<-- O Jornal de Hoje - Natal - RN - Brasil -->: "Colunista: Marcos Aurélio de Sá
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Presidente Lula protagoniza mais um lance ficcional da reforma agrária do RN
• As famílias de trabalhadores rurais que residem no Assentamento Rosário, na Agrovila Canudos, município de Ceará-Mirim, receberam no começo desta tarde a visita do presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva.
• Ele veio conhecer um dos projetos de 'sustentabilidade rural' que o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) divulga como 'o mais bem sucedido do país'. Trata-se de o pólo de criação de tilápias em cativeiro, administrado pelos próprios assentados, segundo a informação oficial.
• Diz um o texto de um release encaminhado à imprensa natalense pela Superintendência potiguar da Conab (Companhia Brasileira de Abastecimento, empresa estatal que dá apoio ao tal projeto de tilapicultura), que a experiência de criação do peixe em pequenos viveiros nas áreas dos assentamentos 'vem se desenvolvendo há quatro anos e beneficia 1.750 famílias em 18 agrovilas da região do Mato Grande, gerando renda e oportunidades de trabalho'.
• Assinala ainda o release que 'além da produção de 13 toneladas de peixe por mês, os trabalhadores cultivam 15 hectares de mamão e 7,5 hectares de banana, além de sorgo e pinhão manso. No caso da banana, parte da produção é vendida ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), executado pela Conab. A comercialização é feita, desde 2007, por meio da Cooperativa dos Produtores de Canudos (Copec) e a fruta adquirida é doada às famílias que vivem em situação de insegurança alimentar. Só no ano passado, foram mais de 62 mil quilos, beneficiando 6,7 mil pessoas.'
• Feitos os registros acima, vale a pena analisá-los sob o ponto de vista puramente econômico, pois só assim se pode ter uma idéia precisa do que significa esta obra governamental que mereceu a visita do presidente. E é isto que me proponho a fazer nos parágrafos seguintes.
• Se o pólo de criação de tilápia produz realmente 13 toneladas/mês e envolve o trabalho de 1.750 famílias, verifica-se que o programa rende apenas a média mensal 7,4 quilos de peixe para cada uma delas. E, levando-se em conta que o quilo da tilápia ao produtor vale hoje apenas R$ 3,00, isto representa a geração de uma renda de pouco mais de R$ 21,00 por família, caso elas resolvessem comercializar o alimento produzido. Mas se cada família beneficiada for constituída por cinco pessoas e preferir consumir os 7,4 quilos de tilápia proporcionados a cada uma delas por mês, isto permitirá que cada um dos seus membros coma apenas 4 gramas de peixe ao dia, o que, convenhamos, é quase nada.
• Em relação à distribuição de 62 mil quilos de frutas colhidas nos 22,5 hectares de mamão e banana no ano de 2008, beneficiando 6,7 mil pessoas, fica fácil estimar que cada uma teve direito a 9,2 quilos desse alimento no período de 365 dias, o que daria apenas pouco mais de 2 gramas por dia. Não dá sequer para garantir a subsistência de um passarinho, quanto mais de um ser humano!
• Infelizmente, os órgãos governamentais nada divulgaram -- nem hoje nem nos dias que antecederam essa vinda do presidente Lula ao RN -- sobre o verdadeiro custo financeiro desse projeto que tanta atenção está despertando nas maiores autoridades do país, a ponto de formarem tão numerosa comitiva para conhecê-lo de perto. Sem medo de errar, porém, eu garanto que os resultados alcançados valem menos do que o dinheiro gasto com o deslocamento da troupe loquaz de Brasília ao nosso Estado.
• Cálculos da Confederação Nacional da Agricultura e da Pecuária, elaborados anos atrás, apontavam que, para assentar uma família de sem-terra nos programas de reforma agrária do governo federal pelo país a fora eram gastos algo em torno de R$ 50 mil, computando-se tão-somente o custo da desapropriação das terras, a construção de moradias e a montagem da precária infraestrutura dos assentamentos.
• Assim se pode imaginar, sem exagero, que as 1.750 famílias das 18 agrovilas do Mato Grande que ora se beneficiam do pólo de produção de tilápia e dos 22,5 hectares de fruticultura irrigada consumiram recursos públicos da ordem de R$ 87,5 milhões, sem falar dos muitos outros milhões que lhes são destinados através de programas como este ou pelos seguidos 'empréstimos' do Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), que os bancos oficiais lhes repassam, mesmo os gerentes conscientes de que jamais receberão o dinheiro de volta.
• O fato é que, sustentados pelo dinheiro fácil e farto do Ministério do Desenvolvimento Agrário e do Incra, da Secretaria Especial da Aquicultura e da Pesca, do Ministério da Agricultura, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, do Banco do Brasil, do Banco do Nordeste, além de recursos de tantos governos estaduais e municipais que se sensibilizam com essa farsa populista de reforma agrária -- que desapropria fazendas qualificadas de 'improdutivas' para depois transformá-las em favelões rurais -- os programas do poder público tornam o nosso meio rural cada dia mais pobre e sem perspectivas e deixam os habitantes do campo condenados a viver na ociosidade, dependentes da esmola mensal do Bolsa Família, do 'bolsa menino' e de outras milacrias viviantes.
• As palavras trabalhar e produzir, para muitos antigos trabalhadores rurais, estão virando palavrão. Com o governo como patrão, trabalhar para quê?... Viva Lula!"
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