Europa patina em dívidas e desestabiliza os mercados, enquanto EUA respiram com mais empregos |
Zona do euro não tem chance com os US$ 2,2 trilhões de papéis de Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha rejeitados pelo mercado 7/8/2011 - 04:07 - Antonio Machado |
Os mercados financeiros precisaram derreter, na quinta-feira, com a razia acompanhando a rotação da Terra a partir da Ásia, para que o receoso Banco Central Europeu (BCE) saísse da redoma e retomasse a compra dos títulos de dívida soberana dos países da zona do euro rejeitados pelo capital. Já foi a Grécia, que não encontra mais comprador voluntário para sua dívida, e hoje são Espanha e Itália. Ou agia assim ou até o fim da semana não haveria união monetária possível na região que se tornou o epicentro da crise que sacode o mundo desde 2008, hoje mais lá que nos EUA, quando furou a bolha de crédito no mercado americano. A percepção de risco amainou, mas sem sustar na sexta-feira as perdas nos mercados globais. O anúncio de que foram criados 117 mil postos de trabalho nos EUA em julho – acima do previsto e do resultado de junho, revisado de 18 mil para 46 mil vagas abertas – ajudou a serenar os ânimos. Mas o clima continua ruço, bastando uma faísca para detonar outra fuga dos dinheiros em direção dos T-Bills dos EUA – considerados, apesar de tudo, os mais seguros entre as opções disponíveis. Uma percepção que poderá ser abalada pelo rebaixamento da nota de crédito dos EUA pela agência Standard & Poor’s de AAA para duplo A. As sequelas estão em toda parte. E levará tempo para neutralizá-las. No Brasil, onde o governo tenta conter o ingresso de hot money, o real teve a mais forte depreciação desde 2008, não recuperada até a sexta-feira. É preciso ter cuidado com o que se deseja. Quando menos se espera, acontece. Nos EUA, o banco New York Mellon, maior custodiante mundial de ativos financeiros, se viu forçado a cobrar uma taxa extra, tamanho o afluxo de depósitos de clientes, que vão de bancos centrais a investidores abonados de todo o mundo. “À medida que os mercados se estabilizem, reduzindo os depósitos, essa taxa pode não ser mais necessária”, avisou o banco em nota, admitindo sua surpresa com a onda de pânico que varreu o mundo. Disputa sem inocentes Não há inocentes no embate entre os patrocinadores da bandalheira do crédito e os governos dos EUA e da zona do euro - os mesmos que os salvaram da bancarrota em 2008, transformando dívida privada em pública, que agora repudiam, testando a capacidade de solvência de Tesouros nacionais arruinados por tais resgates e laxismo fiscal. Os ataques começaram pela Irlanda, passaram para a Grécia, o país do euro mais debilitado, e chegaram a Portugal. Estão todos na UTI da União Européia e do Fundo Monetária Internacional. Cada um teve uma cota de empréstimos para rolar as dívidas tornadas impagáveis em relação aos juros exigidos pelo mercado e à arrecadação fiscal corroída pelo crescimento econômico anêmico na Europa. A Grécia já teve dois resgates. O mais recente, no fim de julho, no valor de 109 bilhões de euros, veio com a expectativa de poder amansar a voracidade dos mercados. A calmaria durou 24 horas. É como bater em morto Os ataques recomeçaram, mas agora contra a Espanha, quarta maior economia do euro, e a Itália, a terceira, depois da França, sobre a qual já há questionamento sobre sua capacidade de crescer acima do serviço da dívida. A rigor, na zona do euro, só a Alemanha, os países escandinavos e Holanda, todos com superávits externos, não estão “mal-falados” nos mercados. Há nisso um processo. Para a banca e fundos, é como bater em morto, já que exploram as contradições de uma união monetária sem coesão fiscal e política. Mas não é só. Ao contrário do ocorrido nos EUA, o BCE não tirou da banca o grosso dos papéis podres, boa parte sob a forma de títulos de dívida soberana. Mesmo os países ajudados têm muita dívida não riscada dos balanços dos bancos. A ajuda de 109 bilhões de euros à Grécia, por exemplo, só dará para cortar 9% de sua dívida total. Só olham para o umbigo Então, fica assim: o mercado pede juros aziagos para rolar tais papéis, e agora de Espanha e Itália - economias viáveis em tempo normal, mas com dívida dependente de forte crescimento econômico. Estudo do Centre for Economics and Business Research, um think tank inglês, diz que com dívida equivalente a 128% do PIB e 0,1% de crescimento econômico no primeiro trimestre, a situação fiscal da Itália só aguenta juros de 5%. No mercado, ela paga hoje 6%. A Espanha, com dívida pública de 75% do PIB, “com alguma sorte pode sobreviver”, diz o estudo. O dramático é que, quanto maior a perda desses papéis, maior a necessidade de capital pela banca e, assim, de aportes do BCE, vetados pela Alemanha, o sustentáculo do euro. Mas sem riscar tais papéis, que são ativos podres para a banca e a pedra no caminho da Europa, não há crescimento na zona do euro, e mais difícil será a solução da crise para os EUA e no mundo. Risco de US$ 11,8 tri Com o dólar, ainda que com má-vontade, demandado pelo mundo, os EUA não têm crise de dívida, mas fiscal, e agravada pela inépcia para fazer a economia crescer. Já a Europa não tem chance, com os US$ 2,2 trilhões de papéis de Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha, dos quais 81% com bancos europeus. Isto equivale, segundo estudo da Bedlam, gestora inglesa de fundos, a 59% do capital da banca européia. O resto está com bancos dos EUA. Se todos forem forçados a dar baixa de 30% desse fardo, premissa razoável à luz das taxas com que os papéis têm sido negociados, a banca européia terá perda de capital de 18%, e a dos EUA, 8%. Em tal cenário, a contração do crédito pode chegar a US$ 11,8 trilhões. Esse é o tamanho da crise. |
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Europa patina em dívidas e desestabiliza os mercados, enquanto EUA respiram com mais empregos
Europa patina em dívidas e desestabiliza os mercados, enquanto EUA respiram com mais empregos
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