sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Só aqui, com o PIB embotado, o desemprego tem recorde de baixa e a indústria “produz” importando

Com a taxa de desemprego em novembro no menor nível histórico, significando que apenas 5,2% da População Economicamente Ativa (PEA) estão sem emprego, o governo, os economistas e, sobretudo, a oposição têm muita coisa para refletir no recesso da virada do ano. Esse não é um número para ser tratado com frieza.

De cara, torna vazio o título de artigo de José Serra, rival da presidente Dilma Rousseff na eleição de 2010: “O governo que não começou”. Para os empregados, cuja renda real média continua em alta, apesar da inflação, pois, conforme o mapa sobre emprego do IBGE, ela cresceu 0,7% em relação a novembro de 2010, depois de recuar 0,3% em outubro, se o governo melhorar, talvez atrapalhe.

É difícil sustentar, como tenta o ex-prefeito do Rio de Janeiro César Maia, prócer do Dem, que “o ano de 2011 foi perdido para o governo federal, seja do ponto de vista político ou econômico”. Político pode ser, devido aos escândalos que levaram à demissão de seis ministros. Mas Dilma aprovou o que quis no Congresso.

Na economia, sim, houve perdas, mas isso não é fácil explicar. Não é a redução do ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 7,5%, em 2010, para 3%, este ano – conforme a projeção do Banco Central inserida no bojo de seu Relatório Trimestral de Inflação (RTI), também divulgado na quinta-feira -, a causa para preocupações. Afinal, a economia continua crescendo.

A taxa de 3%, num mundo em crise e quase parando, está longe de ser desprezível. Em 2012, quando, segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional), a Zona do Euro estará em recessão, os EUA a meio pau, o Japão também para baixo e a China, correndo tudo bem para seu inflado mercado imobiliário, crescendo entre 8% e 9% - menos que seu crescimento histórico de dois dígitos -, o nosso PIB, na visão do BC, poderá avançar 3,5%. Tal número é mais realista que os 4,5% a 5% cogitados pelo ministro Guido Mantega.

Entre o que diz Mantega e o que projeta o BC está a compreensão sobre o que aflige a economia. O ministro da Fazenda a elabora, provavelmente, à luz dos dados correntes sobre vendas do varejo, produção industrial, concessões de crédito bancário, a execução do orçamento federal, os financiamentos dos bancos públicos. Por tais linhas, 2012 será mais forte que 2011. Mas isso não é tudo.

O que tirou o brilho

O desempenho da economia seria vistoso este ano, não tivesse a indústria correspondido mal à dinâmica da demanda, que pouco se retraiu. O nível de emprego e a expansão da renda corroboram tal conclusão. Mas, como havíamos dito, esse quadro não é simples.

Números da CNI (Confederação Nacional da Indústria) mostram que enquanto em doze meses até outubro a produção industrial cresceu 1,3%, o faturamento da indústria subiu 5,3%.

Como explicar essa dicotomia, já que a inflação de manufaturados, no mesmo período, cresceu abaixo da inflação geral, tendo havido até deflação no subgrupo de eletroeletrônicos e eletrodomésticos? Se a receita não subiu pelo preço, subiu com base em quê? Nas importações.

O nexo mal estudado

Continua mal estudado o nexo entre a queda relativa da parcela nacional da indústria em relação à sua produção efetiva total e o andamento do PIB.

Há evidências empíricas de que a indústria tem-se defendido da concorrência externa apelando à distribuição de bens importados ou adicionando insumos de fora às cadeias produtivas, para compensar os altos custos de produção no Brasil vis-à-vis em países como China e EUA. Ou a Europa em crise.

Sem compensação cambial, tais custos têm alijado a indústria de importantes mercados externos, até da Argentina. Mas, recorrendo à “internacionalização” das cadeias produtivas, a indústria está conseguindo, ao menos, defender-se no mercado doméstico. Para as multinacionais, além disso, esse cenário é álibi para transferir via importações resultados diretamente às matrizes em recessão.

Qual a sinuca de bico

Tem-se, assim, a compreensão sobre uma economia em situação de pleno emprego, refletindo o consumo em bom estado (as vendas no comércio crescem 7% no ano), mas com PIB desidratado e inflação ainda gorda, embora cadente (está vindo do pico de 7,31% em doze meses até setembro para 6,5% no fim de dezembro ou perto disso).

Agora, imagine em quanto ela estaria sem a ortodoxia da Fazenda e do BC até o começo deste semestre. O que fazer para frente é o busílis, sabendo-se que o incentivo à indústria, sem baixar seus custos, ou ao consumo, vai vazar para fora. E embotar o PIB.

Uma notícia esquisita

Por tais coisas, segundo o economista Júlio Gomes de Almeida, a notícia da queda do desemprego é a “mais esquisita do mundo”. O risco, diz, “é que, como há defasagem entre as medidas tomadas e seus resultados, pode-se achar que tudo está bem, e o cenário já mudou. É o tal efeito retrovisor.”

O emprego também pode estar influenciado pelas contratações temporárias, comuns em finais de ano, mas hoje ampliadas pelas incertezas sobre 2012.

Almeida fala também da “janela demográfica”. Por ser algo pouco visível, não se atenta que já começou o viés de redução da taxa de expansão populacional, o que tende a tornar apertado, de modo permanente, o mercado de trabalho. Nada disso está em discussão.


Só aqui, com o PIB embotado, o desemprego tem recorde de baixa e a indústria “produz” importando

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