terça-feira, 4 de outubro de 2011

Governo muda política econômica e prioriza investimentos contra a ameaça de recessão no mundo


Preparação contra emergências se dá em dois planos: o da política econômica e o da gestão de projetos com efeito multiplicador sobre a demanda

3/10/2011 - 10:05 - Antonio Machado

Os anúncios cada vez mais explícitos dos dirigentes das entidades multilaterais, como Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial, e dos economistas-chefes dos grandes bancos de que a Europa e EUA vão entrar em recessão a partir deste trimestre já precipita ações de salvaguarda do governo Dilma Rousseff. É preciso acompanhá-las.

A queda da Selic antecipada pelo Banco Central e o protecionismo contra carros importados por montadoras sem fábricas no país estão entre as medidas que objetivam, segundo a presidente, resguardar o mercado interno e o emprego da “pirataria” de países.

Isso atenta contra o que o governo Lula mais combatia na Organização Mundial do Comércio: privar o livre acesso aos mercados. Mas desde então o mundo ficou mais complexo e há o risco de choques abruptos.

A preparação da economia contra emergências se dá em dois planos: o da política econômica (que começa a mudar com a atenção dupla do BC à inflação, até então exclusiva, e ao crescimento econômico) e o da administração de investimentos com efeito multiplicador sobre a demanda - do programa Minha Casa Minha Vida, de casas populares, às usinas hidrelétricas, arenas para a Copa e trem-bala.

Nenhuma dessas ações é isenta de ressalvas. O laxismo fiscal, por exemplo, não dispõe mais do espaço que havia pós-quebra do Lehman Brothers para a Fazenda praticar política anticíclica, sobretudo com desonerações tributárias.

Quanto mais baixo chegar a atividade no mundo, pior será para as commodities, grande tração da economia brasileira desde 2003. Melhor para a inflação, pois aliviará a mão do BC sobre os juros, já que a desinflação ou até deflação externa tenderá a desinflar boa parte dos preços ao consumidor e produtor.

Mas na economia um efeito leva a outro. A balança comercial ainda é superavitária (previsão de US$ 26,6 bilhões este ano) graças às exportações do agronegócio e de minérios, ambos beneficiados pela relação de trocas recorde, ou seja: o país recebe mais pelo que exporta, grosso modo commodities, do que paga pelo que importa, em geral bens de capital demandados pela indústria e bens de consumo, como carro argentino, iPad chinês, queijo francês e jeans USA.

China é o bem e o mal

A perda da vantagem das commodities - que ainda é incerta, já que dependente da resistência da China, o maior importador de insumos e alimentos do mundo -, abalará as contas externas do país, desde 2007 deficitárias (US$ 53,5 bilhões este ano, ou 2,1% do PIB).

Tais movimentos tendem a depreciar a taxa cambial, como reclama o exportador. Mas, num mundo sem demanda e a China com toda a oferta do mundo, para quem vai vender a indústria de “um país caro, que investe pouco e tem baixa produtividade”, como define o economista Fernando Montero? Não há moeda fraca, hoje, que peite o renminbi.

Trem-bala ou a saúde?

Se decisões estratégicas sobre a economia podem implicar outros resultados não previstos ou desejados, as que envolvem a seleção de projetos de investimentos e de transferências de renda são até mais cruciais, pois irreversíveis, caso se mostrem disfuncionais.

A emergência que as gerou passa, o ônus fica. Mesmo investimentos financiados pelos bancos públicos, que escapam à camisa de força orçamentária, têm ônus, no mínimo, do subsídio de juro, que um dia terá de ser incorporado às contas fiscais, pagas por todos nós - e vão disputar a verba fiscal sempre escassa com a saúde e educação.

É nesse sentido que o trem-bala não é um projeto neutro do ponto de vista orçamentário. Seria se fosse privado. Não será, como não é o custeio da Copa, contrariando o modelo original. Isso não quer dizer que ambos sejam ruins, e, sim, que há prioridades e fila.

Emergência e bom senso

A racionalidade de um programa para blindar o país contra o viés de recessão no mundo pode ser técnica ou servir para desbloquear vetos implícitos que tolhem a liberdade de o governo intervir na economia. Era o caso da taxa Selic, pilotada pelas expectativas do mercado financeiro e consultorias mais que pela inflação efetiva.

O BC mudou essa relação, entendendo que o mundo reduziu os riscos para a inflação, o que ainda não está provado. Mas com os juros de dois dígitos num mundo sem juros estranho seria que desperdiçasse a oportunidade para testar novos enfoques contra a inflação.

Não é o caso do trem-bala disputando recursos com saneamento ou a saúde. Se seu funding depende de repasses do Tesouro ao BNDES, que vai financiá-lo, lato sensu a fonte é fiscal, e compete, portanto, com prioridades mais adequadas. Por maior que venha a ser a crise externa, emergência alguma substitui o bom julgamento.

Gisele dispensa censura

E já que se fala de julgamento o da Secretária de Políticas para Mulheres, dirigida com status de ministro pela ex-deputada Iriny Lopes (PT), sobre uma propaganda de lingerie estrelado por Gisele Bündchen parece coisa de gente zangada.

Um artigo no site da pasta diz que “uma mulher infantilizada e dependente é ‘ensinada’ que, para tratar com marido (...) por ter batido o carro ou excedido o cartão de crédito, a melhor forma é ficar de calcinha e sutiã”.

Reconhecida internacionalmente, a imagem de Gisele honra o país. Ela não faria algo indigno. Como diz a jornalista Marli Gonçalves, “país rico é país sem esse povo que acha que sabe o que é bom e quer impor por decreto. Nós, Mulheres, somos como cavalos livres”.

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