suas exportações. A China nega.
A circularidade das queixas, ou análises, revela que os problemas econômicos globais transitam por caminhos que repercutem não só os efeitos da política econômica de cada país, e o resto que se lixe.
A geopolítica também se faz presente quando a China, por exemplo, atribui aos déficits dos EUA a causa dos desajustes globais. Colhe em troca pressões do governo de Barack Obama, com o discreto apoio dos demais, a que estimule o seu mercado interno, o que passa pela valorização do renminbi. Não é simples, ainda mais num regime de partido único, sustentado em investimentos maciços e exportações.
Assim caminha o G-20
Que a China atenda em parte as pressões, e sua economia, de maior potencial de consumo em todo o mundo, será outra, diferente da que tem sido - e o mundo também não será o mesmo. Nenhum país ficaria imune. A China é o nosso maior cliente de commodities metálicas, e também de alimentos, incluindo a Ásia e, nela, Índia e Japão.
O que há mais próximo de acordo, se não neste encontro do G-20 em Paris, talvez no seguinte, é a aceitação de um conjunto de medidas para avaliar os desequilíbrios do comércio e de fluxos financeiros entre os países. Isso já há. A França quer que de algum modo elas sirvam para induzir correções. O governo brasileiro descartou tudo que algeme a soberania para impor restrições ao fluxo de capitais.
China nega indicadores baseados em relações cambiais. EUA também, embora por razões contrárias às da China. E assim caminha o G-20.
Beleza feita de botox
Não irá a lugar nenhum. Todos os grandes problemas, basicamente, têm motivos internos a cada país. EUA, por exemplo, de credores do mundo passaram a devedores líquidos porque, desde os anos de 1970, consumem e importam mais do que produzem e exportam. É mais isso.
A beleza americana era de botox. E será a do Brasil, se o esforço em ampliar a base produtiva instalada, com a infraestrutura que a acompanha, como energia e logística, caminhar em ritmo menor que o da demanda. O país estará condenado ao para-anda que nos persegue a vida toda, com os surtos de crescimento prenunciando inflação e déficits externos, combatidos com juros e corte de gastos. Arre!
O que entorna o caldo
É como se a cada três passos, recuássemos um. Ou dois, quando a coisa fica braba. O país está avançando. Só que os emergentes de ponta, como China e Índia, avançam com maior rapidez, tomando os espaços que foram dos países ricos. Isso não será para sempre. Os EUA já dão sinais de que saíram do coma. E nós? Pensando pequeno.
A questão que assombra o governo Dilma é que outra vez se chegou à vizinhança do pleno emprego, sem oferta interna que a satisfaça, complementada por importações que não desloquem produção nacional. Essa ordem econômica não é natural e suscita ações corretivas, em boa parte à base de juros. O crescimento movido a emprego, renda, crédito e investimentos se soma às demandas sociais atendidas com gastos fiscais, e o caldo entorna. Essa mistura não funciona mais.
Hora da política real
Só o custo adicional decorrente do reajuste do salário mínimo nos próximos anos, segundo projeção da consultoria Eurasia Group, vai equivaler a quase a metade dos investimentos totais realizados no ano passado pelo governo federal.
O que relações como essa mostram é que o governo chegou ao ponto em que não consegue mais atender a todas as prioridades, como se tentou no segundo mandato de Lula.
Daqui para frente, vai-se ter de escolher. Não significa cortar o gasto social, por exemplo, em benefício do investimento. Dosagem é a resposta. Ela exige que se faça política de verdade - a antítese da política de conchavos em que tudo se acerta com o franqueamento sem critérios de benefícios.
É trabalhoso, mas é o certo. Está em questão o que queremos: antecipar o futuro ou viver do passado.
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