terça-feira, 1 de março de 2011

China repatria 36 mil operários da Líbia, e expõe uma faceta pouco conhecida de seu expansionismo

China repatria 36 mil operários da Líbia, e expõe uma faceta pouco conhecida de seu expansionismo:


"China repatria 36 mil operários da Líbia, e expõe uma faceta pouco conhecida de seu expansionismo


O pacote é completo: importações, depois investimentos demandando mais importações, e, onde der, exportam também mão-de-obra


28/2/2011 - 19:21 - Antonio Machado


Uma nota meio de rodapé em meio ao noticiário sobre os sangrentos conflitos na Líbia deixou boquiabertos analistas de risco político e diplomatas que acompanham a insurgência no mundo árabe: a China, como o próprio Ministério de Relações Exteriores do país anunciou, estava repatriando 33 mil trabalhadores chineses, acompanhando o êxodo de estrangeiros organizado por mais de uma dezena de países.

Até ai, nada demais. O governo brasileiro deu a logística para a evacuação de cerca de 500 funcionários das empreiteiras Odebrecht, Queiroz Galvão e Andrade Gutierrez, além da Petrobras, todas com grandes obras de engenharia e exploração de petróleo na Líbia.

A Turquia, próxima ao Norte da África, fez o mesmo com seus 5,5 mil cidadãos. A embaixada dos EUA em Trípoli estimou em seis mil o número de norte-americanos evacuados, a maioria deles empregada por petroleiras que voltaram à Líbia depois que o ditador Muamar Kadafi saiu da lista negra da Casa Branca, chamada “eixo do mal”.

Esse êxodo multinacional, o maior em período de paz, já seria por si um acontecimento dramático. Mas 33 mil chineses, número depois corrigido pelo governo chinês para 36 mil, num país com população total de 6,5 milhões, pareceu chocante. E, de fato, é.

No Brasil, onde estão quase todas as 500 maiores empresas dos EUA e os 10 grandes bancos, os norte-americanos não chegariam a 3 mil, segundo estimativa de uma das associações do comércio bilateral.

“Pouca gente supunha que a presença chinesa na Líbia fosse desse tamanho”, admitiu o chefe da consultoria Cumberlands Advisors, dos EUA, David Kotok. “Isso exige uma extrapolação para que se façam inferências sobre o que se passa em outros lugares do mundo onde a presença chinesa é mantida em perfil baixo”, acrescentou.

A China nos últimos meses, semanas até, não cansa de surpreender. E não só pela política de suas empresas, boa parte estatal. Elas vinculam o financiamento a juros imbatíveis no mundo e prazo longo à aceitação pelo contratante de que a mão-de-obra seja chinesa. E mais: com equipamentos importados da China. É pegar ou largar.

Aqui mesmo, na instalação do alto forno da siderúrgica que a Vale e a alemã ThyssenKrupp constroem no Rio, o fornecedor chinês do equipamento exigiu que só eles poderiam fazer a instalação. Depois de um puxa-estica, o governo limitou a entrada a 600 operários.

Dê a mão e levam o pé

É aquele negócio: dê a mão, e levam o pé. Negócio com a China é com pacote completo onde as instituições são fracas ou o governo cochila: vem os produtos, depois os investimentos, de preferência abrindo mercado para as exportações chinesas, e, onde der, também empurram a mão-de-obra. É assim em Angola, onde na capital Luanda já há mais chineses que os estrangeiros de outras nacionalidade.

Empresas da China investem forte em Angola em construção pesada e em matérias-primas de que necessitam. Estão também em Moçambique e onde mais na África haja recursos naturais para explorar, sempre acompanhadas da mão-de-obra que trazem da China. Por que assim?

Mais PIB que emprego

Ker-Wei Pei, professor da escola de negócios da Universidade do Arizona e presidente do comitê de auditoria da Baosteel, o maior grupo siderúrgico da China, tem a explicação. Ela está num estudo disponível no site da universidade.

O PIB da China cresce à média anual de 9,8% desde 1980, o que se compara com 2% a 3% nos países desenvolvidos no mesmo período. E então? O crescimento do emprego, segundo Pei, tem sido de 1%, já que os enormes investimentos foram maciçamente em indústria intensiva em capital, que emprega pouco.

Chegando de fininho

Sabe-se muito sobre a China, mas ainda é pouco para se desvendar a sua estratégia de expansão. Decididamente, não é como a dos EUA, embora ambas envolvam o poder em todas as formas. Sabe-se sobre as vantagens da China, mas quase nada sobre as suas fraquezas.

O estoque de mão-de-obra é uma delas, a razão da “exportação” de operários e da segregação da população rural, impedida de circular sem autorização pelo país. Metade da China ainda vive no campo.

A presidente Dilma Rousseff visitará Pequim em abril levando uma agenda complexa. China é nosso maior parceiro comercial. E tende a ser o maior investidor. Mas exporta a qualquer custo e investe sem perguntar. O governo foi o último a saber que a estatal State Grid havia comprado sete concessionárias de transmissão de energia de um consórcio espanhol. Sinopec, outra estatal, entrou no pré-sal comprando 40% dos negócios da também espanhola Repsol sem avisar.

Pode ser bom. Mas, sendo o último a saber, fica difícil avaliar.

Mudança de estratégia

Com reservas de US$ 2,85 trilhões, o grosso em papéis do Tesouro dos EUA, a China pode muito, até mudar de estratégia em silêncio, como parece estar fazendo, ao procurar ativos mais rentáveis para suas economias. No Japão, apurou-se que fundos estatais chineses têm participações no capital de todas os grandes grupos japoneses através de veículos obscuros registrados na Austrália.

Um misterioso SSBT OD05 Omnibus Account, por traz do qual estaria o fundo soberano da China, investe em ações da Toshiba, Shiseido, Mitsubishi, Sony, e por ai vai. O Brasil pode estar nessa rota de diversificação das reservas chinesas. As oportunidades não faltam. Falta é discutir se o que é bom para eles também seria para nós.

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