quarta-feira, 11 de março de 2009

Cidade Biz - Economia, Marketing e Negócios - Deflação do IGP e queda do PIB encerram papo de corte minimalista da Selic. Está mais para 2%

BC pode fazer muito mais para devolver um mínimo de sanidade à economia e minimizar riscos futuros
Antonio Machado

Com a variação negativa de 0,13% em fevereiro do Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna ou simplesmente IGP-DI, a antiga medida oficial da inflação - substituída pela métrica do IPCA, dos preços ao consumidor, calculado pelo IBGE -, o Banco Central ficou sem motivos para ser cauteloso e promover um corte tímido na Selic de 12,75% de apenas 1 ponto de percentagem na reunião de amanhã.

A economia vem em nítido processo de desaceleração, conforme foi demonstrado com o perfil do Produto Interno Bruto (PIB) anunciado pelo IBGE, relativo ao quarto trimestre e ao ano fechado de 2008. A taxa anual cresceu forte sobre 2007, 5,1%, mas a trimestral caiu pesado sobre o trimestre anterior, 3,6%, a maior queda desde 1996.

A produção industrial, que ruíra 12,7% em dezembro sobre novembro e acumulou retração de 20% desde outubro, avançou 2,3% em janeiro em base mensal e está em recuperação, mas em ritmo lento - e assim deve continuar. O cenário para 2009 projeta a atividade econômica na retranca, o que é compatível com a piora da recessão global e o certo, para não desperdiçar as vantagens comparativas nem a chance de o país sair na frente em relação ao resto do mundo ao esvaecer o ciclo de corrosão geral das riquezas financeiras e da produção.

O governo foi arrastado para a crise sem uma estratégia. A rigor, nem a pressentira, como demonstram as despesas permanentes sobre o orçamento fiscal aprovadas em 2008, quando já estava explicitada a ruptura do crédito global. O aumento em serie da folha do servidor federal foi o exemplo contundente, mas houve muitos outros.

O BC também não cheirou nada, tanto que se preocupara com a inflação no início de 2008, inchando a Selic até 13,75% em setembro e depois a deixou ai até a reunião de 21 de janeiro, quando mudou o discurso.

A questão central agora é calibrar o crescimento para não deixá-lo se prostrar. Tornam-se secundárias preocupações com pressões de demanda, que ao longo de 2008 fizeram a cabeça dos economistas do BC, e com o risco de repasses da maxidesvalorização do real, outro dos absurdos tolerados pelo governo tanto quanto fora a apreciação do real que a antecedera, levando o dólar ao patamar de R$ 1,50.

Hoje, há uma prioridade maior a considerar, o nível da atividade, e é com ela que o BC deve lidar. Se não o fizer, fará o governo, e com o risco de conectar os planos anticíclicos à agenda eleitoral, arriscando o fiscal de 2010 e 2011.

A economia precisa deles tanto quanto do afrouxamento monetário, mas a falta de um dará ao outro a legitimidade e justificativa para excessos difíceis de reverter.

Riscos de outro BNH

Os diferenciais brasileiros nessa crise também estão no histórico de irresponsabilidades. Nos anos 70, para tornar-se mais palatável à classe média, o governo do general Emílio Médici atou o reajuste da prestação da casa própria a 20% da inflação. Quando ela saiu de controle, quebrou o Banco Nacional da Habitação, BNH.

O BNH num único ano chegara a financiar 800 mil casas subsidiadas, o que se compara aos 125 mil imóveis populares financiados pela CEF, Caixa Econômica Federal, em 2008. É o número que o presidente Lula quer elevar para 1 milhão em dois anos até 2010, desatento ao passado.

Homenagens efêmeras

No primeiro plano da CEF, daria, estourando, chegar a 500 mil. Se essa é a meta razoável, ampliá-la é temerário. Pegue-se o BNH. Por muitos anos vai assombrar os brasileiros. Gerou um rombo que ainda hoje, conforme acordo antigo com o FMI, é apropriado ao orçamento fiscal em prestações anuais.

Corrigido, é um esqueleto ainda acima de R$ 80 bilhões. Pagam os brasileiros por apartamentos avaliados em R$ 500 mil, no fim dos anos 90, e prestação fixa de R$ 70. Sim, R$ 70, uma doação. Médici foi ovacionado num jogo no Maracanã, em 1970, ápice dos “anos de chumbo”, por coisas assim. Hoje, ninguém o exalta.

A balela do câmbio

O BC pode fazer muito mais para devolver um mínimo de sanidade à atividade econômica e minimizar os riscos futuros. Atualmente, os seus diretores se escoram em ameaças de repasse da depreciação do real aos preços para justificar seu conservadorismo. Balela.

O IGP é o índice mais sensível ao câmbio, já que formado por um coquetel de outros três, um dos quais o IPA, dos preços por atacado, é uma espécie de roteiro do dólar sobre a inflação. O IPA teve deflação de 0,31% em fevereiro.

Com Selic a 12,75%, a taxa real estimada pelo IPCA prevista para o ano dá 8%, um exagero. Que perca 2%, e ainda será um juro robusto. Não há tempo para perorar.

Espaço para navalhar

A economia perdeu o impulso das exportações e do funding externo, ambos devido à crise mundial, o que se tenta compensar com medidas que animem o mercado interno. Como aqui não há risco de depressão, como na Europa e EUA, e o governo consumiu a folga fiscal da época de bonança, a válvula a abrir é a monetária, que ficou muito tempo arrochada até como reação do BC ao laxismo do gasto.

A consultoria MCM simulou que, com PIB caindo 0,5% em 2009 e subindo 2% em 2010, e inflação de 4,4% este ano e 3,5% no próximo, a Selic a 9% é mais coerente com o caso em que o PIB cresce muito abaixo do potencial, da ordem de 4,7% ao ano. Na verdade, até Selic de 9% parece demais.

Nenhum comentário: