sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Estagnação no trimestre também repercute cautela do consumidor e ajuste em serviços, o que não é mau

stranho era o consumo e o setor de serviços bombar à custa dos bens exportáveis e da indústria fraca. O ajuste fiscal distribuiu melhor esse ônus

8/12/2011 - 03:11 - Antonio Machado

A ironia sobre o fraco desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre é que o resultado só não foi pior graças às exportações, e não à demanda interna, apresentada pela presidente Dilma Rousseff nos fóruns internacionais como testemunha do acerto da política econômica adotada pelo Brasil contra a crise global.

Ela não está equivocada, caso se expanda a análise. O crescimento do setor agrícola pelo lado da oferta - com avanço intertrimestres de 3,2%, após a contração de 0,6% no 2º trimestre -, e, pelo lado da demanda, a contribuição positiva das exportações líquidas, com alta de 1,8%, foram os itens do PIB que salvaram o resultado.

Tal desempenho, influenciado (pelo lado da oferta entre o 2º e o 3º trimestre) pelo recuo de 0,9% da indústria e de 0,3% do setor de serviços, esse número, sim, a grande surpresa, conduziu o PIB à estagnação no encadeamento trimestral e a um aumento de 2,1% sobre igual período de 2010. A oferta encolheu, acompanhando a demanda.

O IBGE chega ao resultado do PIB por dois caminhos: o da oferta e o da demanda, ambos equivalentes na conta final. Se dos três itens da oferta, apenas o agropecuário teve evolução positiva, pelo lado da demanda destacaram-se as exportações, apesar da crise no mundo.

Sempre em relação ao trimestre passado, o consumo das famílias de julho e setembro caiu 0,1%, o consumo do governo recuou 0,7% e a taxa de investimento (ou, conforme o jargão das contas nacionais, formação bruta de capital fixo) emagreceu 0,2%.

O que a oferta não entregou, sobretudo a indústria, a demanda também não pressionou, diminuindo o seu vazamento para as importações. Importa o que virá.

A percepção é que a economia também esteja andando de lado neste fim de ano, mas menos o consumo do que a indústria, cujo calcanhar continua mordido pelas importações, e a taxa de investimentos.

A expectativa do comércio é de retomada do consumo até a véspera do Natal, como prevê a Fecomércio de São Paulo. Nas projeções da entidade, a manutenção do nível de emprego e de renda – ancorados no menor índice histórico de desocupação no país, da ordem de 5,8% da população ativa, e no aumento da massa real de rendimentos de 5,7% – firma o ambiente de expansão do consumo sem inadimplência.

“O resultado será um Natal ainda melhor que o de 2010”, aposta o superintendente da Fecomércio, Antonio Carlos Borges. Seu otimismo também se sustenta num índice próprio, que afere a confiança do consumidor. Está acima de 150 pontos, numa escala de 0 a 200.

Importação reduz o PIB

A ser como prevê a Fecomércio, e não há nos indicadores de renda e emprego nada contundente contra o crescimento econômico, fica a pergunta sobre o que teria acontecido com a volúpia consumista no 3º trimestre. Há duas explicações possíveis.

A primeira deve estar no que já se alertava neste espaço: que a indústria incorpora cada vez mais partes importadas em seu processo produtivo. Importações subtraem produção nacional e desviam pedaços da renda para os exportadores no exterior.

Ao incentivar o consumo, supondo ativar assim o crescimento econômico, o governo deve estar atento para esta sequela. A demanda crescerá, não o PIB. Este é um dado.

O investimento atrasou

Outro é que o investimento comanda a dinâmica do crescimento, mas especialmente em nova ou em maior capacidade produtiva. A taxa de investimento alavancada pela construção civil - um dos componentes da formação bruta de capital fixo, que também inclui a compra de máquinas e equipamentos – gera resultado rápido sobre o PIB, mas o seu vôo é curto, já que não cria fluxos contínuos de produção.

Para conter a demanda com ajuste fiscal, o governo adiou este ano boa parte do investimento público, enquanto o setor privado também se retraiu à espera de clareza dos cenários, sobretudo lá fora.

Os dois movimentos, superpostos com o viés de internacionalização das cadeias de produção, ajudaram a reduzir a demanda no trimestre.

Linhas tortas do ajuste

A segunda explicação para a retração do consumo, segundo o quadro da Fecomércio, teria sido o consumidor se preocupar em baixar seu nível de endividamento. Na capital de São Paulo, diminuiu para 41% a relação de famílias, em novembro, com algum tipo de dívida.

Não é ruim tal conduta. Talvez nem a relativa estagnação do PIB. Como sacou o economista Fernando Montero, espantoso era a demanda e o setor de serviços, ou non tradables, isto é, não exportáveis, estarem bombando à custa dos tradables e da indústria fraca.

Para Montero, o ajuste fiscal distribuiu melhor esse ônus. Se tal fator for previsto em 2012, a retomada do PIB poderá favorecer a indústria.

Ranço dos economistas

É certo que a maioria dos economistas ouvidos pela imprensa tem o pé atrás em relação ao governo, assumindo análises mais histéricas que racionais. Fizeram isso quando o Banco Central cortou a Selic. Alguns foram desrespeitosos, acusando o BC de servil a Dilma.

Sobre o balanceamento da intervenção do governo na economia entre as ações de transferência de renda e o investimento público, nada disseram, mal disfarçando o ranço ideológico de suas análises.

Fossem menos preconceituosos, teriam enxergado o que Montero viu ao debulhar o PIB, uma visão determinante para Dilma re-orientar a política econômica ouvindo mais gente, como o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, que sabe como poucos onde estão os gargalos.

Estagnação no trimestre também repercute cautela do consumidor e ajuste em serviços, o que não é mau

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