sexta-feira, 17 de junho de 2011

Salto da inadimplência reflete não bem o arrocho atual, ainda recente, mas a overdose de dívidas

Salto da inadimplência reflete não bem o arrocho atual, ainda recente

16/6/2011 - 19:36 - Antonio Machado

O salto da inadimplência, de 8,2% em maio sobre abril e de quase 21% no acumulado do ano sobre igual período de 2010, chocou, e não estava suficientemente avaliado, como se percebe pelo blecaute das análises. O provável é que o crescimento relativo entre dívida e a renda corroída pela inflação tenha se esgarçado, sobretudo para os consumidores dos níveis mais baixos da pirâmide social.

A tendência é que se atribua esse resultado, apurado pela empresa de análises cadastrais Serasa Experian, ao que faz o Banco Central desde dezembro para reduzir o ritmo da demanda e assim a inflação. Só que o atual ciclo de arrocho é recente, com ação sobre os novos contratos de crédito, não os antigos. Neles é que está o problema.

O endurecimento induzido pela política monetária das condições do crédito quanto a prazo e custo projeta a desaceleração do consumo, enquanto a própria inflação já entranhada na economia reduz a sua propensão de crescimento ao abater a renda real presente. Levar os dois movimentos a se cruzarem é o objetivo da política de controle da inflação, programada para trazê-la do patamar de variação anual de 6,55% até maio para a meta central de 4,5% ao longo de 2012.

A arte do BC é conseguir calibrar a realização deste objetivo sem maiores escoriações da taxa de crescimento da economia. Para isso é que o prazo de ajuste da inflação à meta anual foi estendido. Os riscos não são apenas os de o BC se frustrar, como adverte grande parte das análises dos economistas com visibilidade na imprensa.

Estes riscos existem, sobretudo se o governo extrapolar a dose ao relaxar o controle dos gastos orçamentários, que deve começar mais tardar no segundo semestre. Já há espaço fiscal para isso, mas não pelo efeito do corte de despesas na formação do superávit primário e, sim, pelo aumento da receita tributária. Há duas considerações.

A primeira é que o bom desempenho da arrecadação reflete o Pibão de 2010, como se apelidou o crescimento de 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Para este ano as expectativas são mais modestas, indo de 4,5% (projeção da Fazenda) e 4% (do BC) a menos de 4%, na média do mercado. A consultoria LCA prevê 3,4% este ano e 4% em 2012.

Se o gasto público voltar a crescer mais que o PIB em 2012, e já está programado o aumento da ordem de 14% do salário mínimo, além de o investimento precisar acelerar-se para atender os cronogramas inadiáveis da Copa do Mundo, entre outros, tais resultados fiscais não vão se repetir. E a inflação ainda poderá estar longe da meta.

Quem está sacrificado

A outra consideração é que, para fins da inflação, não importa o superávit primário feito com aumento de receitas, mas, como temos argumentado, com economia da despesa, para reduzir a contribuição do gasto público no bolo da demanda.

À falta de gestão fiscal mais incisiva, o BC eleva a Selic e contrai a liquidez bancária além do necessário, sacrificando mais as pessoas e as empresas que os “dependentes” fiscais. É o que faz o mapa de inadimplência pessoal e empresarial se tornar crítico ao governo. Não só pelo mal-estar social decorrente, mas por exigir um ajuste fino das ações usadas para apertar a demanda. O ciclo de investimentos é a peça frágil.

As metas corrompidas

Quanto maior for o retorno das aplicações financeiras, menor será a propensão das empresas para investir. Isso decorre não bem pelos receios quanto à situação futura da demanda. Mas pela oportunidade de geração de resultados líquidos e certos com o caixa estacionado na ciranda dos papéis da dívida pública que replicam a Selic.





Nenhum comentário: