quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Mundo surfava a onda da bonança quando a crise chegou, e o Brasil ainda nadava em direção a ela: "


Longa ressaca da economia devido à embriaguez do crescimento dos anos 70 e 80 fortaleceu o país

18.02.2009 - 18:40

Antonio Machado

O crescimento da economia brasileira a partir de 1990, início do primeiro governo eleito e das reformas das finanças do país desde o fim da ditadura militar, não foi dos mais brilhantes no mundo. E tampouco foi de décadas perdidas, conforme o senso comum, à luz do cenário que deve emergir depois da grande crise global.

Que o país correu atrás do mundo é sabido. A questão é o que será daqui para frente e compreender o que provocou tal atraso para uma economia que dos anos 50 a 80 foi a de maior crescimento do mundo - a China do período -, expandindo-se à média de 7% anual.

O país esgarçou ao máximo suas possibilidades de financiamento a que poderia apelar, servindo-se de tudo, do aumento de impostos e emissão inflacionária de moeda ao endividamento externo, sobretudo depois do golpe militar de 1964, fragilizando-se para enfrentar os ciclos da economia mundial. Vieram os dois choques de petróleo dos anos 70 e 80, a trombada dos juros nos EUA - e o país foi à lona.

O processo de crescimento dos trinta anos anteriores ao ocaso do modelo de crescimento acelerado, misturando dirigismo estatal com crédito farto para as empresas e a classe média, assemelha-se ao grande salto da China a partir de 1978. E diverge da prosperidade global tocada pelo alucinante consumo bancado por dívidas nos EUA pelo advento da desregulamentação dos mercados, especialmente das atividades financeiras, ao que se chama de neoliberalismo.

Esse movimento de criação de riqueza se esgotou, e vive-se hoje a ressaca da “bonança imprudente”, segundo imagem de um comentarista do blog do economista Paul Krugman. Entrou-se na fase de expiação do porre de liquidez e das seqüelas de sua abstinência, implicando pagamento de dívidas, contenção de consumo e ajuste da capacidade de produção no mundo ao fim do bocado da demanda movida a crédito suprido por papelotes financeiros que apodreceram nos balanços dos bancos, sobretudo da Europa e EUA, tornando-os zumbis da economia.

A relativa situação mais cômoda do Brasil em relação à agonia em todas as economias, inclusive a chinesa, dependente da pujança do consumo americano e europeu, que tombaram em recessão, está aí, na diferença de momentos entre o ápice da crise e essa retrospectiva.

Turbinando o motor

Todos surfavam a onda da bonança quando a crise chegou, e tomaram um caldo. O Brasil ainda nadava em direção a ela e pôde agarrar-se à prancha antes que a marolinha virasse vagalhão.

A longa ressaca da economia brasileira, pela embriaguez do crescimento dos anos 70 e 80, fortaleceu o país. E é isso o que salta à vista de um quadro singelo sobre a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de vários países entre 1990 e 2008, preparado pelo economista Amir Khair.

“O Brasil aproveitou o crescimento mundial?”, ele indaga, sem dar resposta, mas sugerindo reflexões. É inevitável a associação com a idéia de que o país passou o tempo turbinando o motor à margem da pista, enquanto os que passavam voando começam agora a parar.

Puxadores do bloco

A comparação relevante é a da evolução do PIB entre o período de forte crescimento, de 2004 a 2008, com a média do ciclo anterior, de 1990 a 2003. A economia mundial cresceu de um período ao outro de 3,2% para 4,3%, com variação de 33% entre os dois momentos.

Dos países que importam na economia global, somente três apresentaram aumento da taxa de crescimento econômico acima da média mundial.

Argentina foi o país que apresentou a maior variação de sua taxa média entre os dois períodos (2,2% e 8,4%, respectivamente), com 275%. Mas isso, como explica Amir Khair, porque entre 2001 e 2002, auge da moratória da dívida externa, o PIB argentino desabou 15%.

Tomando a dianteira

Afora a singularidade argentina, o realce é do Brasil. A taxa de crescimento do PIB saltou de 1,9% para 4,8% entre os períodos de 1990 a 2003 e de 2004 a 2008, com variação de 161%, arredondando, seguida pelo Japão, 55%, e China, 12%.

Destes, o Japão já está de volta à recessão, a quinta desde 1982. China, país mais preparado no mundo para sair da crise ao lado do Brasil, segundo o FMI, se esforça para o PIB este ano não cair de 13% em 2007 e 9% em 2008 para abaixo de 6%.

Aqui, espera-se de 1% a 3%, o que será mais que a média mundial e a de qualquer vizinho e país rico. Significa que o Brasil deixará de comer poeira, podendo assumir a dianteira, mas se o governo não se entusiasmar, pondo a perder a vantagem fiscal.

Risco de outro BNH

Desenvolvimento é um processo cumulativo, planejado e dependente de sintonia entre os interesses do Estado e das empresas privadas. Sempre que um lado prevalece termina mal. Preocupa, por exemplo, o governo querer da CEF um plano para bancar 1 milhão de casas até 2010, o que supera as possibilidades do FGTS e exige a entrada do Banco do Brasil. A CEF planejava, estourando, 500 mil casas.

O que é isso? Plano anticrise ou outro Bolsa Família para bombar a sucessão de Lula? O país precisa de investimentos multiplicadores, nesta altura, não de anabolizantes que criem sensação de bem-estar imediata e esqueletos que vão assombrar outra geração - a história do velho BNH, que ainda está aí sugando o orçamento todos os anos."

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